Devíamos todos, pelo menos uma vez na vida, parar um pouco e, sentados no muro da zona pedonal de Matosinhos, deixar-nos embalar por um dos pores do sol que ali têm palco.

Aquela parte da cidade, tal como um bom vinho branco – e os melhores são sempre os das zonas de transição –, ocupa geograficamente um enclave entre o Porto e Matosinhos. Poderia chamar-se “Praia do Porto”, não desmereceria por isso, ou simplesmente “A Praia”, nome que tirando aquela com Leonardo DiCaprio e Virginie Ledoyen nos incendiou as hormonas, e lhe assentaria como “traje-de-luzes”.

Mergulhar nesse espaço é participar num exemplo onde a intervenção primou pela preservação do que a natureza oferecia e resultou numa ocupação equilibrada para usufruto de todos os que por ali circulam. É sem dúvida disso um belíssimo exemplo.

Duas construções ali são dignas de destaque. A primeira é conhecida como Anémona, uma escultura suspensa de Janet Echelman que desde 2005 nos embala num renovar permanente da forma, característica de onde lhe vem o nome original, She Changes.

A segunda nota arquitetónica é-nos devolvida à direita pelo Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, uma obra do arquiteto Luís Pedro Silva, alguém que migrou de Oliveira de Azeméis e no percurso de vida se obrigou a celebrar o belo.

Por natureza sou um conservador, alguém sempre desconfiado da intervenção humana. Porque atento ao que me rodeia, tenho tendência para uma solastalgia – sentimento de tristeza, angústia ou perda provocado pela transformação ou degradação do lugar onde se vive e a que se está emocionalmente ligado –, uma palavra e sentimento que me assola sempre que vejo destruído tudo quanto aprendi a amar. A Praia de Matosinhos, felizmente, não resulta nesse sentimento. Bem hajam por isso.

Já o mesmo não acontece no que deixamos pelas costas, ou à esquerda, lá mais distante, mas ocupando esse continuum de areal. Quem estiver sentado na zona pedonal tem para lá da Anémona um edifício que dá pelo provocador nome de Edifício Transparente. Esta é uma construção de Manuel de Solà-Morales, com fachadas de vidro, planeada no âmbito do Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura. Este trambolho brotou como uma forma de Dadaísmo tardio, uma barbárie própria dos movimentos anticulturais ou da espúria tentativa de ali dar ares de modernidade. Faltou ali qualquer coisa a Rui Rio. Talvez fosse apenas bom gosto, porque coragem, essa, tem de sobra. Felizmente, este amontoado de vidro e ao que me dizem, terá os dias contados. Vamos ver o que de lá surge. Nestas coisas nunca fiando.

O segundo elemento de solastalgia resulta do crime em curso na Avenida da Boavista. Crime porque assassinaram uma avenida destruindo a zona pedonal e de ciclovia segura. Nisso arrasaram o arvoredo, pelo menos na metade nascente da intervenção e destruíram a via pedestre central que polvilharam por antas de cimento, obra cuja assinatura de Siza Vieira e Tiago Figueiredo não compensa o espaço nem o verde de que se vestia; crime porque a via do MetroBus podia utilizar as faixas existentes, sem grande prejuízo para outros utilizadores rodoviários; crime porque alguém se enganou e investiram numa frota não adaptada ao que planearam; crime porque o presidente da Câmara ganhou o ato eleitoral anunciando em campanha que suspenderia a obra e reformularia tudo o que por ali estava a ser construído. Infelizmente, aos políticos eleitos, a hubris cresce mais rápido que os sapatos que calçam.

Crime porque todo o espaço poente da avenida surge agora enxameado de construções a mais de dois milhões de euros por apartamento – seguramente não destinadas a resolver a crise da habitação de gente como eu. Esses edificados desfiguram a zona poente do Parque da Cidade, e para além de uma volumetria desadequada, violam uma avenida que acompanhava o Parque da Cidade como num espraiar até à orla marítima. Um desaguar da terra no mar que agora desfiguraram fazendo-o terminar como um canal em asfalto ladeado por cimento de construções inúteis para o cidadão vulgar. Crime porque ainda não está ninguém preso!

Crime seis vezes! Volta, Rui Rio, fazes falta!

