Quando eu era mais novo, quase não se falava de política. Eu nunca soube o partido dos meus pais, nem das minhas namoradas. E nunca me fez falta saber. Se bem que sempre desconfiei que as miúdas de esquerda beijavam melhor. Mas as de direita tinham melhores casas de férias.
Agora é muito difícil trocar uns amassos com alguém sem saber se temos as mesmas opiniões sobre o Orçamento de Estado. Eu acho que era mais romântico discutir literatura e música, mas a política tornou-se o novo signo. Antes perguntava-se “és de Sagitário?”; agora é “és do Bloco?”.
Não sei o que é que mudou, mas suspeito que a Democracia como um sistema imunitário detetou uma infeção e ativou os glóbulos brancos. Que somos nós, os tugas (não sou racista, os glóbulos são mesmo brancos).
E a julgar pelos resultados das autárquicas parece-me que o corpo já começou a reagir com uma leve febre, um nariz entupido e uma falta de pachorra para extremas direitices.
Dizia o André Ventura na semana passada: “Ganhar, o Chega vai sempre para ganhar. A meta é ganhar. Não temos outra meta que não seja ganhar.” E o país respondeu: “Temos metas diferentes.”
A culpa, claro, não é do André, é dos portugueses, esses irritantes glóbulos brancos (ou de todas as cores), que insistem em ser democráticos quando o plano era serem uns grandes tansos.
O Chega é o partido do descontentamento. Mas, ao que parece, até o descontentamento anda descontente com o Chega.
O resultado destas eleições é um “sim, mas não”. Sim, queremos mudar. Mas não com vocês, seus maluquinhos.
Dito isto, o André Ventura discorda, porque factos é coisa de frouxo. Disse Ventura, perante a fez fumegante que foram os seus resultados: “O Chega torna-se hoje um partido de vitórias.” Pelos vistos o meu Portimonense anda a ganhar o campeonato há 47 anos.
Ora se o André fosse o piloto do Titanic, insistia que estavam só a fazer uma paragem no fundo do mar para ver os peixinhos. E eu espero sinceramente que continue a sacar vitórias destas. Aliás, Pode ser que, de vitória em vitória, o Chega vá ter com o D. Sebastião.
Ouvir o André Ventura a falar disto é como ouvir aquele amigo que vai a um date, a rapariga não aparece, e ele diz: “Foi ótimo, deu para pensar em mim.” E, pelo menos por hoje, o populismo ainda não é popular.
E a democracia, com uma gripe a pender para a infeção pulmonar, parece continuar viva. A tossir, ranhosa e com uma forte diarreia, mas viva.
Alvíssaras.