Nos últimos tempos, é provável que se tenha deparado com fotografias de como as pessoas serão aos 100 anos: um retrato de hoje, lado a lado com uma versão gerada por inteligência artificial de nós próprios, décadas mais tarde. O exercício multiplicou-se e, à primeira vista, parece pouco mais do que uma curiosidade tecnológica. No entanto, a distância entre o “agora” e o “cem” torna-se, de repente, visível, quase palpável – e essa mudança de escala importa mais do que parece.
Discutimos longevidade quase sempre em termos de sistemas: pensões, saúde, demografia. Mas o verdadeiro desafio é individual. Como ajudamos as pessoas a imaginarem-se, verdadeiramente, a envelhecer ao longo de décadas para as quais a cultura nunca as preparou? A ciência começa a dar pistas concretas sobre por que razão esta pergunta é tudo menos retórica.
Um estudo, publicado em março deste ano por Becca Levy e Martin Slade, desafia uma das crenças mais enraizadas sobre o envelhecimento: a de que a velhice é, inevitável e predominantemente, uma fase de declínio e de perda de capacidades. Os autores acompanharam ao longo de até 12 anos mais de 11 mil participantes através do Health and Retirement Study, um dos maiores estudos longitudinais sobre a população norte-americana com mais de 50 anos.
O resultado é elucidativo: 45,15% dos participantes com 65 ou mais anos mostraram melhorias na função cognitiva e/ou física ao longo do período estudado. Para contextualizar o número: a própria administração de saúde dos Estados Unidos define 11,5% como um resultado relevante para efeitos de política pública; este estudo revela quase quatro vezes esse valor. Extrapolado para a população norte-americana, os autores estimam que mais de 26 milhões de pessoas mais velhas estão, neste momento, a melhorar, e não a piorar.
E o que prevê essa melhoria? Precisamente o que o título do estudo sugere: crenças positivas sobre a idade. Quem acredita que envelhecer pode trazer ganhos, e não só perdas, tem maior probabilidade de melhorar, caminhar mais depressa e pensar com mais clareza, anos mais tarde. Levy já tinha demonstrado, em trabalhos anteriores, que crenças negativas sobre a idade estão associadas a biomarcadores de Alzheimer. A mente, que imaginamos ter aos 80 ou 90 anos não é só uma ficção confortável, parece moldar, de forma mensurável, o corpo e o cérebro que efetivamente teremos.
Se aquilo em que acreditamos sobre o nosso futuro tem peso biológico, a pergunta óbvia é: como se ajuda alguém a acreditar, de forma concreta, que o seu futuro aos 100 anos pode ser positivo? Foi essa a pergunta que esteve na origem do Longevity AI by Fidelidade, a plataforma digital desenvolvida pela seguradora, parceira do Center on Longevity Leadership da Católica-Lisbon SBE, como parte da sua estratégia de longevidade.
Liderado por Mafalda Honório, Head of Longevity Marketing da seguradora, o projeto usa inteligência artificial para transformar respostas sobre hábitos, rotinas e estilo de vida numa jornada visual e sonora até aos 100 anos: imagens, uma narrativa personalizada e, no final, um vídeo onde a pessoa se vê e se ouve a si própria, décadas à frente. “É difícil prepararmo-nos para um futuro que não conseguimos imaginar”, resume Mafalda Honório, “e o Longevity AI by Fidelidade nasce da vontade de tornar esse futuro mais real”. O verdadeiro desafio, sublinha, não é tecnológico: é ajudar as pessoas a criar uma ligação emocional com o seu próprio futuro, imaginando-se a viver uma vida mais longa do que aquela para a qual as gerações anteriores alguma vez se prepararam.
É esse, precisamente, o mecanismo que a investigação de Levy sugere: uma vez que o futuro se torna visível, torna-se também educativo. Deixa de ser um conceito abstrato sobre demografia e passa a ser algo pessoal, emocional e acionável. Já não se trata só de viver mais anos, mas de nos conseguirmos ver dentro dessa vida mais longa, e perceber que as decisões de hoje, financeiras, de saúde, de carreira, moldam literalmente quem seremos.
O impacto da ferramenta está a ultrapassar fronteiras a uma velocidade que diz muito sobre a atualidade do tema. Em apenas duas semanas, o Longevity AI by Fidelidade foi apresentado em três contextos distintos, em dois países: no curso executivo Longevity Leadership da Católica-Lisbon SBE; na cimeira global da Professional Women Network, que celebrou os seus 30 anos em Lisboa; e, em Londres, na Silver Marketing Association Summit and Awards 2026, onde Mafalda Honório também recebeu o prémio “Highly Commended – International Recognition” pelo trabalho que tem desenvolvido na área da longevidade.
Talvez a lição mais simples de tudo isto seja também a mais incómoda: continuamos a preparar-nos financeira e emocionalmente para vidas de 70 ou 80 anos, quando cada vez mais dados, científicos e de mercado, apontam para trajetórias bem mais longas. A pergunta que fica não é se vamos viver até aos 100 anos. É se conseguimos, hoje, imaginarmo-nos lá e agir em conformidade.