Ocupados com a conflitualidade política corrente, expressa num crescendo de agressividade verbal, sucessivos casos e escândalos que fazem a delícia dos media e ocupam a atenção do povo, os políticos portugueses continuam a ignorar um dos debates mais decisivos do nosso tempo: a Inteligência Artificial (IA).

Num momento em que a IA está a transformar rapidamente o mundo, numa revolução maior do que a da Internet e com impacto transversal na economia, cultura, educação, saúde e, certamente, no mundo do trabalho, Portugal continua sem uma visão estratégica para esta tecnologia.

O impacto da IA é já de tal magnitude que, tal como desligar a Internet nos atiraria para um colapso sistémico, sem sequer um copo de água para beber, dado que tudo é gerido digitalmente, também a ausência de IA teria um efeito semelhante, dada a sua presença em praticamente todos os sistemas informatizados. No entanto, apesar desta dependência crescente, o debate político sobre as implicações da IA em Portugal continua praticamente inexistente.

Esta ausência de discussão estratégica, aliada ao desconhecimento generalizado sobre o tema e ao atraso na sua adoção pelo ensino, pelas instituições e pelas empresas, impede o país de tirar partido dos seus benefícios e compromete seriamente a nossa competitividade a longo prazo. Enquanto outras nações e potências globais, como os Estados Unidos e a China, estabelecem políticas públicas, incentivos e investimentos na área da IA, Portugal parece assistir a esta revolução tecnológica de forma passiva, como mero consumidor de soluções estrangeiras. Sem uma estratégia clara, corremos o risco de perder soberania digital e de condenar o país a uma posição periférica na economia global.

É igualmente crucial que a regulação em Portugal, alinhada com as diretivas europeias, não se transforme num entrave ao desenvolvimento tecnológico. A Europa tem frequentemente adotado uma abordagem excessivamente burocrática, impondo um emaranhado de regras que, na prática, dificultam a inovação e reduzem a regulação a um mecanismo punitivo, onde as multas substituem soluções eficazes.

A falta de visão estratégica é ainda particularmente evidente na educação. A formação em IA é escassa, tanto no ensino básico como no superior, e não existem programas robustos para preparar os jovens para um mercado de trabalho cada vez mais automatizado. O mindset das novas gerações não difere muito do das anteriores: procurar um bom emprego e ganhar dinheiro, sem perceber que a própria natureza do trabalho está a mudar radicalmente. O humano do futuro, e já hoje em setores mais avançados, não é um fazedor no sentido tradicional, mas sim alguém que desencadeia e supervisiona processos que levam ao fazer. Já não se exige apenas talento técnico ou capacidade de gestão, mas sim uma parceria simbiótica com a IA, em modelos que beneficiam tanto humanos como máquinas.

As empresas portuguesas, salvo raras exceções, continuam a encarar a IA como uma tendência futurista em vez de uma necessidade urgente. O resultado é um tecido empresarial pouco preparado para integrar IA em processos produtivos, perdendo eficiência e competitividade. Este atraso tecnológico não só prejudica a produtividade das empresas como reduz o seu potencial de inovação e internacionalização.

A ausência de dados em português de Portugal é outro problema crítico que limita a capacidade da IA de compreender e responder adequadamente na nossa variante linguística. Atualmente, grande parte dos modelos de IA são treinados predominantemente em inglês ou em português do Brasil, o que resulta em imprecisões na interação e afeta diretamente áreas como o atendimento automatizado, a análise de textos jurídicos ou a tradução automática. Sem um esforço coordenado para a criação e disponibilização de grandes volumes de dados em português europeu, Portugal continuará a ser mal representado na evolução da IA.

A falta de digitalização da cultura portuguesa agrava ainda mais esta situação. Muitos arquivos históricos, obras literárias e conteúdos académicos continuam inacessíveis digitalmente, dificultando a preservação e a disseminação do património cultural do país. Sem investimentos nesta área, a IA continuará a ser treinada com dados desatualizados e enviesados, o que compromete a sua eficácia e perpetua a invisibilidade de Portugal no mundo digital.

Também é necessário desfazer muitos equívocos e combater uma tendência, particularmente no meio cultural, de rejeição da tecnologia, onde se contrapõe um suposto humanismo ao avanço das máquinas e da IA, ignorando o potencial desta para enriquecer a criatividade e o conhecimento.

Para que o país não fique na periferia da revolução da IA, é essencial que este tema entre, com urgência, na agenda política. É necessário introduzir disciplinas de IA no ensino desde cedo, para preparar as futuras gerações para um mundo cada vez mais automatizado. É indispensável um investimento sério em investigação e desenvolvimento, bem como programas que incentivem a adoção da IA nas empresas, reduzindo burocracias e facilitando o acesso ao financiamento para inovação. É urgente investir na digitalização do património cultural português e na criação de bases de dados robustas na nossa variante linguística, garantindo que os modelos de IA compreendem e representam adequadamente Portugal.

A falta de debate político e estratégico sobre IA não é apenas um problema de hoje. É um erro histórico que pode comprometer décadas de desenvolvimento. Portugal tem talento e potencial para se posicionar nesta revolução tecnológica, mas precisa de agir agora. Se continuarmos a adiar esta discussão, perderemos mais do que competitividade: perderemos a capacidade de decidir o nosso próprio futuro.