Nuno Álvares Pereira é indubitavelmente uma das figuras maiores da História de Portugal e das mais reconhecidas pela população. Muito se escreveu já sobre os seus feitos, mas persistem dúvidas acerca da vida do homem a quem o rei D. João I concedeu um poder quase ilimitado e que o Papa Bento XVI canonizou pela sua “vida de fé e oração em contextos aparentemente pouco favoráveis à mesma”.
A questão mais debatida sobre esta figura nacional prende-se com a sua naturalidade, sobressaindo como hipóteses para o local de nascimento Cernache do Bonjardim (concelho da Sertã), Flor da Rosa (Crato), Santarém ou Elvas. Todavia, e conforme refere Aires Nascimento, “não há documento ou texto de crónica primitiva que declare explicitamente” onde ele nasceu. Posto isto, e como prossegue o autor, “teremos que proceder por aproximações antes de concluir seja o que for a esse respeito”.
Ainda assim, este e outros investigadores contemporâneos coincidem na tese que aponta para Cernache do Bonjardim, onde, aliás, Álvaro Gonçalves Pereira (pai de Nuno Álvares Pereira) mandou construir, pelo ano de 1340, os Paços do Bonjardim, e que o cronista Fernão Lopes dizia ser “obra asaz vistosa e fermosa”. É também em Cernache do Bonjardim que “nos anos imediatamente anteriores ao nascimento de Nun’Álvares, três dos filhos de D. Álvaro Gonçalves Pereira (a saber, Rodrigo Álvares, Pedro Álvares e Diego Álvares) vêem outorgadas terras de morgadio”, como assinala Aires Nascimento.
A outorga destas terras aconteceu entre os anos de 1356 e 1359 (Chancelaria de D. João I), sempre perante o tabelião da Sertã, o que parece comprovar que pelo menos três dos filhos de Álvaro Gonçalves Pereira permaneceram por longos períodos no atual território cernachense.
É, pois, possível inferir que, tendo Nuno Álvares Pereira nascido em 1360, altura em que parte da sua família se encontrava em Cernache do Bonjardim, fosse esse o local da sua naturalidade. A mãe, Iria Gonçalves do Carvalhal, teria dado à luz Nuno Álvares nos Paços do Bonjardim, o mesmo local onde anos mais tarde (1481) se deram os encontros amorosos entre D. João II e D. Ana de Mendonça e que resultaram no nascimento, em Abrantes, do filho bastardo D. Jorge.
Gravura antiga de Cernache do Bonjardim.
Os territórios de Cernache do Bonjardim e da Sertã estão indelevelmente associados a Nuno Álvares Pereira e ao culto que sobreveio à sua morte. Se excetuarmos Lisboa, local do seu padecimento e onde passou parte dos últimos anos de vida, é neste território da Beira Baixa que encontramos os vestígios mais antigos do culto religioso em torno desta figura. Ainda antes de ser beatificado (1918) já lhe eram devotados altares em templos locais, como o de Nossa Senhora do Olival (atual Nossa Senhora dos Remédios), onde existia, inclusive, uma imagem escultórica em cera com a sua representação em tamanho real. Esta imagem era de tal modo famosa que os fiéis arrancaram pedaços dela porque acreditavam ser milagrosa.
Outro argumento que favorece a hipótese de Cernache do Bonjardim prende-se com um episódio, pouco conhecido, ocorrido após o casamento de Nuno Álvares Pereira com Leonor de Alvim. Antes de partir para a sua futura residência no Minho, Nuno Álvares Pereira passou alguns dias nos Paços do Bonjardim, como se lê na Crónica do Condestável: “e com elles outros muytos caualleyros e escudeyros que os acompanharam ataa huu lugar seu da hordem que ho prioll fezera que chamauam Boõ Jardim”. A sua estada nesta localidade poderia muito bem estar relacionada com a forte ligação que mantinha com a mesma, assumindo-se este como o seu local de nascimento.
Sobre os primeiros anos de vida, aceita-se que Nuno Alvares Pereira terá vivido até aos 13 anos de idade “a grã viço em casa de seu padre”, tendo recebido uma educação bastante influenciada pelo catolicismo e pelos romances de cavalaria. Quando completou 13 anos, o pai levou-o para a Corte, deixando-o na companhia da mãe e do tio, Martim Gonçalves do Carvalhal. Rapidamente ganhou os favores da família real e foi armado cavaleiro por D. Leonor Teles, em recompensa pela forma como desempenhara uma missão de reconhecimento das tropas inimigas, durante uma das guerras com Castela. Permaneceu três ou quatro anos na Corte, tendo conhecido o mestre de Avis e encetado amizade com aquele que haveria de tornar-se o rei D. João I.
