Em Portugal, há quatro estações do ano: Outono, Inverno, Primavera e Incêndios. Suspeito que o país poderá padecer de Alzheimer, porque os fogos são das poucas coisas que conseguimos prever com 100% de certeza e, mesmo assim, todos os anos são uma surpresa.
E tão previsível como o fumo nas matas, são os políticos com mangueiras na mão e isqueiros nos bolsos. Todos os verões, Portugal pega fogo e os políticos pegam fogo ao fogo. O Governo corre para o teatro de operações para olhar para bombeiros com ar interessado. A oposição sopra para as brasas com indignação moral. E há sempre um ou dois políticos que aparecem de helicóptero para “ver de perto” a uma conveniente distância de segurança.
Este ano tivemos um incêndio que ardeu durante onze dias e consumiu mais de 220 mil hectares, 2,7% do território continental. Para quem acha que um hectare é uma estação de tratamento de águas, é o equivalente a 20 vezes a cidade do Porto ou, para os homens, 300.000 campos de futebol. Aqueles fogos que parecem pequenos na televisão são, afinal, do tamanho do Luxemburgo.
Que Portugal é altamente inflamável, pouco há a fazer. Um cocktail de verões secos, florestas combustíveis e o nosso calor latino dá nisto. Basicamente vivemos em cima de um jerrican de gasolina. Mas isto não quer dizer que não se possa fazer nada.
Podíamos começar por ter políticos dignos. Eu sei, eu disse “políticos” e “dignos” na mesma frase. O primeiro-ministro Luís Montenegro estava a banhos durante os incêndios, no receio de, enquanto representante nacional, também ele pegar fogo. O PS fez o maior alarido sobre o governo, apesar de que, quando governavam, o interior do país parecia a cozinha de um Chimarrão. E claro, André Ventura apareceu com as mãos cheias de cinza e lágrimas nos olhos. Só lhe faltou estar em tronco nu, montado num corcel a apagar a serra com um jato urinário viril.
Talvez seja por isso que chamam àquilo “Teatro de Operações”. O problema destes espectáculos, além de mostrar que a espinha dorsal dos nossos políticos é de alforreca, é que são apenas fogo de vista.
Ventura decidiu aplicar a sua popular estratégia de reduzir problemas complicados a soluções idiotas e sugeriu penas maiores para quem pega fogo. Ignorando que a vasta maioria dos incêndios são acidentais e que na Grécia essa medida já foi tentada com zero sucesso. Eu vou mais longe, André: vamos mas é prender o fogo. Ele propôs ainda que se passe o crime a terrorismo. Talvez a ideia seja convencer pirómanos a espetarem aviões contra as florestas, numa espécie de estímulo à TAP.
Mas a questão é esta: o aproveitamento político dos incêndios é precisamente o que impede a sua resolução. Resolver o problema implica continuar a trabalhar nele quando já ninguém está a olhar. E isso, convenhamos, não dá votos.
Quando é que um governante vai cortar uma fita numa mata que não ardeu? Um helicóptero a sobrevoar uma zona que não está a arder não é boa televisão. Um bombeiro a dizer “este ano não tivemos quase nada” não passa na CMTV.
Em 2017 chorámos mortos. Em 2018 investimos. Em 2019 esquecemos. Em 2023 ardeu pouco e elogiámo-nos. Em 2024 voltou a arder muito. Em 2025 já bateu recordes. Não é má sorte. É má memória.
A prevenção tem um problema grave de telegenia: não arder não dá espetáculo. E sem espetáculo, não há capital político. Reparem até na linguagem: quando há fogos, há “reuniões de crise”, “estados de alerta”, “ações no terreno”. Quando há prevenção, há “programas a prazo”, “dificuldades de execução” e “falta de verbas”.
No fim, ninguém quer resolver a coisa. Resolver é chato. Dá trabalho fora da época alta. E os nossos partidos preferem competir entre si pelo privilégio de governar um monte de cinzas do que montar uma estratégia multi-anual, apartidária e realmente revolucionária para salvar Portugal.
Se eles não conseguem fazer o melhor por nós quando o país está literalmente a arder, então não sei para que raio é que lhes pagamos. Portugal não precisa de mais bombeiros políticos. Precisa de políticos menos incendiários.