Conta-se uma história simples, daquelas que sobrevivem precisamente porque dizem mais do que parecem dizer.

Um pai oferece ao filho um automóvel antigo e, antes de lhe entregar as chaves, pede-lhe apenas uma coisa: que descubra quanto vale. O rapaz leva-o primeiro a um vendedor de carros usados. O homem olha para a idade, para a quilometragem, para aquilo que terá de reparar e oferece-lhe pouco. Depois procura outro comprador, que lhe oferece ainda menos. Para ambos, aquele carro é sobretudo isso: uma coisa velha, pesada, ultrapassada, que já viveu melhores dias.

Até que alguém lhe sugere que o leve a um encontro de automóveis clássicos.

Ali, antes sequer de perguntarem o preço, aproximam-se pessoas. Reconhecem o modelo, observam os pormenores, falam do motor, do ano, da série, da raridade. Tocam-lhe quase com o cuidado com que se toca uma memória. E, de repente, o automóvel que poucas horas antes quase não tinha valor passa a valer uma pequena fortuna.

O carro não mudou.

Não ganhou um motor novo, não ficou mais bonito, não rejuvenesceu vinte anos.

Mudou apenas quem estava a olhar para ele.

Talvez Portugal sofra, há muito tempo, do mesmo problema.

Não porque seja uma relíquia perfeita, nem porque o passado lhe dê direito a alguma espécie de reverência automática, mas porque nós próprios parecemos ter uma extraordinária dificuldade em decidir o que temos diante dos olhos.

Portugal é um país estranho neste aspeto. Passamos com enorme facilidade da exaltação para o desprezo, sem demorarmos muito tempo naquele lugar, bastante menos confortável, onde normalmente mora a verdade.

Ou somos o povo dos navegadores, dos heróis, dos descobridores, da primeira globalização e dos homens que deram novos mundos ao mundo, ou somos um país condenado à mediocridade, povoado por gente atrasada, governado desde sempre por incompetentes e salvo, de tempos a tempos, pela benevolência estrangeira.

É difícil encontrarmos o meio-termo.

Talvez porque o meio-termo obrigue a pensar.

Portugal não precisa de ser o melhor país do mundo para ser um país extraordinário.

Basta olhar para a sua existência.

Num canto da Península Ibérica, apertado entre o Atlântico e um vizinho muito maior, formou-se há quase nove séculos uma comunidade política que conseguiu uma coisa que, vista à distância, talvez não fosse assim tão provável: continuar.

Reinos desapareceram. Fronteiras mudaram. Dinastias acabaram. Impérios nasceram e ruíram. Portugal atravessou crises dinásticas, guerras com Castela, sessenta anos sob a mesma coroa dos reis de Espanha, invasões francesas, guerras civis, revoluções, bancarrotas, uma monarquia constitucional, uma República turbulenta, uma ditadura longa, uma revolução e a perda quase simultânea de um império que durante séculos parecera fazer parte da própria definição do país.

E, no entanto, Portugal continuou ali.

Talvez nos pareça pouco porque sempre esteve.

Há coisas cuja improbabilidade desaparece quando duram demasiado tempo.

Depois veio o mar.

E também aqui convém evitar tanto o altar como o tribunal.

Os portugueses navegaram, comerciaram, combateram, converteram, escravizaram, negociaram, fundaram cidades, destruíram outras, misturaram-se com populações de diferentes continentes e deixaram marcas que ainda hoje aparecem em línguas, nomes, edifícios, religiões, cozinhas e memórias espalhadas pelo mundo.

Nada disso foi exclusivamente glorioso.

Nada disso foi exclusivamente vergonhoso.

Foi História.

E a História, para desgosto de quem prefere slogans, raramente aceita caber numa palavra.

Talvez por isso seja tão curioso observar a relação contemporânea dos portugueses com o próprio país.

Precisamos frequentemente que alguém de fora venha dizer-nos que aquilo que temos é bonito.

Um jornal estrangeiro elogia Lisboa e partilhamos o artigo com entusiasmo. Uma revista internacional descobre uma aldeia portuguesa e, de repente, parece que nós também a descobrimos. Um ator americano diz que gosta de Portugal e isso torna-se notícia. Um turista explica que aqui se come bem, que as pessoas são simpáticas, que as cidades são seguras e que a luz é maravilhosa, e nós recebemos aquela descrição quase com o alívio de quem acaba de ouvir um diagnóstico favorável.