Por volta de 1376 casou a contragosto com Leonor de Alvim, em Vila Nova da Rainha (concelho de Azambuja), e desta união nasceram três filhos, dois do sexo masculino, que faleceram ainda novos, e um do sexo feminino, Beatriz, que viria a casar com o filho do rei D. João I, D. Afonso, primeiro duque de Bragança.
Nos anos seguintes, Nuno Alvares Pereira viveu sossegadamente com a esposa na zona norte do país, até ser chamado pelo rei D. Fernando para defender posições no Alentejo, na sequência das guerras com Castela. Num dos últimos recontros, avançou sozinho contra 200 inimigos e só o auxílio dos seus companheiros – que se haviam recusado a lutar – impediu a sua morte no campo de batalha. Começava aqui a nascer a sua aura de cavaleiro intrépido.
A morte do rei D. Fernando em 1383, sem deixar qualquer filho varão, abriu uma crise de sucessão no reino de Portugal. A regente, Leonor Teles, solicitou que a sua filha e o marido, o rei de Castela, fossem aclamados reis, mas a população revoltou-se. Nuno Álvares apostou no mestre de Avis para ocupar o trono, mas a família não o acompanhou na escolha. O irmão, Pedro Álvares Pereira, prior da Ordem do Hospital, optou pelo partido castelhano, assim como a mãe (que mais tarde apoiaria o mestre de Avis) e boa parte da nobreza.
Após várias peripécias, entre as quais se destaca o assassinato do conde Andeiro, D. João foi aclamado defensor do reino em Lisboa, no mês de dezembro de 1383. O país entrou em guerra com Castela e Nuno Álvares Pereira foi enviado para o Alentejo para defender as posições nacionais. O mestre de Avis nomeou-o conde de Ourém e fez-lhe diversas doações.
No dia 6 abril de 1384 liderou o exército português na Batalha dos Atoleiros, que teve lugar no atual concelho de Fronteira. Os soldados nacionais derrotaram o exército invasor de forma avassaladora. Reza a tradição que nenhum português foi morto nesta batalha, onde pela primeira vez foi aplicada a famosa técnica (ou tática) do quadrado.
Nuno Álvares Pereira regressou ao norte do país no primeiro semestre de 1385, já como Condestável do reino, conquistando diversas vilas e cidades em poder dos castelhanos, como Braga, Guimarães, Monção ou Caminha.
Pouco depois, a 14 de agosto, os portugueses travaram a decisiva batalha de Aljubarrota. De um lado o exército português e aliados ingleses, comandados por D. João e por Nuno Álvares Pereira, e do outro os castelhanos, liderados por D. Juan. Os portugueses derrotaram o exército invasor em poucas horas, recorrendo novamente à tática do quadrado e a uma astúcia militar incomum.
D. João reforçou a sua condição de rei (havia sido aclamado em Coimbra no mês de março) e Castela ficou de luto por quase dois anos. Nuno Álvares Pereira garantiu com esta batalha o seu lugar na História, além de diversos títulos (Conde de Arraiolos e Barcelos) e um número interminável de doações e mercês, que o transformaram num dos homens mais poderosos do país.
Nuno Álvares Pereira haveria ainda de participar na Batalha de Valverde (outubro de 1385), com os portugueses a vencerem uma vez mais os castelhanos.
Frontaria do Convento do Carmo e exterior da capela-mor do lado do Rossio, em gravura anterior ao terramoto de 1755.
Entretanto, o Condestável mandou construir diversos templos religiosos e conventos (em 1389 iniciou a edificação do Convento do Carmo) e, em 1393, partilhou com os seus companheiros muitas das terras que havia recebido de D. João. Posteriormente, repartiu todos os seus títulos e domínios pelos netos e entrou para a Ordem dos Carmelitas, no Convento do Carmo, em 1423, tomando o nome de Irmão Nuno de Santa Maria. “Dia e noite repartia o seu tempo entre a oração e a penitência”, escreveu Fortunato de Almeida. Morreu em 1431 na sua pequena cela.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]