A autoridade de saúde pública comunica para um público que é “seu”. Continua a não conseguir comunicar com os públicos mais vulneráveis. Frases feitas e repetitivas como “Coma melhor. Faça exercício. Perca peso.” São o dia a dia dos técnicos de fato e gravata que não vestem os sapatinhos dos mais desfavorecidos. Quem vive com excesso de peso ou obesidade sabe estes conselhos de cor, seja da boca do médico ou da boca da comunidade. Vox pop? É fácil apontar para o prato e ali depositar todas as culpas. Afinal, o quanto se come, o quanto se mexe e o quanto se pesa são questões que parecem apenas ao próprio dizer respeito. Haja disciplina e responsabilidade individual…

Enquanto isso, as estratégias da saúde continuam, cada vez mais, a pautar-se pela promoção pessoal e não institucional. Cada um usa as redes sociais para enaltecer o que faz. Menos o que faz pela comunidade.

 

Verdade 1: ter excesso de peso é uma consequência de um desequilíbrio no corpo, quando são mais as calorias ingeridas do que aquelas que cada ser humano consegue gastar. Verdade 2, muito poucas vezes mencionada ou informada cientificamente, mas com simplicidade, é que a obesidade é uma doença crónica que prejudica gravemente a qualidade de vida e a sustentabilidade financeira dos agregados familiares e dos sistemas de saúde. Talvez menos importante (para uns…) determinante para as vítimas, associa-se a um risco aumentado de doenças cardiovasculares, diabetes, doenças osteoarticulares e até mesmo de alguns tipos de cancro.

E onde para Portugal? Mais de metade da população adulta vive com excesso de peso ou obesidade: um dado preocupante e revelador de um importante problema de saúde pública. Importa a quem? Nos dias mundiais disto, daquilo, do outro… propaganda, pura, infeliz e triste. Venha a reforma e a Lei Orgânica (da Saúde ou da Doença?) para saírem todos, talvez apareçam uns mais eficientes. Mas… a máquina continuará enferrujada com os mesmos de sempre.

Os chicos-espertos das dietas: ainda há quem insista que tudo isto se resolveria com uma resoluta greve de fome, importa questionar se existirá, no seio da sociedade portuguesa, uma praga de falta de vontade, ou se a resposta não será muito mais complexa.

Fazer um caminho onde a alimentação saudável e a prática de exercício físico entrem são escolhas, é certo, mas não podem ser realizadas isoladamente.

Para escolher, é preciso ter folga financeira. Será que a autoridade pensa nisso ou pôs o “especialista de LS” a pensar em formas mais inteligentes de mobilizar os públicos-alvo sem passar por protocolos amigos e repetitivos? Escolher uma alimentação equilibrada depende do preço e da disponibilidade dos alimentos, do tempo disponível para cozinhar e de conhecimentos sobre nutrição. Já o exercício físico não resulta apenas da motivação: é função do tempo, das condições de trabalho e do ambiente onde se vive.

Lembro-me sempre da “minha Ermelinda”. A Ermelinda é a chefe das senhoras que limpam o local onde trabalho. Muitas vezes pergunto aos meus alunos: “Sabem quem é a Ermelinda?”. Ela e as outras senhoras começam antes de mim. Quando por vezes chego às 7 da manhã elas já por lá andam. Às 8h30 estão a ir embora. Elas (há muitas elas e eles), não têm tempo para ter tempo e caminhar e cozinhar e cuidar dos filhos e levar os filhos ao colégio (onde os betos todos levam). Sim, os betos e os falsos betos. Porque os verdadeiros betos ensinam os filhos a comer e a andar de autocarro e a respeitar os tempos das Ermelindas.

É preciso ler para compreender. Realmente, devemos afirmar que os contextos propiciam a obesidade.

É preciso considerar: o que são e quais são os determinantes sociais da saúde. Os fatores constitucionais, o rendimento, a educação, o acesso a cuidados de saúde, as condições de trabalho, o ambiente alimentar, a habitação, saneamento e as características dos espaços onde as pessoas vivem podem influenciar, por um lado, a exposição a fatores que aumentam o risco de desenvolver a doença e, por outro, as oportunidades para adotar comportamentos promotores de saúde.

É preciso resumir, mas é importante não esquecer. A DGS tem o dever de lembrar e de cuidar. De uma história comprida, é preciso parar de continuar a responsabilizar exclusivamente uma pessoa pela sua obesidade. Isso, além de castigador e inumano, incorre numa flagrante injustiça, porque escolher não é o mesmo que ter oportunidade de escolher.

As pessoas não escolhem os caminhos que a Autoridade segue. As escolhas de propaganda nas redes sociais. As toilettes dos seus stakeholders. O papel da autoridade é descer dos seus tacões e ir para os bairros sociais e escolas e barracas (sim, há barracas em Lisboa…) e não apenas fazer conferências para os meninos ricos dos colégios.

A obesidade não se distribui homogeneamente pela população portuguesa: existem diferenças conforme a região do país, o sexo e o estatuto socioeconómico. Os valores de prevalência mais elevados têm sido registados no Alentejo e na Região Autónoma dos Açores e, entre as mulheres, as diferenças segundo o nível socioeconómico tendem a ser particularmente expressivas: mulheres com nível socioeconómico mais baixo apresentaram prevalências de obesidade até três vezes superiores às de mulheres de nível socioeconómico mais alto.

Quer isto dizer que o contexto económico não determina inevitavelmente quem desenvolve obesidade, mas as condições sociais influenciam o acesso que cada pessoa pode ter a estilos de vida mais saudáveis.

