Morreu um forcado que escolheu, dentro da sua liberdade, sê-lo. E se assim escolheu, certamente o fez em consciência pelo amor à arte do toureiro, pela sua cultura, pela sua comunidade, ou por qualquer motivo que não nos diz respeito.
A sua morte levou imediatamente os moralistas de serviço a sentirem arrepios e virem para a arena pública protestar contra a tourada.
O sangue chamou a censura e a tragédia tornou-se argumento para o fim da tourada como se a morte fosse sempre prova suficiente de que a tradição deve ser condenada. Mas a verdade que não é dita é que ao condenar a tradição estar-se-à a condenar diretamente aqueles que amam a arte e a liberdade de escolher amar essa mesma arte.
Curioso é que o mesmo raciocínio não se aplica a outras formas culturais de risco. Morre um alpinista? Silêncio. Morre um piloto de rali? Nadinha. Talvez um ligeiro suspiro na imprensa. Mas morre um forcado, e eis que renasce a cruzada moral urbana: “Proíbam isto já!”.
O risco incomoda porque é visível, porque não se esconde atrás de filtros de Instagram ou de uma embalagenzinha higiénica de supermercado. O problema nunca foi o touro, nem o forcado, nem a tradição. O problema é — e sempre será — o gosto. E como sempre, surge uma determinada elite cultural, pronta para salvar o povo de si próprio.
Decidem o que é “aceitável”, impõem censuras subtis ou explícitas e, entre um tweet e outro, fingem que defendem a moral pública enquanto ignoram o abate industrial de milhões de animais em silêncio absoluto. Ironia, querida ironia: defendem a vida do touro na arena, mas ignoram o massacre diário nos matadouros do país.
O português moderno tem memória seletiva e indignação sazonal. Rejeita a tourada, mas paga ingressos para ver gladiadores esmurrando-se até caírem inconscientes; consome reality shows que humilham pessoas; devora notícias que sangram sem cessar.
Mas e a tourada? Essa tem de acabar. E tem de acabar porque é pública, porque incomoda, porque obriga a olhar o sangue de frente — e isso não convém a uma elite que prefere civilizar o gosto alheio do que entender a liberdade.
Eu tenho o direito de gostar de tourada e tu tens o direito de a detestar. Eu não gosto de futebol e não vou a nenhum estádio.
O problema é que a liberdade, hoje em dia, é interpretada como permissão apenas para o que é cosmopolita, elegante, filtrado, moralmente aprovada pela censura invisível da elite cultural. A tourada sangra, escandaliza, existe — e por isso ameaça.
Se a tourada tiver de morrer, que seja de tédio, não de decreto. Que morra porque o povo deixou de a querer, porque perdeu o interesse, porque o espectáculo já não inspira ninguém. Mas enquanto houver público, enquanto houver gosto, que ninguém ouse impor a sua moral de plástico. A liberdade não é só para o que é confortável. É também para o que incomoda, o que fede e o que sangra. Caso contrário, chamemos-lhe pelo nome: censura.
Amar a tourada é amar a vida na sua forma mais intensa e com a consciência e a liberdade do risco, da dor, da beleza crua. Foi por amor à arte que o Manuel Trindade faleceu. Foi a arte que ele escolheu livremente.
É o mesmo amor que leva um alpinista a subir à mais alta montanha, sabendo que cada passo pode ser fatal, ou um piloto de rali que acelera em curvas impossíveis. Ninguém exige que o alpinista ou o piloto pare com a sua paixão; admira-se, admira-se de longe ou de perto, mas ninguém decide por eles. Então, por que é diferente com a tourada? Por que é que um homem que escolhe enfrentar o risco na arena é imediatamente condenado à censura?
O problema não é o sangue, nem o touro, nem a tradição. O problema é a liberdade visível, o amor que exige coragem e consciência. É o risco que não se pode domesticar, que não se pode filtrar para que fique “aprovado” pelos padrões da moral urbana.
E eis a hipocrisia: o mesmo português que se indigna com o sangue do touro paga para ver gladiadores de plástico esmurrando-se na televisão, consome reality shows que humilham pessoas, torce por acidentes automobilísticos como se fossem desportos, mas não suporta a honestidade de quem ama a tourada com consciência e coragem.
A liberdade tornou-se uma mercadoria para consumo seguro: só vale quando é bonita, filtrada, esterilizada. Mas a verdadeira liberdade — aquela que escolhe amar o risco, que escolhe viver a paixão com todas as consequências — essa incomoda. E, claro, incomoda porque obriga a olhar para a vida sem a anestesia do politicamente correto, sem o conforto de julgar à distância, sem a certeza de que estamos a proteger “o povo” da sua própria escolha.
Amar a tourada é, portanto, amar o risco, amar a escolha consciente, amar a arte que existe apenas porque alguém se dispõe a vivê-la até às últimas consequências — seja na arena, seja na montanha, seja na estrada. E quem não entende isso, que olhe, que observe, que admire, mas que não confisque a liberdade alheia em nome de um moralismo barato e conveniente.
Amar a tourada é amar a vida com intensidade, é aceitar que o risco é inseparável da beleza, que o sangue é inseparável da coragem, que a morte é inseparável da liberdade. E se alguém não quer ver, que se afaste.
Mas que ninguém ouse decidir que o amor de outrem ou a paixão que se nutre pela tourada deve morrer em nome de uma moral de plástico.
O Miguel morreu, uma mãe ficou sem o seu filho e os amigos sem um amigo, mas a sua morte não deve servir de pretexto para que se condene a liberdade de quem escolhe amar a tourada, nem para que se transforme a coragem em crime de opinião. Miguel escolheu viver com intensidade, com consciência e paixão, e nisso reside a grandeza da sua vida — não a dor da sua ausência.
Que a memória dele nos ensine que o amor à arte não é uma frivolidade, mas uma escolha consciente de abraçar o risco, de sentir a vida na sua forma mais pura e crua. Que nos lembre que a liberdade não é um bem condicionado, só válido quando confortável, seguro ou aprovado por moralismos de plástico.
E se há sangue na arena, que seja o sangue da vida vivida plenamente, e não o da censura e da hipocrisia. Que se olhe para Miguel e se veja a coragem, a beleza e a intensidade de quem decidiu amar aquilo que ama, sem pedir permissão, sem desculpas, sem medo.
Porque se a liberdade é apenas aquilo que não incomoda, que não fere, que não assusta, então não é liberdade: é uma prisão elegante. E Miguel mostrou-nos que viver, verdadeiramente, é ser livre mesmo sabendo que se pode morrer — e amar, mesmo quando isso sangra.