Mas retomemos o conto porque se de crimes estamos a falar, os de Daniel ou dos amigos, são bem mais modestos. As traquinices do Daniel, prefiro tratá-las assim, tinham a dimensão própria da adolescência tardia, prescreviam quase sempre ao fim do dia e raramente exigiam outra pena que não um ralhete.

Daniel gostava de praia. Gostava do mar, das ondas e dos surfistas, mas sobretudo gostava da extraordinária quantidade de coisas que uma praia oferece a um adolescente tardio a fervilhar de hormonas.

Com os amigos costumava ir cedo. A praia de Matosinhos é abrigada e um surf spot de eleição para muitos e em particular para os que gostam do mar com “ondas esquerdas”. Dependendo da qualidade destas e do vento, muitos enchem aquele mar antes das 07h00 até meio da manhã, altura em que escolinhas e “banhistas” tornam impossível apanhar uma onda em tranquilidade e segurança.

Habitualmente, depois de despirem o fato, Daniel e os amigos gostavam de se sentar no muro da zona pedonal, aquietando o esforço com os corpos ao sol. Uns gostavam de falar e inventar histórias, outros, mais provocadores, alimentavam picardias. Daniel gostava de observar. Empoleirado no muro sentia-se rei, quase divino, num areal que se espraiava a seus pés. Aquela era a sua praia.

Àquela hora, o areal de Matosinhos e o passeio pedonal começavam a encher-se com as personagens habituais, distribuídas em camadas como numa versão balnear da Divina Comédia de Dante.

Por ali circulavam os corredores, condenados a ir eternamente para lugar nenhum. Surgiam de todos os lados, uns vestidos com cores fluorescentes, outros de corpos cinzelados saídos dos rótulos dos suplementos alimentares. Uns caminhavam, outros conversavam, muitos corriam, cada um ao seu ritmo, mas todos tinham o seu método e todos pareciam cumpridores empenhados das promessas de Ano Novo. Como água fluíam uns pelos outros sem atritos e com a delicadeza de quem se evita. Nessa torrente de sonhos, havia seguramente alguns obstáculos imaginários. Quando com eles deparavam, suspendiam os planos e como num redemoinho ali ficavam rodando lentamente numa dança só sua. Minutos depois, não muitos, como acontece aos obstáculos mágicos, magicamente desapareciam e as moléculas humanas regressavam ao leito em que se deslocavam.

Daniel, ao contrário de mim que aprecio pés, tinha um fetiche por mamas. Gostava delas grandes, voluptuosas como a Anémona. Admirava-as numa convexidade que, quanto maior mais saltitavam no trote e mais exuberante seria a sua concavidade interpar. As mais pequenas, as adolescentes em corpo adulto, tinham também os seus encantos. A estas, gostava de as ver descontraídas, soltas, por vezes atrevidas quando se permitiam a um fugaz escapar para rapidamente regressarem para longe da vista.

E todos por ali passavam ofegantes, olhando para o pulso, perseguindo as décimas de segundo que ninguém lhes roubara. Quase todos tinham relógios exuberantes, capazes de tudo lhes dizer sobre as coisas do coração.

Nessa Divina Comédia, logo depois vinham os ciclistas, senhores de uma geometria própria, quase sempre convencidos de que a mais curta distância entre dois pontos era uma linha só sua.

Num círculo mais ameno caminhavam os donos de cães. Ou talvez fossem os cães os donos deles. Uns puxavam pelos outros, paravam nos mesmos sítios, cheiravam interesses diferentes e acabavam invariavelmente por chegar a acordo sobre o caminho a seguir. Muitos aproveitavam um farejar mais apelativo para o premiar. Os seus “donos”, conhecedores da mais-valia, guardavam-na numa bolsa que transportavam à frente para, de olho nela, impedirem tentações de algum meliante. Outros, os mais desprendidos dessas coisas da vida, deixavam-no para que alguém mais necessitado dele viesse a ter usufruto.

Mais abaixo, já no areal, estavam os “banhistas”. No verão estendiam toalhas e nelas deitavam corpos que depois tremeluziam sob um sol escaldante. Muitos seguramente faziam-no para torrar os pecados, outros, com a fé que o protetor respeita a linhagem que lhe dá nome.

