Escrevi recentemente sobre um senhor africano muito exaltado que confrontou André Ventura, no Cacém, com uma versão rudimentar da História colonial portuguesa. Abordo hoje um tema paralelo porque um outro senhor africano, um artista angolano de nome Kiluanji Kia Henda, veio afirmar, entre outros disparates, que Portugal foi responsável por “quase metade” das pessoas “traficadas desde África” e que os portugueses “foram os primeiros a começar (a escravatura) e os últimos a terminar”.

Felizmente — e essa é a primeira coisa que importa aqui sublinhar — esta lengalenga ignorante, obstinada ou malévola já não cola em Portugal. O debate dos últimos anos serviu para qualquer coisa e as pessoas, mais informadas, não compram esta historieta culpabilizante. Por isso, quando Notícias ao Minuto publicou na sua página de Facebook que Kiluanji Kia Henda lamentava a “tentativa de normalizar colonização” e afirmava que “(os Portugueses) foram os primeiros a começar (a escravatura) e os últimos a terminar”, houve 73 pessoas que apoiaram essas declarações do angolano contra 782 outras que se riram delas ou reagiram com ira. Houve, além disso, mil e seiscentos comentários — que chegaram, depois, a dois mil e quinhentos com as partilhas do post inicial — parte dos quais de gente que, entre outras meiguices, chamou “burro” ao artista angolano, o que não advogo nem apoio, mas compreendo. O burro é popularmente associado a um comportamento teimoso e Kiluanji Kia Henda é um dos muitos africanos que parece teimar em afirmar, erradamente, e não obstante esse erro já ter sido mostrado e emendado mil vezes, que Portugal teria sido o iniciador da escravatura e o último país a abrir mão dela.

Na verdade, a escravatura, aqui entendida no sentido de escravidão, começou o mais tardar no IIIº milénio antes de Cristo — já havia escravos na Suméria — e manteve-se até meados do século XX em países como a Mauritânia ou a Arábia Saudita. Portugal já tinha abolido a escravidão nas suas colónias em 1869. Mas se usarmos a palavra escravatura no sentido de tráfico de escravos negros, e se pensarmos apenas no Atlântico, continua a ser falso que Portugal, que iniciou o tráfico transatlântico, tenha sido o último a pôr-lhe fim. Essa triste distinção coube à Espanha, que manteve o tráfico para Cuba até 1867. Mas é claro que falo aqui exclusivamente no Atlântico, pois se alargarmos o campo de observação constataremos que o tráfico feito por povos muçulmanos no Índico, por exemplo, se manteve até ao século XX.

Absolutamente estanque à verdade histórica, Kiluanji Kia Henda e muitas outras pessoas woke continuam a acusar os portugueses de coisas que não fizeram. E continuam a repetir uma mentira que já calcificou nas suas cabeças e que já não podem ou não querem corrigir. Refiro-me à ideia, veiculada pelo artista angolano, de que Portugal foi responsável por “quase metade” das pessoas “traficadas desde África”. Isso é redondamente falso. O tráfico transatlântico levou 12,5 milhões de pessoas de África para as Américas. Portugal foi politicamente responsável pelo transporte de 4,5 milhões de escravos negros através do Atlântico. A responsabilidade pelo tráfico feito para o Brasil após 1822 — 1,3 milhões de escravos — cabe ao próprio Brasil. Há quem some ambos os quantitativos e os ponha às costas (largas) dos portugueses, o que é não só errado, mas também manhoso. Isto já foi explicado dezenas de vezes, mas continua a ser feito porque há cabeças muito duras ou intelectualmente desonestas. E é preciso, também, considerar o tráfico de negros feito através do deserto do Sara, do Mar Vermelho e do Índico — 14 milhões de escravos, talvez — parte do qual foi feito para fora de África, nomeadamente para a Ásia e para a Europa. Portugal não foi responsável por um único desses escravos assim traficados para o mundo muçulmano.

Em suma, afirmar, como fez Kiluanji Kia Henda, que Portugal foi responsável por “quase metade” das pessoas “traficadas desde África” não é pura e simplesmente admissível e é tanto mais indesculpável quanto tudo isto foi debatido na esfera pública, explicado e documentado inúmeras vezes, e está ao alcance de qualquer pessoa à distância de um simples clic na Internet. Em meados de 2025 ninguém tem desculpa para continuar a afirmar aquilo que o artista angolano afirmou. Quem o faz revela uma incomodativa dose de ignorância, de teimosia ou, então, de má-fé.

Claro que nada disso teria grande interesse ou importância se Kiluanji Kia Henda fosse apenas mais uma pessoa — africana, neste caso — que diz algumas asneiras. E menos importante, ainda, quando nos damos conta de que a opinião pública portuguesa está suficientemente informada e alerta para rejeitar este tipo de acusações, como mostrei acima. Sucede que Kiluanji Kia Henda é nem mais nem menos do que o artista responsável pelo projecto de memorial aos escravos a construir na Ribeira das Naus. O projecto é bom, como por diversas vezes referi, mas há que ter muitíssimo cuidado com a narrativa que acompanhará o tal memorial. Julgo que será responsabilidade da Câmara Municipal de Lisboa velar para que as ideias erradas e propagandísticas deste artista e de outras pessoas de inclinação woke, negras ou brancas, fiquem nas suas cabeças e não venham intoxicar o nosso espaço público com falsidades, casmurrices ou pura e simples falta de conhecimento.