Portugal tem dois 5 de Outubro e, pensando bem, não podia ser de outra maneira. Um país menos dado a contradições teria escolhido dias diferentes para assinalar a afirmação do seu primeiro rei e a queda do último. Nós entendemos que não. Guardámos tudo para a mesma data e assim conseguimos celebrar, no mesmo feriado, uma das datas tradicionalmente associadas ao nascimento da monarquia portuguesa e o momento em que decidimos que monarcas já não nos faziam falta.

Neste 5 de Outubro passam 883 anos sobre 1143 e 116 sobre 1910. Entre uma data e a outra cabem 767 anos, três dinastias portuguesas – Afonsina, Avis e Bragança -, uma dinastia filipina, uma Restauração, um império, guerras, revoluções, invasões francesas, um terramoto capaz de mudar Lisboa e, seguramente, uma quantidade de vinho tinto que nenhum historiador conseguirá contabilizar.

Talvez o vinho seja uma boa maneira de explicar os nossos dois 5 de Outubro.

O de 1143 assemelha-se àquela garrafa muito antiga que aparece no fundo da adega, coberta de pó, com uma etiqueta onde se lê: “Tratado de Zamora – nascimento de Portugal”. Durante gerações aprendemos mais ou menos a mesma coisa: em 5 de Outubro de 1143, Afonso VII reconheceu D. Afonso Henriques como rei, assinou-se o Tratado de Zamora e Portugal tornou-se independente.

É uma história perfeita, porque tem um dia, dois reis, um tratado e um país a nascer. Às vezes até parece que Afonso Henriques entrou leonês em Zamora de manhã e saiu português depois do almoço.

Há apenas um problema bastante embaraçoso: o chamado Tratado de Zamora, enquanto documento, não existe.

Ou, para sermos historicamente mais prudentes, não conhecemos qualquer documento coevo que corresponda ao célebre tratado, nenhuma ata da reunião nem qualquer texto assinado pelos dois soberanos que declare formalmente a independência de Portugal. Sabemos que Afonso Henriques e Afonso VII se encontraram em Zamora e que o encontro foi politicamente importante, mas a confortável imagem de um pergaminho fundador, com data, cláusulas e assinaturas, pertence muito mais à nossa memória histórica do que à documentação que chegou até nós.

E aqui entra Alexandre Herculano.

No século XIX, Herculano deu ao encontro de Zamora um lugar central na interpretação da formação da independência portuguesa. A partir das fontes disponíveis, entendeu aquele momento como decisivo para o reconhecimento da posição régia de Afonso Henriques. O próprio Herculano, porém, reconhecia que não possuía qualquer documento específico que registasse as condições desse entendimento. A historiografia e, depois, a divulgação escolar foram dando ao episódio uma forma cada vez mais nítida até o “Tratado de Zamora” se transformar, para gerações de portugueses, numa espécie de certidão de nascimento do país.

Não significa isto que Zamora seja irrelevante, nem que Herculano tenha simplesmente “inventado” Portugal numa secretária. Significa que uma interpretação historiográfica se tornou, com o tempo, mais sólida na memória coletiva do que a própria documentação que a sustentava.

Portugal não nasceu às dez da manhã de 5 de Outubro de 1143. Quando chegou a Zamora, Afonso Henriques já usava o título de rei, exercia um poder autónomo, guerreava, conquistava território e procurava construir legitimidade perante os restantes poderes peninsulares e perante Roma. O reconhecimento pontifício inequívoco chegaria apenas em 1179, com a bula Manifestis Probatum, de Alexandre III.

É por isso que 1143 se parece tanto com uma garrafa antiga. A data escrita na etiqueta não corresponde necessariamente ao momento em que começou a fazer-se o vinho. Antes da rolha houve vinha, vindima, fermentação e espera. Antes de Zamora houve São Mamede, Ourique, guerra, diplomacia, Igreja, nobres e anos de afirmação política.

O curioso é que, 767 anos depois, Portugal voltou a escolher o mesmo dia para mudar de vida.

O vinho de 1910 é muito diferente. Já não é um tinto medieval envelhecido lentamente em cave; é um vinho jovem, nervoso e com alguma tendência para saltar da garrafa antes de alguém encontrar o saca-rolhas.

