Vivemos um tempo de grandes transições, um tempo de policrise, risco sistémico e efeitos externos muito assimétricos. Na aldeia global tudo está em movimento, em todo o lado e ao mesmo tempo. A colisão parece iminente. Por um lado, assistimos em direto à queda das instituições internacionais da ordem liberal e multilateral do pós-guerra, por outro, à ascensão das Grandes Tecnológicas e dos Grandes Fundos, uma santa aliança entre o capitalismo tecnológico e o capitalismo financeiro que prefere e promove a ascensão de políticos plutocratas e autocratas.

Chegámos a um verdadeiro ponto de disrupção na aldeia global em que vivemos. Os regimes de liberdade, igualdade e fraternidade da democracia política liberal estão em risco, cada vez mais ingovernáveis devido à pulverização do espetro político-partidário que se deixou contaminar por programas não liberais que não cumprem a mesma lógica de ação coletiva liberal e institucional. Estamos em plena sociedade da informação e da comunicação, temos, por isso, de evitar que se opere uma inversão nos termos da equação socioeducativa e sociocultural, ou seja, que não sejam os meios tecno-digitais (as redes sociais, os aplicativos e o consumismo digital) a determinar a intencionalidade, os fins, o propósito e o sentido do comportamento humano. Face a uma desigualdade social que cresce todos os dias e aliena os mais jovens, só a educação e a cultura em sentido amplo podem constituir-se em uma espécie de caixa de ferramentas para lidar com os problemas existenciais atuais, criar um reportório de opções e um novo esquema de cooperação cognitiva de largo espetro, da teoria e da criação ao impacto social.

Sabemos, igualmente, que a modernidade segmentou, especializou, profissionalizou, em primeira instância a filosofia, depois o saber e a ciência, mas também sabemos que há limites para essa especialização, que gerou muitas zonas cinzentas e externalidades negativas sobre a sociedade, a natureza e a cultura. Hoje, na aldeia global e perante o risco sistémico iminente, é imperioso reagrupar os saberes, recompor as competências, refazer as mediações e promover um regresso aos bens comuns, o terreno de eleição da natureza, da cultura, da ciência e da política. Dito isto, eis uma brevíssima descrição do estado da arte no que diz respeito a este tempo de disrupção na cultura geral do século XXI:

  1. O ator prevalece sobre o sistema e os acontecimentos prevalecem sobre a ordem.
  2. Somos seres migrantes em viagem para o ciberespaço, para a colónia virtual.
  3. Há muitos acidentes em viagem por causa do nomadismo e o trabalho intermitente.
  4. A revolução tecno-digital gera um défice de literacia e desigualdade de acesso.
  5. A realidade e a verdade, de novo a dúvida sistemática e, agora, a pós-verdade.
  6. As redes sociais e as bolhas empobrecem a linguagem, a educação e a cultura.
  7. O excesso de normativismo digital e algorítmico empobrece a educação e a cultura.
  8. A reação populista e autoritária gera ingovernabilidade, censura e insegurança.
  9. A crise estrutural das ciências humanas e sociais empobrece a educação e a cultura.
  10. A crise estrutural da esfera pública lesa a economia da atenção, a educação e a cultura.

Nesta linha de pensamento, sabemos como a institucionalização e funcionalização da cultura, a sua setorização, mantêm a educação e os media separados da cultura. Para contrariar esta tendência é absolutamente indispensável que exista maior cumplicidade entre estas áreas para haver uma valorização dos bens comuns da cultura e maior capacidade crítica dos cidadãos. Ora, na sociedade da informação e do conhecimento, a população jovem é uma porta de entrada fundamental para o domínio efetivo da linguagem e a cultura geral e essa é a razão pela qual não podemos permitir que seja canibalizada pelas redes sociais, os mercados e os aplicativos para todos os gostos, que condicionam e limitam a nossa e a sua liberdade de acesso, usufruto e criação.

Aqui chegados, o que fazer para contrariar o declínio da educação e cultura geral na sociedade tecno-digital ou, nas palavras de Allan Bloom, a cultura inculta?

No ano de 1987 Allan Bloom escreveu no livro a Cultura Inculta: “O que vemos hoje, é gente nova que, sem uma compreensão do passado e uma visão do futuro, vive um presente empobrecido. E as universidades, a quem se confiou a sua educação, já não proporcionam os conhecimentos da grande tradição da filosofia e literatura que tornaram os estudantes conscientes da ordem da natureza e do lugar do homem dentro dela. A educação superior não consegue despertar ou alimentar o autoconhecimento que tem sido sempre a base do saber sério e humano”.