Os mais velhos caminhavam junto à água, com chapéu ou boné, óculos de sol, de andar empoderado, lá circulavam num ritual que habitualmente se dividia numa ida sobreponível à vinda. E assim vão, ora numa negociação prudente com cada onda, ora seguros de si, fazendo por demonstrar que nada os desviaria do caminho.

E por entre aquele escaparate de corpos, movimentos e pequenas vaidades, nesse dia o olhar de Daniel deteve-se como esbarrando num obstáculo intransponível. Era bonita. Muito bonita. Mas havia nela qualquer coisa que lhe roubava a habitual ousadia do olhar. Pela primeira vez naquela manhã, não procurou um decote, uma curva ou o desenho de umas pernas. Quis apenas voltar a ver-lhe o rosto.

Emanava dela um magnetismo estranho, uma força que prendia o olhar e o fazia regressar sempre ao mesmo ponto. Daniel sentia aquela atração como uma força, algo físico, mas sem expressão matemática capaz de a explicar.

Ela afastou o cabelo, olhou por instantes na sua direção e sorriu. Talvez para ele, talvez não. Aos dezoito anos, certas dúvidas resolvem-se sempre a favor. Daniel ficou a olhar. Não sabia o seu nome. Chamou-lhe Beatrice. Dante tivera a sua. Daniel acabara de encontrar a dele.

E durante alguns minutos, empoleirado no muro, pareceu-lhe perfeitamente possível suspender o tempo e entrever naquele instante um futuro que ainda não existia.

Em tudo isto passou um bom par de horas, até ao momento em que a fome lhe apertou o estômago, como que a pedir-lhe algo sólido. Quando assim se sentia, levantava-se e ia a uma das pizzarias circundantes. Gostava de pizza.

A “havaiana” era a de que mais gostava. Comprava sempre uma de tamanho familiar pois sabia que haveria sempre quem a quisesse debicar. Destes, Kiko era o mais perigoso. Se Daniel se permitisse a uma pequena distração, rapidamente lhe limpava o repasto. Nesse dia tinha-se preparado para corrigir o abuso.

Como de costume, perto do meio-dia, foi comprar a habitual pizza de tamanho familiar. Só que, desta vez, acrescentou-lhe um ingrediente extra!

Regressado ao poiso, sentou-se ao lado de Kiko e colocou a pizza entre ambos. Continuou distraído em conversa, mantendo-o sempre debaixo de olho. Kiko esperou que Daniel se servisse, mas, como este se mantinha em demorada conversa, atreveu-se, abriu a caixa e tirou o primeiro bocado. Levou-o à boca, mas rapidamente o cuspiu.

– Sabe a remédio. Esta m**** está estragada!

Daniel, fingindo-se surpreendido, deu também uma trinca, e confirmou:

– Esta m**** está mesmo estragada.

Com medo de ter sido topado na pizzaria, achou melhor não a devolver. Disse que mais tarde o faria.

Entretanto, as gaivotas, que não toleram ver comida sem se fazerem convidadas, começaram por ali um pequeno motim. Os dois bocados cuspidos tinham funcionado como isco para um bando que protestava e exigia participar. Daniel sentiu-se tentado e deu-lhes o primeiro pedaço. Todos acharam graça à sofreguidão dos bichos que pareciam não se importar com uma pizza agora panada em areia. E assim, no meio da algazarra da passarada, em pouco tempo esvaziaram a caixa e fizeram desaparecer o objeto do crime de Daniel. Tudo como numa cena de Alfred Hitchcock*.

Passado o alvoroço, Daniel sentiu-se em paz. Tinha escondido o seu delito. Só não contara com as consequências!

Cerca de trinta minutos depois, já refeitos com uma outra pizza, mas desta vez sem extras, algo de insólito aconteceu. Fernão Capelo e o seu bando de acólitos, antes esfomeados, agora esvoaçavam pelos céus e, como bombardeiros enraivecidos, começaram a devolver na forma de dejetos, a pizza e o extra com que se tinham refastelado. Foi um verdadeiro merdaçal. Nem Beatrice escapou. Em poucos minutos, as gaivotas tinham cagado toda a Divina Comédia que, com requinte de artista, Daniel levara meia manhã a imaginar.

* Referência a um episódio da série Alfred Hitchcock Presents – “Lamb to the Slaughter”, 1958, adaptado de um conto de Roald Dahl.