Nenhuma sociedade constrói o seu futuro sem a entrega dos jovens ao projeto coletivo, e nenhuma o fará se não aceitar que esse futuro lhes pertence. Os jovens do milénio, que agora começam a votar e a assumir um papel cívico pleno, participam menos da vida coletiva e mantêm uma relação mais distante com a comunidade e com as instituições democráticas. Não por desinteresse, mas porque não se reconhecem na forma como a política exerce liderança.
Segundo dados oficiais da Comissão Nacional de Eleições, a abstenção tem sido consistentemente mais elevada entre os eleitores mais jovens. Não é um detalhe estatístico. É um sinal político claro: há uma geração que deixou de acreditar que a participação compensa.
Não porque rejeitem a democracia, mas porque não aceitam ou compreendem o tipo de liderança que lhes é apresentada. Esperam que os políticos guiem, expliquem, assumam responsabilidades e criem sentido coletivo. Em vez disso, encontram frequentemente discursos vazios, conflitos estéreis e uma política mais preocupada consigo própria do que com a resolução concreta dos problemas.
Neste contexto, o afastamento jovem não é um fenómeno isolado. É o resultado de uma política que perdeu credibilidade, tornou-se arriscada para quem está a começar a vida adulta e abriu espaço ao populismo, à abstenção e à desconfiança generalizada.
O fenómeno tem nome: FOMO, Fear Of Missing Out. O medo de ficar para trás. De errar publicamente. De escolher mal. E esse medo agrava-se quando a política perde o seu ativo mais escasso e mais decisivo: a credibilidade.
Nunca uma geração esteve tão informada, tão exposta e tão politizada no discurso. E nunca tão pouco participou de forma estruturada. O paradoxo não é tecnológico, é psicológico, social e profundamente político.
Política em tempo de feed, credibilidade em tempo de escassez
O FOMO molda uma política de consumo acelerado. Stories em vez de programas. Hashtags em vez de propostas. Emoção em vez de compromisso. O jovem português acompanha debates, reage a polémicas, partilha indignações. Mas hesita quando a política exige escolha, consequência e continuidade.
Num país pequeno, onde “toda a gente se conhece”, assumir uma posição política tem custo social. Quando esse custo não é compensado por instituições previsíveis, coerentes e credíveis, a equação é simples: o risco é demasiado alto.
A falta de credibilidade não afasta apenas os jovens da política institucional, empurra-os, sim, para fora do centro democrático.
O vazio democrático, a abstenção, e a tentação populista
Quando a política perde credibilidade, alguém ocupa o espaço. E esse alguém raramente é moderado. O afastamento dos jovens da política tradicional cria um terreno fértil para o crescimento do populismo, com discursos simples sobre problemas complexos, promessas sem custo, culpados claros e soluções fáceis. O populismo prospera exatamente onde a credibilidade desaparece.
Para muitos jovens, o populismo surge como uma resposta sedutora porque aparenta devolver aquilo que o sistema deixou de garantir: uma sensação de clareza num mundo ambíguo, uma emoção em que hoje há burocracia e certezas imediatas em vez de processos longos e incompreensíveis. Mas essa promessa tem um custo elevado e frequentemente escondido. Ao simplificar em excesso, o populismo reduz a liberdade individual, dilui a responsabilidade pessoal, empobrece o pluralismo e compromete o futuro. O que oferece como segurança momentânea acaba por retirar o que mais valor tem para uma geração que quer escolher, experimentar e construir o seu próprio caminho.
A elevada abstenção jovem não é apatia. É um mecanismo racional de autoproteção. Escolher implica errar. Errar implica pagar um preço reputacional. Num contexto de precariedade económica, carreiras instáveis e mobilidade social fraca, poucos jovens estão disponíveis para correr esse risco em sistemas que parecem não cumprir.
O problema é que essa ausência silenciosa não neutraliza o sistema, e sim o fragiliza. Quanto menos jovens participam, mais espaço sobra para soluções autoritárias, iliberais e oportunistas.
Credibilidade é o pilar, liberalismo é a resposta
Se há uma via rápida para trazer os jovens de volta à política democrática, ela chama-se credibilidade. Não marketing. Não slogans. Não encenações de proximidade.
Credibilidade constrói-se quando as regras são claras e estáveis, as promessas têm consequências e os erros são assumidos. A credibilidade reside num espaço em que a coerência vale mais do que a tática e em que o poder tem limites visíveis. Para uma geração avessa ao risco desnecessário, a credibilidade reduz o custo de entrar, escolher e participar.
O liberalismo político assenta exatamente neste ponto: instituições credíveis, limites ao poder e responsabilidade individual. Não promete mundos perfeitos, mas oferece regras justas, previsíveis e transparentes. Limita o impacto do erro, protege a diversidade de escolhas, aceita a evolução individual e substitui a moralização pela responsabilidade.
É por isso que importa clarificar uma coisa: quando falo de liberalismo político, não falo de rótulos partidários nem de pertenças ideológicas fechadas. Falo de uma arquitetura institucional que protege os cidadãos quando a política falha. Separação de poderes. Limites claros ao poder do Estado. Regras estáveis que não mudam ao sabor do ciclo eleitoral. Responsabilidade individual como pilar, não como retórica.
Para os jovens, isto é decisivo. Num contexto de FOMO, precariedade e medo de errar, o liberalismo não é apenas uma ideologia, é uma arquitetura de confiança.
Instituições lentas, vidas urgentes, escolhas silenciosas
A política institucional portuguesa continua hierárquica, formal e lenta. A vida dos jovens é urgente, instável e acelerada. Este desfasamento só se agrava quando o sistema parece fechado, autorreferencial e pouco responsivo.
Os jovens não pedem atalhos democráticos. Pedem confiança mínima para se comprometerem. Querem mais soluções concretas para problemas reais e menos discursos abstratos e promessas impossíveis.
O maior erro é achar que os jovens “não ligam”. Ligam, mas não confiam. E quando a política democrática falha em ser credível, outros oferecem respostas mais simples e mais perigosas.
Combater o FOMO político não é tornar a política mais barulhenta ou mais radical.
É torná-la credível, liberal e suficientemente robusta para que valha a pena entrar.
Como homem político, não escrevo isto com qualquer distanciamento. Escrevo com inquietação e responsabilidade de dar e fazer melhor.
Primeiro, porque os jovens, os nossos filhos e as gerações vindouras serão os futuros líderes na nossa sociedade. E porque sei que a democracia não colapsa de um dia para o outro. Erosiona-se. Primeiro, na confiança, depois na participação e, por fim, na liberdade.