No nosso Agrupamento, a diminuição da retenção surge como consequência destas mudanças e de um processo que foi tudo menos fácil.

As temáticas relacionadas com Educação são frequentemente fraturantes e polarizadoras da opinião pública: ensino público vs privado; autonomia vs centralização ou vantagens vs desvantagens da retenção de alunos. Os professores, estando diretamente envolvidos em todos os processos, têm as suas opiniões, sendo certo que todos gostam de ter bons alunos, com os melhores resultados.

Mas o que é afinal um bom aluno? Um bom aluno está sentado na sala-de-aula, atento, é um bom ouvinte, fala pouco, é bem-mandado e bem-ensinado no currículo tradicional, igual ao de todos os outros alunos. É bom no desempenho individual, cumpre as normas, e por isso tem boas notas. E assim decorre a generalidade da sua educação até ao momento em que se “faz à vida”, começa a procurar trabalho e a desenvolver a sua plena cidadania. E aí o que se pretende são bons profissionais e cidadãos, que sejam dinâmicos, bons comunicadores, que saibam trabalhar numa equipa, cooperar e tomar decisões. Também queremos pessoas criativas, inovadoras, com iniciativa e espírito crítico. É nesse momento que tudo muda, e comparando o que a escola tradicional oferece com o que se pretende para um cidadão, facilmente chegamos à conclusão que em pouco ou nada coincidem.

Não deve então a escola tentar fazer melhor? Não será possível desenvolver na escola as estratégias necessárias para que os alunos cresçam e aprendam, tornando-se cidadãos mais competentes? Esse é o grande desafio da educação atual e não tem soluções simples, nem rápidas, nem consensuais.

No caso do Agrupamento de Escolas da Boa Água, escola onde tenho o privilégio de trabalhar, o processo de mudança implicou o envolvimento de toda a comunidade, iniciou-se há cerca de seis anos com a introdução de tecnologias no dia-a-dia dos alunos, e implicou alterações em áreas diversas como: o ambiente na sala-de-aula, onde agora os alunos trabalham quase sempre em grupo e com colegas de outros anos; na metodologia, desafiando os alunos a desenvolverem as suas competências através da resolução de problemas, do cumprimento de tarefas previstas em guiões ou desenvolvendo trabalho de projeto com dois ou três professores por grupo de 45 alunos; no currículo, não dividido em disciplinas e direcionado para o desenvolvimento de competências; e na avaliação, focada não apenas na aquisição de conhecimento mas, essencialmente, no que se consegue fazer com esse conhecimento.

Mas conseguirão estes alunos ter, na avaliação externa – provas finais – bons resultados? Aquilo que sabemos da nossa experiência é que, não só conseguem, como foram, até hoje, os únicos alunos a ter resultados acima da média numa escola onde, tradicionalmente, a metodologia clássica continua a ter resultados abaixo da média nacional (até porque o processo de mudança continua a decorrer).

A diminuição da retenção surge assim como consequência destas mudanças, apesar de ser um objetivo da escola e também nacional. Às escolas que perseguem este objetivo, deve ser dada a liberdade de construir os seus processos de mudança, com tempo, reflexão e envolvimento das comunidades educativas. Processos complexos e que nada terão de facilitismo…

Diretor no Agrupamento de Escolas da Boa Água, Quinta do Conde

‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.