Vamos lá ensinar a missa ao vigário da Literacia (em saúde): é aqui que se pode gerar um ciclo: as desigualdades favorecem a obesidade, e a obesidade pode aprofundar essas mesmas desigualdades.

Quando se aumentam as despesas em saúde e se dificulta a participação profissional, situações económicas desfavoráveis que já prejudicavam o acesso a alimentos saudáveis, cuidados de saúde ou oportunidades para praticar exercício físico podem agravar-se. E agravam. O que pensam os grandes especialistas de literacia em saúde e a autoridade?

Pessoas que carregam o peso da obesidade tendem a faltar a mais dias de trabalho do que pessoas com peso normal – facto que se atribui, em parte, a dificuldades físicas acrescidas na realização de tarefas, mas também ao potencial incapacitante de problemas de saúde mental, frequentes em pessoas com obesidade.

Um outro determinante recorrentemente esquecido: o sono. Todas as Ermelindas não dormem o mínimo. Os horários de trabalho prolongados ou irregulares e o trabalho por turnos impedem que se concilie o ritmo profissional com o ritmo biológico, prejudicando a qualidade do sono. Além disso, existe uma importante interligação entre sono, obesidade e saúde mental. Em pessoas com obesidade grave, uma pior qualidade do sono associa-se a uma maior proporção de gordura corporal e a alterações desfavoráveis do perfil lipídico. Existe ainda uma relação entre alterações nos padrões de sono e uma pior saúde mental: particularmente, pessoas com uma tendência para se manterem acordadas até mais tarde e com maior dificuldade para acordar cedo revelam uma maior prevalência de sintomas de ansiedade e de depressão.

Será tudo isto, então, uma verdadeira questão de “falta de disciplina”? falta de literacia (em saúde)? Ausência de empoderamento dos públicos-alvo pelas autoridades de saúde? Ou será que os determinantes sociais, laborais e psicológicos contribuem para a obesidade e são permanentemente “esquecidos” pela crónica (como a obesidade) falta de meios financeiros (e humanos)?

Mais!: o próprio ambiente pode influenciar a capacidade de fazer escolhas saudáveis.

Imagine este episódio de edutainment: duas pessoas decidem começar a caminhar diariamente.

A pessoa UM vive numa zona com passeios seguros, iluminação adequada e espaços verdes.

A pessoa DOIS vive numa zona de expansão urbana desordenada, onde os percursos pedonais são pouco acessíveis, tornando-se o carro uma necessidade para quase todas as deslocações.

Ambas podem ter a mesma motivação, mas certamente não têm as mesmas oportunidades. O chamado “ambiente construído” — os espaços urbanos, os passeios, as ciclovias, as zonas verdes e a organização das cidades — pode facilitar ou dificultar a prática regular de exercício físico. Também o ambiente alimentar influencia aquilo que é mais acessível e apelativo para os agregados familiares. A abundância de alimentos processados e altamente calóricos, a exposição a estabelecimentos de fast food e a menor disponibilidade de frutas e vegetais podem condicionar as escolhas alimentares.

Perante a panóplia de desigualdades estruturais de difícil modificação a curto prazo, torna-se evidente a importância da divulgação de informação sobre saúde. Mas a informação não basta, porque saber qual é a escolha mais saudável não implica que haja condições para a fazer.

Moral desta história que é nacional: mais do que informar, importa empoderar as pessoas através da educação, comunicação auspiciando que aumentem o seu nível de literacia em saúde. Com isso: saber procurar, compreender e avaliar informação sobre alimentação, atividade física e prevenção da doença pode ajudar as pessoas a tomar decisões mais informadas e a participar na construção de políticas públicas que reduzam as desigualdades em saúde, nomeadamente aquelas que transformam os ambientes onde as pessoas vivem.

À DGS: há que investir na reorganização da oferta alimentar em escolas, locais de trabalho e estabelecimentos comerciais, tornando mais acessíveis e mais visíveis opções mais saudáveis, acompanhadas de informação nutricional simples e adaptada a diferentes franjas da população.

Às autarquias: nas áreas residenciais e urbanas, investir em melhores passeios, iluminação, zonas verdes e percursos pedonais é promover a mobilidade ativa.

Ao Ministério de Economia e ao Ministério do Trabalho da Segurança Social: Nos locais de trabalho, pausas para movimento e equipamentos que permitam alternar entre estar sentado e de pé podem reduzir o sedentarismo.

Os outros e nós: Implementar estas medidas não elimina a responsabilidade individual: torna-a mais realista, porque entre a intenção e a ação existe todo um enquadramento. Existe o rendimento. Existe o tempo. Existe a educação. Existe o bairro. Existe o emprego. Existe o sono. Existe o acesso aos cuidados de saúde. Os profissionais são excelentes, os hospitais cada vez mais cheios e os centros de saúde sem capacidade de resposta.

UMA ESTRATÉGIA INEFICAZ passa por escrever apenas mensagens nas redes sociais (com velhos seguidores e amiguinhos) ou fazer vídeos “lindinhos” na página da DGS.

UMA ESTRATÉGIA EFICAZ para reduzir a obesidade e minimizar o burden em Portugal, deve resultar do conhecimento das condições em que vivem as pessoas (se elas importarem) e empoderar no sentido de escolhas possíveis. É mandatório deixar de perguntar apenas porque é que uma pessoa não faz escolhas mais saudáveis.

É o mesmo que perguntar: para que servem os vídeos da DGS? A quem se destinam? Talvez para os que lá trabalham.

O texto é da inteira responsabilidade da Professora IDS