Lisboa não caiu porque uma frota estrangeira decidiu oferecê-la a Portugal. Caiu porque D. Afonso Henriques já a queria, já avançava para sul e soube transformar a passagem de milhares de cruzados por território português numa oportunidade para o seu reino. Em 1147, Portugal ainda estava a aprender a existir. Mas já sabia para onde queria ir.

É fácil olhar para um mapa atual e imaginar que Lisboa estava destinada a ser portuguesa.

Não estava.

Em meados do século XII, Portugal era ainda um reino jovem, de fronteiras incertas, construído através da guerra, da diplomacia e de uma obstinação política pouco recomendável a quem estivesse do outro lado. D. Afonso Henriques não recebeu um país pronto. Foi alargando um espaço político que precisava constantemente de afirmar perante vizinhos cristãos e muçulmanos.

Lisboa era uma peça essencial desse processo.

O avanço para sul inseria-se numa realidade peninsular muito anterior ao próprio nascimento de Portugal. Desde a conquista islâmica do século VIII, os poderes cristãos do Norte tinham avançado, com ritmos muito diferentes, sobre territórios de al-Andalus. Para os homens daquele tempo, essa guerra podia ser apresentada também como recuperação para a cristandade de espaços que anteriormente tinham pertencido ao mundo cristão peninsular.

Isto não significa que Lisboa tivesse sido portuguesa antes de existir Portugal.

Significa que, para Afonso Henriques, conquistar Lisboa podia representar duas coisas ao mesmo tempo: alargar o seu reino e participar numa guerra que a cultura política cristã do seu tempo considerava legítima.

Religião e política raramente se zangam quando querem a mesma cidade.

Em março de 1147, Afonso Henriques conquistou Santarém. Lisboa era o passo seguinte, mas era também um problema muito maior. Tratava-se de uma cidade fortificada, importante economicamente, ligada ao mar e integrada havia séculos no mundo islâmico peninsular.

O rei queria-a.

Não tinha, porém, todos os meios necessários para a tomar.

Foi então que a História lhe trouxe reforços.

Na primavera de 1147, uma grande frota de cruzados do Norte da Europa dirigia-se para a Terra Santa no contexto da Segunda Cruzada. Entre eles encontravam-se anglo-normandos, flamengos e homens provenientes das regiões germânicas. O destino era o Oriente.

Portugal era uma escala.

A frota aportou no Porto e ali começou a desenhar-se uma das mais felizes convergências entre política portuguesa e circunstância internacional.

Afonso Henriques não inventou a cruzada, não comandava aqueles homens e não os podia obrigar a combater por ele.

Convenceu-os.

Esse pormenor vale mais do que muita lenda.

O rei conseguiu ligar uma guerra que interessava ao seu reino aos objetivos religiosos e materiais de homens que atravessavam a Europa. Para os cruzados havia combate contra muçulmanos, mérito espiritual e perspetiva de saque. Para Afonso Henriques havia homens, navios e capacidade militar.

Chamemos-lhe diplomacia medieval.

Funcionou.

Os cruzados seguiram para Lisboa e, no verão de 1147, começou o cerco.

A cidade resistiu durante meses.

É importante dizê-lo porque a História nacional foi muitas vezes escrita como se cada vitória portuguesa estivesse escondida desde sempre dentro do calendário, esperando apenas que chegasse a data certa.

Não estava.

Lisboa podia não ter sido conquistada.

Afonso Henriques podia ter falhado.

Os cruzados podiam ter continuado viagem.

E Portugal podia ter ficado durante mais tempo limitado a norte do Tejo.

É precisamente por nada disto ser inevitável que a conquista merece ser lembrada.

A De Expugnatione Lyxbonensi, uma das principais fontes para o episódio e escrita por alguém ligado aos próprios cruzados, mostra-nos uma guerra muito menos arrumada do que aquela que mais tarde coube nos manuais escolares.

Há negociações, divergências, ataques, máquinas de cerco, fome, medo e violência.

Há também cooperação entre portugueses e estrangeiros.

E há uma cidade que não queria ser conquistada.

O que não há é Martim Moniz.

A história do cavaleiro que teria metido o próprio corpo entre as portas da cidade para impedir que se fechassem é tão boa que conseguiu sobreviver durante séculos, dar nome a uma praça e, finalmente, a uma estação de metro.

As fontes contemporâneas tiveram a descortesia de não falar dele.

Talvez estivesse ocupado.

Também aqui convém perceber uma coisa: Portugal não precisa que todas as suas lendas sejam verdadeiras para que a sua História seja extraordinária.

A realidade chega perfeitamente.

Depois de cerca de quatro meses, a resistência de Lisboa começou a ceder perante o desgaste e a fome. Em outubro de 1147, a cidade rendeu-se.

A entrada dos vencedores não foi limpa nem romântica. Houve pilhagens, violência e violações das condições negociadas. Habitantes foram despojados dos seus bens e a própria fonte cristã relata episódios que hoje dificilmente caberiam numa narrativa triunfal.

Mas esconder essa violência não engrandece Portugal.

Só empobrece a História.

Uma nação adulta não precisa de transformar os seus antepassados em santos para reconhecer aquilo que fizeram.

E aquilo que aconteceu em 1147 foi decisivo.

Lisboa ficou integrada no reino de Afonso Henriques.

O Tejo passou a fazer parte do espaço político português e o novo reino ganhou uma cidade e um porto cuja importância futura dificilmente poderia então ser imaginada.

Aqui, sim, há motivo para algum orgulho.

Não porque os portugueses tenham feito tudo sozinhos.

Não fizeram.

Os cruzados foram fundamentais.

Mas um país não demonstra força apenas quando consegue dispensar todos os outros. Também a demonstra quando sabe reconhecer uma oportunidade internacional e colocá-la ao serviço dos seus próprios objetivos.

Afonso Henriques queria Lisboa antes de os cruzados aparecerem.

Portugal tinha o objetivo.

Os cruzados forneceram uma parte decisiva dos meios.

E foi o reino português que ficou com a cidade.

Há uma diferença.

A própria Segunda Cruzada acabaria associada, no Oriente, a fracassos militares significativos. O ataque a Damasco terminou mal e a grande empresa cristã ficou muito aquém das expectativas.

Uma das suas vitórias mais importantes aconteceu, ironicamente, no extremo ocidental da Europa.

Em Lisboa.

Homens que tinham saído do Norte da Europa para combater na Terra Santa acabaram a contribuir para a consolidação de um reino que muitos deles provavelmente mal conheciam.

Alguns seguiram depois viagem.

Outros ficaram.

Portugal, ainda jovem, encontrava-se assim ligado a um dos grandes movimentos políticos e religiosos do seu tempo.

É talvez essa a dimensão que mais falta quando reduzimos 1147 a uma sucessão de espadas, muralhas e cavaleiros heroicos.

A conquista de Lisboa não foi apenas um episódio militar.

Foi uma afirmação política.

Um pequeno reino mostrou capacidade para escolher um objetivo estratégico, negociar apoios externos, reunir forças de diferentes origens e alterar a seu favor o equilíbrio do território peninsular.

Pode chamar-se oportunismo.

Também se pode chamar construção de um país.

Portugal não nasceu inevitavelmente.

Foi feito.

Foi feito através de decisões, guerras, alianças, derrotas evitadas e oportunidades aproveitadas. E talvez por isso Afonso Henriques continue a ser mais interessante quando o retiramos do pedestal.

Não precisava de conquistar Lisboa sozinho.

Precisava de a conquistar.

Em 1147 surgiu uma oportunidade.

Afonso Henriques aproveitou-a.

E Portugal chegou ao Tejo.