Na madrugada de 4 para 5 de Outubro de 1910 havia tropas revoltadas na Rotunda, marinheiros, carbonários, civis armados, navios no Tejo e uma monarquia que descobria demasiado tarde que já não tinha gente suficiente disposta a morrer por ela. Na manhã do dia 5, José Relvas proclamou a República nos Paços do Concelho de Lisboa e uma instituição com séculos de existência chegou ao fim.

Há qualquer coisa de deliciosamente irónica nisto. Em 1143, Afonso Henriques procurava que os outros aceitassem que ele era rei. Em 1910, os republicanos procuravam garantir que nunca mais houvesse nenhum.

Um queria uma coroa; os outros queriam mandá-la para o museu. E ambos acabaram no mesmo quadradinho do calendário.

Também 1910, naturalmente, não começou em 1910. Antes daquela manhã existiram décadas de republicanismo, o Ultimato britânico, o desgaste do sistema monárquico, João Franco, o regicídio de 1908, conspirações, propaganda e uma sociedade cada vez mais polarizada. José Relvas apareceu à varanda no fim de um processo, não no princípio dele.

Tal como aconteceu com Zamora, gostamos de ficar com a fotografia porque o filme dá demasiado trabalho.

“Portugal nasceu em 1143” é uma excelente frase. “A República nasceu em 1910” também. Ambas cabem num manual, num discurso oficial, numa publicação comemorativa ou numa caneca. A História, porém, tem uma relação difícil com frases perfeitas, porque quase nada começa verdadeiramente no dia em que dizemos que começou.

Nem sequer a República de 1910 corresponde inteiramente à imagem democrática que hoje podemos projetar sobre ela. Trouxe uma nova linguagem política, novos símbolos, a separação entre o Estado e a Igreja, ambições de modernização e confiança na educação, mas nasceu também num país pobre, desigual e com uma participação política muito limitada. Teve grandes promessas e uma vida atribulada. Dezasseis anos depois, o golpe militar de 28 de Maio de 1926 encerraria a experiência da Primeira República.

Talvez esse seja outro traço português: somos excelentes a abrir garrafas e menos competentes a decidir o que fazer depois de as abrir.

Ainda assim, há qualquer coisa de extraordinário nestes dois 5 de Outubro. Um fala-nos da construção de Portugal perante os outros; o outro, da tentativa de Portugal se reconstruir perante si próprio. Em 1143 discutia-se o lugar de Afonso Henriques num mundo de reis, imperadores e papas. Em 1910 discutia-se quem deveria governar, em nome de quem e com que legitimidade.

Num caso, a memória posterior transformou um encontro diplomático num tratado fundador; no outro, uma revolução acabou transformada num instante quase cinematográfico: uma varanda, uma bandeira e uma República acabada de estrear.

Talvez seja por isso que o vinho explique melhor a História portuguesa do que muitas comemorações oficiais. Uma garrafa não vale apenas pela data escrita no rótulo; vale pelo que aconteceu antes de lá chegar, pelo tempo que envelheceu e também pelas histórias que sucessivas gerações foram contando enquanto a bebiam.

Neste 5 de Outubro haverá quem celebre sobretudo a República e quem prefira recordar Zamora. Haverá quem diga que Portugal faz 883 anos e quem responda que um país medieval não possui uma certidão de nascimento com dia e hora. Haverá ainda quem continue à procura mentalmente do Tratado de Zamora, convencido de que ele deve estar algures num arquivo, entre dois pergaminhos.

Pode procurar. Até hoje ninguém o encontrou.

Eu proponho uma solução mais simples: abra-se uma garrafa de vinho tinto.

Ao primeiro copo brindemos a 1143, mas sabendo que a etiqueta foi escrita muito depois do vinho. Ao segundo brindemos a 1910, mas sem imaginar que uma varanda consegue, sozinha, mudar um país. E ao terceiro brindemos simplesmente a Portugal, porque uma nação que conseguiu colocar no mesmo dia do calendário a afirmação do seu primeiro rei e a queda do seu último tem um sentido de humor histórico que merece ser preservado.

E nessa altura talvez seja prudente parar, porque a partir do quarto copo até o Tratado de Zamora começa a parecer um documento autêntico.