Num mundo onde a intolerância prolifera e ameaça a vida de milhões de pessoas, a razão impele-nos a adotar uma posição digna e inclusiva, capaz de respeitar a diferença em todas as suas possíveis configurações. Esta exigência está na génese do presente artigo, cuja gravitação ocorre em torno de um dos mais influentes líderes religiosos do nosso tempo: Jonathan Sacks. No vasto legado intelectual que nos deixou — disseminado nas dezenas de obras que escreveu ao longo da sua vida —, o ecumenismo assume-se como um dos elementos constitutivos do seu pensamento.
O texto que aqui apresentamos consiste, portanto, numa análise propedêutica do capítulo “A universalidade da justiça, a particularidade do amor”, relativo à terceira parte da obra Não em Nome de Deus. Interpelaremos os pontos axiais do segmento mencionado e, de seguida, analisando os versículos bíblicos que Sacks invoca para demonstrar as singularidades do pensamento judaico, principiaremos uma reflexão que nos colocará na senda da problematização aduzida pelo autor. Por fim, partiremos rumo à explanação da visceralidade inerente ao compromisso religioso da comunidade judaica. Em todo o caso, a nossa argumentação assenta numa perspetiva puramente filosófica, sendo por isso desprovida de qualquer crença teológica.
Em “A universalidade da justiça, a particularidade do amor”, Sacks centra-se no “comportamento” particular do povo judeu face ao divino, procurando, em simultâneo, coadunar essa prerrogativa com a noção da universalidade de Deus. Nesse sentido, lança pertinentemente as seguintes questões: “Porque necessita Deus de escolher em primeiro lugar? (…) Porquê Abraão e não toda a gente? Porquê Israel e não toda a humanidade?”. A resposta a estas perguntas, embora não possa ser adiantada com leviandade, é a chave para a compreensão da aparente dissonância entre a universalidade da justiça e a particularidade do amor de Deus. A escolha de Deus, retratada inicialmente no Génesis e no Êxodo, foi alvo de inúmeras interpretações falaciosas ao longo da história, conduzindo não raras vezes a humanidade ao seu sepulcro. Segundo Sacks:
“Este fenómeno suscitou mais raiva e vitupérios, perplexidade e equívocos do que qualquer outro na história da espiritualidade ocidental. Porque escolhe Deus? O judaísmo parece estar preso a meio caminho entre as particularidades do mundo pagão (…) e as universalidades do cristianismo e do islamismo: um Deus, uma verdade, um sentido, (…) um caminho para a salvação, uma porta para o céu”.
Importa não esquecer que tanto a religião cristã como a religião islâmica, devem parte da sua estruturação ao judaísmo. No que toca ao cristianismo, vemos uma confluência parcial relativa aos textos sagrados; recordemos que a Torá (ensinamento ou instrução) é composta pelo Pentateuco, ou seja, pelos cinco primeiros livros da Bíblia Cristã. No islamismo, por sua vez, vislumbramos uma concordância relativa aos personagens proféticos. Todavia, aquilo que aqui nos interessa é sobretudo a especificidade da relação que o povo judeu estabelece com Deus. Convirá notar, a esse respeito, que na Bíblia Hebraica encontramos dois termos distintos para referenciar Deus — Elokim e Hashem:
“Elokim é um termo puramente universal que se aplica à relação das pessoas com Deus, quer estas pertençam ou não à Aliança juntamente com Abraão. Hashem, pelo contrário, é particular. É o que se chama a Deus no contexto da Aliança abraâmica e, posteriormente, mosaica. Trata-se de um nome próprio, não de um nome genérico. Trata-se da linguagem da intimidade e da relação”.
A universalidade de Deus encontra-se espelhada, em primeira instância, na Aliança estabelecida com Noé. Teologicamente, a figura de Noé representa a integridade da espécie humana, na medida em que este opta por agenciar a sua vida em conformidade com a dimensão ontológica que lhe foi conferida. Na narrativa em questão, é colocada em evidência a necessidade de preservação da justiça, demonstrando-se que sem a sua presença a humanidade estaria condenada a um sofrimento intransponível.
Perante o homem justo, por seu turno, Deus compromete-se a amar tudo aquilo que criou: “«Quando o arco-íris estiver nas nuvens, eu vê-lo-ei e lembrar-Me-ei da aliança eterna: aliança de Deus com todos os seres vivos, com tudo o que vive sobre a Terra»”. De modo distinto, a relação íntima que o povo de Israel construiu com Deus, e a partir da qual se justifica a pessoalidade do termo “Hashem”, parece contrastar com a universalidade do divino. Tal como o fragmento infratranscrito nos dá conta, a peculiaridade ético-axiológica do judaísmo nasce justamente da intrinsecidade do seu relacionamento com o sagrado. Como esclarece Sacks:
“A Aliança abraâmica exprime a particularidade da nossa relação com Deus, a qual tem que ver com a nossa identidade, história, língua e literatura específicas. O resultado é a definição, na Bíblia, de uma moralidade que se aplica a todos, pertencentes ou não a um grupo e uma ética, ou seja, um código de conduta específico que enquadra as relações no seio do grupo”.
De facto, radica na comunidade judaica um nexo moral que provém da necessidade de obediência à vontade de Deus. Por essa razão, os mandamentos (Mitzvot) detêm um caráter vinculativo, moldando o agenciamento ético daqueles que vivem segundo os preceitos da Halacha (conjunto da Lei judaica). Com efeito, na tradição judaica, o respeito incondicional pela Lei configura o caminho para estar na presença de Deus, pelo que a adoção de uma ética confluente com a sua normatividade é, em última análise, representativa da excelência a que o ser humano pode aspirar. Nas palavras de Sacks, “a ética que se aplica no seio da comunidade da Aliança implica conceitos (…) como santidade, reverência, lealdade e respeito. Trata-se de uma ética do sagrado, não apenas do bem”.
Desafortunadamente, desde os primórdios da civilização a ignorância tem contaminado o sentido de religiosidade do homem, fomentando a intolerância face à diferença. Parte dessa intolerância resulta de uma carência educacional, isto é, de uma pedagogia deficitária nos principais núcleos de formação, facto que obstaculiza o desenvolvimento do respeito pela alteridade. No que concerne ao fundamentalismo religioso, por exemplo, é fácil diagnosticar uma das raízes do problema: a interpretação literal de determinadas passagens de textos sagrados. Como é natural, documentos desta natureza não podem ser corretamente considerados sem uma hermenêutica consentânea: “Cada texto requer uma interpretação. Cada interpretação necessita de sabedoria. Cada sabedoria necessita de uma cuidada negociação entre o intemporal e o tempo”. De acordo com Sacks, a própria diferença inexorável entre cada um de nós é reveladora da beleza cintilante da Criação, beleza essa que não se esgota no plano estético da existência, mas que, pelo contrário, transcende a fisicidade do mundo. Não nos furtemos ao dever de respeitar aquilo que somos, nem tampouco à obrigação de compreender aquilo que não podemos ser:
“Pois nós somos finitos, mas Deus é infinito. Nós estamos limitados, mas Deus é ilimitado. Por muito perfeita que seja a nossa fé, existe algo de Deus que reside para além dela, que é conhecido por Deus, mas que não pode ser conhecido pela humanidade frágil e falível que é tudo o que somos e sempre seremos, deste lado do Paraíso”.