Por estes dias a cultura portuguesa faz lembrar uma daquelas mercearias de bairro que todos os vizinhos dizem desejar que continue aberta, mas onde ninguém compra nada preferindo o supermercado. A fruta é menos bonita, a variedade escassa e até o preço mais caro.

Ninguém estava preparado para a atual catástrofe. Nem governo, nem empresas, nem pessoas. Mas a cultura ainda estava menos. Porque viveu ao longo de décadas com base nos apoios do Estado, mesmo se sempre parcos, considerando que tinha direito a eles. Enquanto atividade fortemente subsidiada tornou-se conservadora resistindo a alterar comportamentos e, acima de tudo, sempre se opôs a qualquer inovação. Nem mesmo a componente que vive do mercado, sobretudo o entretenimento associado a marcas, exibiu alguma vez vontade e capacidade de mudança, repetindo, anos e anos a fio, melodias, pulos no palco e burlescas atitudes a fingir raivas. Passou o tempo e mais tempo, vimos as mesmas exposições, assistimos às mesmas peças de teatro, ouvimos as mesmas músicas, como se o mundo estivesse parado.

Por isso o embate do Covid-19 foi tão forte. A cultura, tal como a conhecemos e pensamos dever ser, não tem sustentabilidade. A cultura que sempre se pensa indispensável, não tem hoje maneira de o demonstrar a não ser com abaixo-assinados a pedir dinheiro e serenatas à varanda.

Dito isto coloca-se a questão: será que a arte tem futuro?

Tem e muito.

A cultura convencional, chamemos-lhe assim, não entendeu as profundas mudanças que se operaram nas últimas décadas. A revolução digital alterou radicalmente comportamentos, trabalho, produção, comunicação. Destruiu tradições, gerou inovações. E com elas deu origem a novas artes. A tecnologia digital não existe sem arte. Não só no design, mas sobretudo no conceito, no processo, no conteúdo, no uso. Os programadores são os artistas da nossa era. São eles que criam os ambientes do nosso desejo. O avassalador poder de atração das tecnologias digitais deriva de estas se terem tornado numa nova forma de arte. Que os jovens assimilam perfeitamente e alguns mais velhos resistem por incompetência e conservadorismo. Esta é uma arte que realiza utopias, interativa, partilhada, promotora de constante e acelerada inovação.

Não são só as tecnologias que se tornaram extremamente criativas e artísticas. Os empreendedores também mudaram.  Veja-se o caso de Elon Musk. Só um artista podia imaginar lançar um carro no espaço, sem qualquer utilidade prática, numa espécie de apoteótica performance de engenho e arte. Só um artista podia criar um automóvel cubista quando há décadas a indústria não passa de pequenas mudanças cosméticas no design das viaturas. Só um artista poderia dizer que vai enviar um milhão de pessoas para Marte. Sobretudo, sabendo que não vai.

Elon Musk é, aliás, o mais destacado artista do nosso tempo. Extremamente criativo, irrequieto, megalómano, sempre disposto a correr riscos e fazer o que os outros não se atrevem a fazer. Tudo o que caracteriza um artista.

Neste sentido, com crise ou sem ela, a arte está pujante, não tem problemas de audiência, nem de subsistência. Aliás, os meus amigos das áreas tecnológicas, dizem que nunca tiveram tanto trabalho. Precisamente, hoje mais do que ontem, porque é agora evidente que o reino digital se tornou numa necessidade vital e nosso destino.

Com a atual pandemia a ciência subiu muitos degraus na relevância para a civilização humana. Sem ela a sobrevivência da nossa espécie é improvável. Não só por causa dos vírus e outras maleitas, mas igualmente devido às alterações climáticas e muitos problemas que ainda estão por vir. Mas a nova arte dos geeks também ganhou muito terreno. Nenhuma empresa, nenhuma ideia inovadora, nenhuma aplicação, pode ter sucesso se não tiver arte. Esta realidade tem ainda outra implicação na orgânica dos governos. Assiste-se a uma migração das artes dos Ministérios da Cultura para os da Economia. Porque sem arte a economia não consegue prosperar. A economia digital é agora o motor da nova cultura.

É claro que continuarão a existir práticas artísticas convencionais, pintura, música, teatro. No seu melhor serão um estímulo e um reservatório experimental de imaginação. Mas a arte do século 21 promete mais. Estamos no limiar de uma explosão criativa.