Como se precisássemos de confirmação.

Como se estivéssemos permanentemente à porta do clube de automóveis clássicos à espera que alguém nos dissesse que, afinal, o carro tem valor.

Curiosamente, fazemos o contrário com a mesma facilidade.

Quando alguma coisa corre mal, não corre apenas mal.

É Portugal.

Uma obra atrasa-se: “este país não funciona”.

Um serviço público falha: “só em Portugal”.

Um político diz uma barbaridade: “somos mesmo um povo sem solução”.

Um português emigra e ganha mais: “lá fora é outra coisa”.

“Lá fora” é, aliás, uma das grandes criações da imaginação nacional.

É um lugar fascinante.

Lá fora os comboios chegam sempre a horas, as administrações públicas funcionam, os políticos são competentes, os salários são altos, as casas são acessíveis e ninguém conhece pessoas estúpidas.

Não sabemos exatamente onde fica.

Mas fica sempre melhor do que aqui.

Nada disto significa negar os problemas portugueses.

Eles existem, e alguns são graves. Os salários continuam baixos quando comparados com grande parte da Europa Ocidental, a habitação tornou-se angustiante para muitas famílias, a produtividade cresce lentamente, a população envelhece e há demasiadas situações em que o Estado transforma tarefas simples em experiências de resistência humana.

Nenhum discurso sobre Vasco da Gama paga a prestação da casa.

Nenhuma caravela reduz o preço de uma renda.

E não há glória passada que substitua competência presente.

Mas também não há incompetência presente que apague o passado.

Essa talvez seja uma das confusões mais persistentes da nossa relação com Portugal: imaginamos que reconhecer aquilo que o país foi implica desculpar aquilo que o país é.

Não implica.

Podemos exigir mais de Portugal precisamente porque sabemos aquilo de que foi capaz.

Talvez exista até qualquer coisa de triste num país que deixou marcas tão profundas no mundo e que, tantas vezes, parece pedir desculpa por existir ou, no extremo oposto, precisa de exagerar cada página do passado para se convencer da própria importância.

Uma pessoa segura não passa o dia a dizer que é extraordinária.

Um país também não precisa.

Portugal não se torna maior porque repetimos que foi grande.

Torna-se mais compreensível quando conhecemos aquilo que fez.

E talvez seja aí que a pequena história do carro antigo deixe de ser apenas uma parábola ingénua sobre autoestima.

Porque também há um erro na moral habitual dessa história.

Não basta ir para um lugar onde nos digam que valemos muito.

Isso seria apenas trocar um vendedor por outro mais simpático.

O verdadeiro ponto é saber distinguir quem percebe aquilo que tem diante dos olhos.

O primeiro comprador via ferrugem.

O último via história.

Nenhum deles alterou o carro.

Mas apenas um sabia lê-lo.

Portugal talvez precise menos de quem o adore e menos ainda de quem o despreze.

Precisa de quem saiba lê-lo.

Ler um país é perceber que as pedras de um castelo não tornam ninguém melhor, mas contam alguma coisa. Que uma língua falada por centenas de milhões de pessoas não é um argumento de superioridade, mas também não é um acaso irrelevante. Que uma fronteira mantida durante séculos, uma presença espalhada por continentes e uma memória que ainda desperta amor, ressentimento, orgulho e discussão significam que alguma coisa aconteceu aqui.

Alguma coisa suficientemente importante para ainda estar connosco.

Talvez o nosso problema seja termos passado demasiado tempo a perguntar aos outros quanto Portugal vale.

Uns oferecem pouco.

Outros oferecem demasiado.

E nós vamos aceitando a avaliação conforme aquilo que queremos ouvir nesse dia.

Talvez fosse melhor fazer uma coisa muito menos confortável.

Abrir a garagem.

Levantar a cobertura.

Olhar demoradamente para aquilo que ali está, incluindo os riscos, as mossas, a ferrugem e tudo o que sobreviveu ao tempo.

E só depois perguntar pelo preço.

Porque há uma diferença enorme entre possuir uma coisa velha e possuir uma coisa antiga.

Às vezes, o que separa uma da outra é apenas conhecimento.