Agora que o Presidente da República promulgou a lei dos Estrangeiros eu aproveito para dizer que sou contra a imigração. E vou mais longe: segrego por cor. É isso mesmo, há certos pantones que me comicham. Eu sei que é feio generalizar, mas ainda assim, sinto que tenho de o dizer: acho que estamos a receber demasiados brancos.
Nunca fui particularmente nacionalista, mas já quase que larguei um “volta para a tua terra” quando vi o sétimo nómada digital de seguida a pedir um matcha no que era, outrora, o café da minha rua. E já agora, matcha? O que raio é matcha? Aquilo sabe a cair de boca num relvado.
Nós tínhamos a bica, dois ingredientes: café e cala-te. Uma chávena pequena, um gole rápido. E quando aparecia desenho na espuma, era provavelmente uma Nossa Senhora de Fátima. E isso não era latte art, era milagre.
Eu não sei se isto é castigo pela colonização, mas não suporto estes novos residentes que tratam as velhotas da Graça como se fossem cabras anãs de quinta pedagógica. Publicam fotografias com elas: “so genuine ❤️”. Genuíno, meus amigos, era a minha avó, que se ainda cá estivesse, olharia para um latte de amêndoa e diria: “Amêndoas não têm mamas.”
E enquanto eles passam os dias a editar selfies de pôr-do-sol, nós passamos os nossos a editar a vida para caber nos ordenados. Esta sim, uma arte tipicamente portuguesa: pegar num salário e esticá-lo até cobrir o mês, como quem estica um cobertor curto.
Recentemente estava no Bairro Alto e um cavalheiro loiro, com um boné irónico que dizia “Portugal”, Birkenstocks e peúgos disse-me: “I’m not a tourist, I live here”. Não, não vives. Sabes quem vive cá? Quem não pode sair. Por muito que eu ame este país, ser português é isso: não ter voo de regresso. Não é ter tatuado um pastel de nata na anca. Tu, que podes fugir para Berlim quando te aborreceres da experiência. Tu, que vais contar aos teus amigos como foi a tua vida quando te estavas a “encontrar perdido nas ruas de Lisboa”. Tu e o teu escaldão nunca serão portugueses.
Por isso é que os imigrantes do Paquistão, do Bangladesh, de Angola, vão ser grandes portugueses. Porque quando isto correr mal, e corre sempre mal, não vão fugir para Califórnia.
E não digo que devêssemos fechar a porta aos nómadas digitais, muito pelo contrário. Acho que devíamos fechar-lhes a saída. Prendê-los ao que é nosso: à burocracia, à sensação de que nada melhora mas continuamos vivos. Vamos ver se Cascais lhes continua a soar tão “charming”. E já agora, não se diz Caxecaixe, o “s” é suave, seus incivilizados.
Proponho um imposto sobre Macbooks em cafés. Se for um Asus, tudo bem: é sinal que é tuga e provavelmente tem o escritório em obras. Mas um Macbook de última geração? Peço desculpa, mas o café para si custa 50 paus.
Pensando bem, no fundo, não precisamos de impostos nem de leis. Basta obrigá-los a passar uma manhã nas Finanças. Ao fim de três senhas trocadas e quatro balcões errados, ou ficam para sempre, ou perdem a nacionalidade por esgotamento. É esse o nosso verdadeiro contrato social.
Enfim, é a matcha do progresso.