Quase 40% da população mundial esteve este ano exposta a níveis perigosos de poluição por ozono, que se dispersou por vários países, mesmo longe dos focos poluidores, indica uma análise divulgada esta quarta-feira.

A conclusão faz parte de uma análise global do Serviço de Monitorização da Atmosfera Copernicus (CAMS), operado pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF, na sigla original).

A investigação, segundo um comunicado do CAMS, mostrou como a poluição atmosférica deste ano cruzou fronteiras e continentes, e que o calor extremo e essa poluição causada pelas atividades humanas expuseram 40% da população a níveis perigosos de ozono troposférico.

O ozono troposférico encontra-se numa faixa entre 10 e 12 quilómetros de altitude e resulta da transformação de poluentes emitidos pelo tráfego rodoviário e pela indústria, como o óxido de azoto, devido a uma reação química que acontece sob ação de calor intenso.

Ao ozono troposférico prejudicial (na estratosfera está o ozono que protege a Terra da radiação solar), juntam-se o fumo dos grandes incêndios e episódios de transporte de poeiras como os principais riscos ambientais para a saúde humana e para os ecossistemas, segundo a análise “Atmosphere Watch”.

Florian Pappenberger, diretor-geral do ECMWF, disse que “o Atmosphere Watch mostra que a poluição atmosférica não conhece fronteiras. O fumo de incêndios florestais, o ozono e a poeira podem viajar milhares de quilómetros, afetando comunidades muito distantes da sua origem“.

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Citado no comunicado, o responsável recordou que está para breve a próxima cimeira da ONU sobre o clima, a COP31, acrescentando que os dados agora divulgados enfatizam que as alterações climáticas, a qualidade do ar e a saúde pública são “desafios profundamente interligados que exigem ação global coordenada”.

Nos primeiros oito meses do ano aconteceram combinações propícias à formação de ozono troposférico em diversas regiões, afetando muitos milhões de pessoas. A zona mais atingida foi a Ásia, seguindo-se a Europa e depois a América do Norte, com grande parte do hemisfério norte com valores acima da meta recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Na Ásia, 60% da população foi exposta a níveis extremamente elevados de ozono troposférico.

Na Europa, apesar de melhorias em relação a alguns dos poluentes mais nocivos, nos últimos anos o ozono enquanto poluente secundário “continua a ser um desafio global particularmente complexo”, segundo o Copernicus, que aponta que mais de metade da população esteve exposta a níveis prejudiciais para a saúde, devido nomeadamente às repetidas ondas de calor.

Elevadas foram também as concentrações na América do Norte, agravadas pelos incêndios florestais, afetando mais de dois terços da população.

A Oceânia foi até agora a região mais limpa em termos de poluição por ozono, seguindo-se a América do Sul, com níveis baixos também, e depois África.

O CAMS destaca na análise o que considera uma característica marcante de 2026, até agora, que é a forma como a poluição cruzou fronteiras e viajou milhares de quilómetros para afetar a qualidade do ar de milhões de pessoas muito longe da fonte original. Especialmente o fumo proveniente dos incêndios florestais, como os que eclodiram no Canadá e oeste dos Estados Unidos.

No sudeste asiático os incêndios também contribuíram para a disseminação de neblina transfronteiriça e em julho e agosto os incêndios na Indonésia, exacerbados pelo fenómeno El Niño, expuseram milhões de pessoas a poluição perigosa.

Também a poeira do Saara afetou muito mais do que o norte de África, chegando ao Atlântico Norte, atingindo Cabo Verde e as Ilhas Canárias e mesmo a zona das Caraíbas.

Eventos, conclui o CAMS, que demonstram que a qualidade do ar não pode ser compreendida apenas pelas emissões locais.

O “Atmosphere Watch” é um dos balanços globais mais abrangentes do estado da atmosfera dos primeiros oito meses de 2026, graças à capacidade de combinar milhões de observações de satélites, redes terrestres, aeronaves e outras fontes com o sistema global de previsão da poluição atmosférica.