Os defensores da ideologia de género pretendem garantir o direito de cada pessoa afirmar a sua identidade com base numa perceção que terá de si mesma, libertando-se dos “constrangimentos” biológicos e “estereótipos culturais” alegadamente construídos com base numa “falsa” constatação de que todos nascem pertencendo a um dos dois sexos, o feminino e o masculino.

Foi preciso encontrar uma palavra para superar a distinção entre homens e mulheres, noções que, segundo eles, limitam as possibilidades de cada um se autodefinir e poder viver livremente, segundo a sua vontade. Assim, a palavra sexo foi substituída por género. Deste modo, tornou-se possível a multiplicação dos géneros ao ponto de ser impossível estabelecer uma taxonomia dos mesmos que não esteja sempre a ser acrescentada porque, na verdade, o género passa a ser a “identidade” que cada um determina segundo a perceção que vai tendo de si ao longo da sua vida. Pode variar segundo os dias, as disposições momentâneas, os sentimentos… Esta noção de género é fluida, assente no princípio da autodeterminação, o qual implica a possibilidade de uma pessoa poder redefinir-se, de forma ilimitada, a cada momento. Em última instância, o género nega o conceito de identidade. A palavra “identidade” é de origem latina, formada a partir do pronome “idem”, com o significado de “o mesmo”, e do sufixo “dade”, indicador de um estado ou qualidade. A palavra “identidade” aplica-se, pois, ao que é idêntico ou o mesmo, designando, portanto, algo que permanece. Mas a ideia de permanência colide com o princípio que subjaz à noção de género. Não é por acaso que as denominações de feminino e masculino foram banidas da taxonomia em constante mudança.

Este delírio não mereceria muita atenção da nossa parte se não tivesse tido uma adesão massiva por parte dos adolescentes nos últimos anos. Abigail Shrier, no seu livro Irreversible Damage1, apresenta-nos um estudo muito sério deste fenómeno recente nos EUA, focando-se em casos concretos de raparigas que se consideram “trans”, e afirma que a sua explicação não tem a ver com um aumento de casos de “disforia de género”, perturbação que se manifesta muito cedo nas crianças, mas com vários fatores de persuasão: a propaganda feita no Youtube por imensos influencers (muitos dos quais contactados pela autora), o doutrinamento escolar iniciado na Califórnia e já implementado em vários estados, a pressão dos pares, a cumplicidade dos psicólogos e clínicas de intervenção cirúrgica, os interesses das farmacêuticas, etc.

Esta propaganda é reforçada por uma sempre possível perseguição judicial a quem apresente a estas jovens outras possibilidades de ultrapassar as incertezas e inseguranças próprias da adolescência. Os mais visados por esta perseguição são os pais, muitos dos quais abdicam de bons empregos para mudar de residência, a fim de retirar as filhas da influência de amigos e professores que conspiram para lhes ocultar a eles, pais, o facto de estas serem tratadas por um novo pronome ou nome, de usarem binders para achatar o peito, de terem começado a tomar testosterona, etc.

A maior parte destas jovens manifesta dificuldades de integração nos grupos com que convivem, por várias razões: ou porque se sentem inferiores em relação às amigas “idolatradas” pelo grupo, ou porque se interessam por assuntos mais elevados do que as outras, ou gostam de atividades mais procuradas pelos rapazes, ou não correspondem aos padrões de beleza em voga, ou mesmo porque sofrem, sem saber, de alguma perturbação psicológica ou mesmo psiquiátrica. Como a competição é sempre maior entre as pessoas do mesmo sexo, estas raparigas procuram a companhia masculina para se sentirem mais seguras. E, segundo a autora, este comportamento é-lhes apontado como um sinal de que são “trans”, sendo encorajadas a assumi-lo. Não vale a pena enumerar os efeitos devastadores de um engano desta dimensão.

A “libertação” prometida pelos defensores da ideologia de género já começa a ser posta em causa por grupos que estão na sua génese, mas que se têm apercebido da ameaça que esta caixa de Pandora constitui para a defesa dos seus direitos.

Começo por apontar que esta ideologia assenta numa contradição, pois a autodeterminação do género é baseada na aceitação de paradigmas que se pretendiam derrubar. Abigail Shrier diz-nos que, nas escolas americanas em que esta ideologia é propagada, as raparigas que gostam de Matemática, de desportos ou que têm um pensamento lógico e os rapazes que gostam de teatro, de música e de artes visuais são vistos não como “raparigas excelentes em Matemática” ou como “rapazes que têm talento para cantar”, mas como jovens cujos comportamentos não encaixam no que é geralmente considerado próprio do seu sexo (Shrier, 2021: p. 63). Assim se perpetuam de forma muito mais vincada os “estereótipos sociais” que se queriam combater.

Acresce que esta ideologia acaba com a garantia dos direitos das mulheres, como já está a acontecer no mundo do desporto, do trabalho e nas prisões. Há vários casos de homens que, alegando serem mulheres, estão a usurpar os títulos vencedores nas modalidades femininas, ou a preencher as quotas femininas nos empregos ou ainda a invadir as celas das mulheres nas prisões, que ficam expostas a possíveis violações.

Por fim, ela anula a noção de homossexualidade, já que se interpreta a atração por pessoas do mesmo sexo como sintoma de “transgeneridade”, o que equivale a dizer que uma mulher que se sente atraída por outras é um homem, logo é heterossexual.

Por estas razões, as feministas e as lésbicas já se estão a opor à ideologia de género, pois começam a ver nela o gérmen de atitudes homofóbicas. Como todas as ideologias, esta também vai desabar, sendo corroída por dentro. E desaba porque a ideologia formula as suas noções necessariamente em relação a noções enraizadas na realidade, acabando inevitavelmente por confirmar a consistência inabalável destas. Como sempre, a realidade cobra os seus direitos. Mas até lá muitas vítimas haverá. Os que se afirmam “trans” terão dificuldade em reconhecer que se enganaram com medo de serem socialmente vilipendiados e os que se submeteram a intervenções cirúrgicas não têm caminho de regresso.

[1] Shrier, Abigail, Irreversible Damage: Teenage Girls and the Transgender Craze. Swift Press, Reino Unido, 2021

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