Com o processo de insolvência da SAD do Boavista e da não aprovação da inscrição na Liga 3, a SAD do clube irá mesmo participar na LigaPro, o escalão mais alto da AF Porto, ao passo que o Boavista irá participar na primeira divisão distrital da AF Porto, que apesar do nome enganador é a quarta e última divisão da associação. Nesta mesma divisão irão encontrar-se com o recém-fundado clube “Panteras Negras Footballers Club”, um clube criado pela claque e adeptos do Boavista descontentes com a atual conjuntura e pelo que tem sido feito para atenuar toda a situação pelo Presidente do clube Rui Garrido Pereira. Tem sido uma avalanche de notícias negativas para os Boavisteiros e que não cessa de parar. Agora, com o cenário confirmado, o clube divide-se em três. Novamente, mais um clube refém do problema das Sociedades Anónimas Desportivas e das suas dívidas.

Dava para fazer uma liga com a quantidade de clubes em Portugal que já tiveram problemas com a SAD, levando-os a ter de recomeçar tudo de novo. Há muito que se vem discutindo este problema no futebol e o impacto que tem em clubes que não façam parte dos ditos “3 grandes” e talvez o Braga. O futebol português vai ficando mais pobre com os inúmeros casos de clubes históricos que perderam controlo do seu rumo e poder e foram condenados a recomeçar tudo de novo: Belenenses, Vitória de Setúbal, Beira-Mar e tantos outros que poderiam figurar numa triste e vasta lista. E agora, sem o Boavista o futebol português fica ainda mais pobre.

O objetivo por trás das Sociedades Anónimas Desportivas, implementadas em 1997, era o de profissionalizar a gestão dos clubes, atrair investimento privado e separar as finanças do clube das do futebol. Neste processo, a transferência para a sociedade desportiva dos direitos de participação no quadro competitivo em que estava inserido o clube desportivo fundador, bem como os contratos de trabalho desportivos e os contratos de formação desportiva relativos a praticantes da modalidade ou modalidades que constituem objeto da sociedade é automática e obrigatória.

De forma básica e geral, a definição e a ideia central por trás de uma SAD é emitir ações do clube, que podem ser adquiridas por investidores privados, pelo próprio clube ou até serem negociadas na bolsa, como é o caso do Sporting, Benfica e Porto. O problema reside no facto dos clubes viverem acima das possibilidades e da sensação de impunidade dos investidores, que não entendem a história, a tradição e os adeptos dos clubes nos quais assumem funções focando-se meramente no lucro e na viabilidade a curto prazo. Este modelo cria instabilidade pois muitos clubes perdem controlo do seu futuro e colapsam por falta da pouca transparência financeira e administrativa e por falta de regulação eficaz por parte da Liga, da FPF e do Estado ao não impor regras mais apertadas e claras quanto à constituição e funcionamento das SAD. Existem, no entanto, outras formas de organização de uma sociedade desportiva em Portugal. A SDUQ (Sociedade Desportiva Unipessoal por Quotas) é uma forma de organização escolhida por poucos clubes, mas que, no entanto, contempla a titularidade do capital social pertencente em exclusivo ao clube fundador preservando assim a sua identidade e integridade institucional. Enquanto que nas SAD o clube apenas necessita de ter um mínimo de 10% do capital social, podendo a restante porção estar dispersa em inúmeros acionistas. São poucos os clubes na primeira e na segunda liga que optam pelas SDUQ, como fizeram o Casa Pia e o Gil Vicente.

Sempre se fez muito com pouco em Portugal no que diz ao respeito aos clubes pequenos no futebol profissional. Os adeptos têm cada vez menos força e poder nesta conjetura, e os clubes estão cada vez mais à mercê da vontade dos investidores estrangeiros e de patrocínios que querem ver o seu dinheiro render o mais depressa possível. Os estádios vão se esvaziando a pouco e pouco e os três grandes vêm reforçada a sua supremacia.

