Ninguém sabe o que vai acontecer, mas toda a gente sabe que estamos num mundo novo. Vivemos todos, há mais de um mês, num planeta completamente diferente, uma “nova ordem mundial”. Mesmo se, na realidade, tudo pareça estar na mesma. Os especialistas é que sabem; e eles dizem que aquilo que existiu no globo durante mais de 75 anos acabou de vez. Já começou um mundo novo. Até dizem a hora exata em que isso aconteceu: foi no passado dia 20 de janeiro, pelas cinco da tarde do tempo médio de Greenwich, meio-dia em Washington, momento em que o novo presidente americano prestou juramento.
Isto porque, se virmos bem, o tal mundo novo, aquele em que oito mil milhões de pessoas vão viver a partir de então, foi afinal definido por um único homem. Ele falou, e tudo aquilo que nós sabíamos sobre o mundo, de repente, nessa tarde, deixou de ser verdade. Não é que a gente acredite no que ele diz. O novo presidente americano é uma personalidade perturbada, que muda de opinião facilmente e tem ideias estranhas. Tirando alguns fanáticos, a maior parte das pessoas não acredita realmente nele. Por isso é que ninguém sabe o que vai acontecer.
No entanto, toda a gente acredita que ele, apesar de ser uma personalidade perturbada, que muda de opinião e tem ideias estranhas, tem poder suficiente para transformar completamente o mundo. Todo o mundo, aquele que tem oito mil milhões pessoas. Esses oito mil milhões de pessoas, que há dois meses sabiam imensas coisas sobre o mundo, e agora não sabem nada. Está tudo à espera de descobrir, afinal, em que mundo vamos todos viver o resto dos nossos dias.
Se, perturbados por esta situação insólita, tentarmos obter alguma ideia acerca daquilo que nos espera (afinal é importante saber, dado que vamos viver aí o resto dos nossos dias), não faltam analistas para nos explicar tudo. Não há dois que prevejam a mesma coisa, mas, curiosamente, todos usam, nestas variadíssimas previsões, as mesmas regras de lógica, os mesmos critérios, até os mesmos objetivos de antes. Afinal, a nova ordem mundial funciona da mesma maneira que a antiga.
Quais são, então, os elementos diferentes? Bem, parece que os Estados Unidos são imperialistas e protecionistas, coisa que antes ninguém suspeitava. Transformador! Além disso, são egoístas e oportunistas, abandonando os antigos aliados quando lhes apetece; também algo completamente inesperado. Radical! Ou seja, afinal, se esquecermos aspetos de estilo (os novos dirigentes americanos são bastantes mais grosseiros e malcriados que os antecessores) a tal nova ordem mundial parece-se muito com a precedente.
Quer isto dizer que a recém-empossada administração americana não está a mudar nada? Claro que muda. Tanto quanto se vê, está a mudar muito em Washington. Mas, apesar daquilo que os americanos acreditam piamente, Washington não é o mundo. Nem sequer é o país. Conseguir mudar os Estados Unidos é algo muito difícil, que não se faz com um punhado de “ordens executivas”. Em geral, as mudanças que Washington inventa, realmente pouco afetam, de forma real e duradoura, todo o país. Mesmo aquelas que tanto alarme geraram em poucos dias, justificadamente, foram na sua maioria suspensas. Se vierem a ser implantadas, terão efeitos tão drásticos e rápidos que em breve não haverá alternativa senão retirá-las. Porque no fim, a realidade impõe-se sempre à retórica.
Quer isto dizer que não existem graves perigos para a democracia, a prosperidade, a paz? Claro que existem. Mas esses sempre existiram, porque a democracia, a prosperidade e a paz são conquistas que têm de ser merecidas todos os dias. Mas se elas são frágeis e estão sempre em risco, são também muito mais resistentes do que se pensa. Resistentes porque, no fundo, todos as querem e, logo que são abandonadas, todos sofrem muito.
Isto aponta para a verdade mais relevante a lembrar e reter nestes dias: o mundo, ou mesmo apenas um país, é gigantesco e muito complexo; os problemas são inúmeros e extremamente difíceis. De tempos a tempos surgem uns tontos que acham ter a solução do mundo no bolso; mas esses, como todos os seus antecessores, em breve sofrem o banho frio da realidade. Quanto mais querem mudar, mais o antigo lhes cai na cabeça.
O mundo é novo todos os dias, mas evolui à sua maneira. A única razão por que tanta gente acha hoje que estamos num mundo novo é porque acreditou nas promessas de políticos e opiniões de especialistas. Mas nem sequer isso é novo.