Não vou pronunciar-me sobre esta afirmação de 1987, mas é surpreendente como ela cola bem aos dias de hoje, num contexto muito diferente marcado pela sociedade da informação, da comunicação e do conhecimento e pelo modo como a revolução tecno-digital desencadeou uma certa reprogramação das mentes e do pensamento. Eu diria que estamos, mais uma vez, obrigados a escrever um ensaio sobre o declínio da cultura geral no século XXI, que anuncie uma espécie de modelo de linguagem e cultura atualizado e seja capaz de perceber e interpretar a realidade complexa em que vivemos. Seja como for, creio que existem algumas boas razões para acreditar na reconexão da educação e da cultura, uma vez que sejam cumpridas algumas regras mínimas de repolitização. Senão, vejamos:

Em primeiro lugar, para reparar esta desconexão com a educação e a cultura necessitamos de um horizonte utópico sociocultural, de uma narrativa cognitiva e sentimental acerca do futuro que nos ajude a contrastar a realidade que vivemos com aquela que imaginamos e desejamos, em síntese, precisamos de retomar a seta do tempo;

Em segundo lugar, vivemos um momento de dúvida em relação às grandes instituições culturais, pesadas e burocráticas, e que deixam nas margens muita imaginação e criatividade; se não preservam e promovem a diversidade e a coesão as instituições culturais acabam por ser disfuncionais e esta desconexão precisa de ser reparada.

Em terceiro lugar, é preciso ultrapassar a fronteira entre os profissionais e o público recetor e, ao mesmo tempo, contrariar a desinstitucionalização da cultura, pois o público é um corpo plural e diferenciado com diferentes graus de interação que ocorrem de múltiplas maneiras; ou seja, é necessário recuperar o sentido de mediação, de plataforma colaborativa, de cooperação multiterritorial e entre gerações e, dessa forma, repolitizar a função social das instituições culturais na boa direção.

Em quarto lugar, sabemos como a funcionalização da cultura, a sua setorização, mantêm a educação e os media separados da cultura; tem de existir cumplicidade entre todas estas áreas para haver uma valorização da cultura e maior capacidade crítica dos cidadãos, ou seja, é necessário que o problema do acesso à educação e cultura não se reduza à população jovem, mas se estenda, também, às suas famílias (tantas vezes tóxicas), às escolas (tantas vezes agressivas), aos serviços públicos (tantas vezes burocratizados), aos profissionais setoriais (tantas vezes de pendor corporativo), aos meios de comunicação (tantas vezes limitados e condicionados); esta é, também, a razão pela qual uma reforma programática no sistema de ensino e educação com esta amplitude precisa de ser solenemente anunciada, pois todos aqueles atores têm de estar diretamente envolvidos neste compromisso interpares e, desse modo, assumirem uma responsabilidade partilhada.

Finalmente, estamos conscientes de que a desigualdade de acesso cresce todos os dias e que, por essa via, nos abeiramos perigosamente de uma tragédia dos comuns; só a educação, a ciência e a cultura nos podem introduzir a uma nova ideologia dos bens comuns colaborativos (BCC), que impeça a eclosão dessa tragédia anunciada

Notas Finais

A terminar, confesso-me apreensivo. De um lado, o hiperindividualismo de uma cultura-mundo impulsionada pelas grandes plataformas, do outro, uma reprogramação das mentes e do pensamento impulsionada por inteligência artificial e modelos de linguagem cada vez mais sofisticados. Quero acreditar, porém, que as ciências humanas e sociais assumirão de novo a sua função primordial de regulação entre o ator e o sistema, em particular, a relação entre os fins e os meios, ou seja, o dever de precedência que os modelos de linguagem e pensamento estão obrigados a respeitar nesta relação.

Com efeito, para contrariar o declínio da cultura geral na sociedade tecno-digital precisamos todos de beber esse caldo de cultura que junta o nosso lugar no mundo, o significado das nossas experiências, os valores e compromissos que regem as nossas relações com os outros, a nossa organização social e a relação que mantém com a natureza, a reflexão constante sobre os nossos limites, os da linguagem e os do próprio conhecimento. Trata-se de regressar, de algum modo, à função eterna, antropológica, da cultura: educar e socializar os seres humanos fornecendo-lhes objetivos, um propósito e uma linha de rumo. No lado oposto, podemos sempre escolher a sala inteligente e a massificação do sistema escolar, a normalização de programas verticalizados, a infantilização e codificação dos alunos, a conversão dos professores em assistentes inteligentes de dispositivos e aplicativos de modelos de linguagem.

Quero crer, não obstante, que um modelo de linguagem, educação e cultura geral (MLECG), por exemplo, para a faixa etária entre os 6-16 anos é perfeitamente possível desde que tenha uma expressão visível no programa escolar e impacto real na dialética das comunidades locais. As instituições de ensino superior, os agrupamentos de escolas, os serviços públicos e municipais e as associações socioculturais, entre outros atores, têm aqui uma oportunidade única de repolitizar a sua função social na boa direção e conceber um plano de ação para uma agenda de educação e cultura geral que seja capaz de regular e acomodar as principais externalidades, positivas e negativas, da sociedade tecno-digital do século XXI.