Tome-se o caso do Belenenses e do Belenenses SAD como exemplo de uma das situações mais mediáticas e caricatas do problema das Sociedades Anónimas Desportivas no futebol português. Um clube histórico do país e da região de Lisboa que se separou fisicamente da SAD e que recomeçou tudo de novo, sem nada, a não ser o estádio, o emblema, o hino, a história, a tradição, o palmarés e os adeptos. Por outro lado, o Belenenses SAD, que se manteve na Primeira Liga, mas sem adeptos, estádio ou qualquer ligação palpável de tradição e história, só e meramente só uma empresa que viu a sua breve história a ser condenada a um fim pois o futebol não se faz só de patrocínios e de um elenco de jogadores. O futebol é e será sempre para as pessoas e das pessoas

No entanto, ainda há casos com algum relativo sucesso, como é o do AVS Futebol SAD. Em 2020, dois anos depois de ter ganho a Taça de Portugal a SAD do Desportivo das Aves foi declarada insolvente e o clube foi extinto. Contudo, em 2023, depois da SAD do Vilafranquense mudar-se de Vila Franca de Xira e separar-se do clube ribatejano, um novo projeto iniciou-se. Desta feita, na Vila das Aves. Na sua primeira época o clube subiu ao primeiro escalão do futebol português e a Vila voltou a ter um clube no mais alto nível. Ao contrário do que se verificou com o Belenenses SAD, houve uma adesão dos locais. Ainda que, com alguma resistência por parte de alguns adeptos que se recusam a apoiar qualquer clube que não seja o Desportivo das Aves 1930, isto porque estamos a falar de um clube que é em quase tudo igual ao original, a começar pela semelhança do nome, pelas mesmas cores, um símbolo parecido, o mesmo estádio e instalações e, sobretudo, a mesma terra. A presença do clube trouxe trabalho, desenvolvimento económico na região e sobretudo assegurou que muitas crianças da localidade pudessem continuar a sua formação com mais de 200 atletas integrantes nos escalões juvenis. Ainda existe divisão e resistência, mas o clube vai trilhando o seu caminho e ajudando como pode o Desportivo das Aves, a Vila e as pessoas que fazem parte da mesma.

Considerando tudo o que foi anteriormente descrito: O que é que podemos fazer para melhorar o atual estado das coisas? Podíamos começar a olhar para outros modelos no estrangeiro, aprender, comparar e adequar à nossa realidade. Tome-se como referência a implementação da seguinte regra no caso alemão: Até 1999 os clubes profissionais de futebol na Alemanha eram considerados como organizações sem fins lucrativos. De acordo com a famosa regra “50+1” os clubes têm de ter na sua posse 51% das ações dando assim voz e expressão aos fãs ao mesmo tempo que salvaguardam a identidade dos clubes. E a verdade é que os adeptos alemães, se sentem bastante próximos dos clubes da sua região. Basta apenas observar as médias de espectadores por jogo para comprovar, estão sempre na casa dos 90%. Até os clubes mais pequenos, “os últimos”, têm quase sempre lotação esgotada. É certo que são realidades diferentes, países diferentes e um contexto regional diferente, mas se começarmos por aproximar mais o futebol das pessoas e da terra outra vez e dar-lhes voz, talvez possa haver também uma reforma no panorama no futebol português a pouco e pouco, com estádios mais compostos, um campeonato mais competitivo e com menos clubes históricos do nosso futebol a ser arrastados para a lama juntamente com eles que mais os estimam.

É mais que patente que o modelo e a sua intenção falharam. Não houve uma melhoria competitiva substancial, a desigualdade entre clubes acentuou-se e os adeptos regionais e locais estão a perder a sua voz, de norte a sul do país. É urgente rever os regulamentos que regem o futebol profissional em Portugal e parar com o foco apenas na parte financeira pois não há dinheiro nenhum no mundo que compre adeptos.

É necessário acabar com esta normalidade vigente em Portugal que banaliza cada vez mais a queda abrupta e a extinção de instituições históricas que fazem parte da história do futebol português e do seu início.