A pressão sobre os centros urbanos não é surpresa. Lisboa, Porto, e outras cidades portuguesas, enfrentam há anos a mesma equação na habitação: preços elevados, escassez de terrenos para construção e bairros com maior densidade populacional. A solução, porém, não passa apenas por construir mais no coração das cidades, mas em olhar para as periferias, onde existe mais espaço e solo disponíveis para criar novas localidades, mais harmoniosas sob o ponto de vista urbanístico. O grande desafio é como fazer isso de forma inteligente e integrada.

Do meu ponto de vista, a principal resposta está na mobilidade. Não falo apenas de transportar pessoas da localização A para B, mas da criação de redes de transporte eficientes, confortáveis e confiáveis – metro e comboio são as principais soluções que possibilitam viver a dezenas de quilómetros dos centros urbanos sem sacrificar tempo ou qualidade de vida. Em cidades como Londres, Paris, Madrid ou Amesterdão, esta é já uma realidade. Pessoas que vivem a 20, 30 ou até 40 km destes grandes centros deslocam-se diariamente sem grandes constrangimentos, porque a infraestrutura de transportes acompanha o crescimento urbano.

Em Portugal, a expansão das cidades sem soluções robustas de mobilidade tem vindo a criar zonas isoladas: bairros e polos de comércio que existem enquanto projeto ou investimento, mas que, na prática, permanecem desconectados do tecido urbano central. Um edifício habitacional fora das grandes cidades só será verdadeiramente atrativo se permitir que os seus residentes cheguem rapidamente ao trabalho, à escola ou aos serviços. Um espaço de escritórios ou comércio só prospera se for acessível, sem a alternativa do automóvel particular. A mobilidade é, em muitos casos, o que garante que os investimentos feitos valem a pena e que os novos bairros florescem.

Este modelo de mobilidade tem um impacto duplo. Por um lado, ajuda a aliviar a pressão nas cidades, permitindo que mais pessoas encontrem habitação a preços mais acessíveis. Por outro, fortalece o tecido económico e social dessas zonas, tornando-as mais completas, vivas e sustentáveis. Não se trata apenas de construir casas; trata-se de construir cidades funcionais, onde viver fora do centro não significa perder tempo em deslocações, mas ganhar qualidade de vida.

Se queremos resolver o problema da habitação, é hora de investir numa rede de transportes públicos eficientes, integrar novas acessibilidades e encarar os concelhos vizinhos como oportunidades para expandir as cidades com critério. Este investimento só terá reflexos daqui a alguns anos, numa altura em que não estarão em funções os políticos atuais. É por isso que, governo após governo, estas decisões acabam por ser adiadas.

O futuro das nossas cidades passa por esta liberdade: viver onde se deseja, trabalhar onde se precisa e deslocar-se de forma rápida, confortável e sustentável. As cidades portuguesas têm a oportunidade de se tornarem exemplos de expansão urbana inteligente. Basta que a mobilidade seja tratada com urgência e que sejam tomadas as decisões de investimento necessárias.