Uma universidade não existe apenas para produzir conhecimento ou preparar profissionais. Existe também para formar pessoas. Se aceitamos esta ideia, então o desporto não pode ser tratado como uma atividade extracurricular ou periférica. Deve fazer parte da missão universitária: porque contribui para a saúde física e mental, promove relações e sentido de comunidade, desenvolve competências e valores e pode criar condições para que um estudante concilie formação académica e excelência desportiva.
É esta convicção que a Universidade de Coimbra procura transformar em ação há cerca de dez anos. E a experiência deste decénio permite tirar algumas conclusões sobre o que significa, na prática, assumir o desporto como parte da missão de uma universidade.
Uma universidade que leva o desporto a sério deve ser capaz de criar condições para a prática, mas também de acolher grandes eventos e de transformar esse investimento em legado. Em 2018, Coimbra organizou os Jogos Europeus Universitários. Esta competição – o maior evento multidesportivo alguma vez organizado em Portugal (antecedido, em 2017, pelos Europeus Universitários de Judo, Karaté e Taekwondo) – colocou a cidade e a universidade no centro do mapa europeu do desporto universitário.
Mas o verdadeiro valor de um grande evento mede-se pelo que permanece depois de terminar. Em Coimbra, o ciclo iniciado em 2017 contribuiu para importantes requalificações do Estádio Universitário, reforçou a capacidade organizativa e deu ao desporto uma nova centralidade na academia. Hoje, aquele espaço tem uma utilização cada vez mais intensa por equipas universitárias, programas regulares e parceiros externos.
Levar o desporto a sério significa também criar oportunidades para que ele faça parte do quotidiano de quem não é atleta. Não basta apoiar a competição: é necessário democratizar o acesso à prática desportiva e promover hábitos de vida saudável. Ao longo destes anos, a UC alargou a oferta de atividade física e criou ligas e competições internas. Os Jogos Universidade de Coimbra, que começaram com uma liga e algumas dezenas de participantes, reúnem atualmente seis ligas e 3875 participantes. No conjunto das suas atividades desportivas, a Universidade ultrapassou já os 10 mil participantes anuais.
Esta dimensão da política desportiva é tão importante como a do alto rendimento. A universidade deve ser um lugar onde um estudante encontra condições para fazer exercício, mas também onde docentes, investigadores e membros do corpo técnico possam integrar a atividade física no seu quotidiano. O posicionamento UC – membro-fundador do programa Healthy Campus da FISU, com o nível Platina, e distinguido com o Selo Estudante-Atleta, a Bandeira da Ética e o Prémio de Boas Práticas do IPDJ – reflete uma visão que relaciona desporto, saúde, ética, inclusão e qualidade de vida.
Mas assumir a formação integral dos estudantes significa também responder a quem pretende fazer do desporto uma carreira. O estudante-atleta não deve ser obrigado a escolher entre a formação académica e a excelência desportiva. A carreira dual exige condições concretas e estabilidade. Na UC, são atribuídos anualmente cerca de 300 Estatutos de Estudante-Atleta, complementados pelo Quadro de Mérito Desportivo e pelo Programa de Apoio ao Alto Rendimento. Ao longo dos anos, centenas de estudantes beneficiaram ainda de bolsas e outros apoios, num investimento superior a 100 mil euros, a que se somam parcerias com a maioria das federações desportivas nacionais.
Os resultados desta aposta encontram expressão em estudantes que conseguiram conciliar a sua formação com a competição ao mais alto nível. Os exemplos de Camila Rebelo, Catarina Costa, Diogo Cancela, Telmo Pinão e Tomás Cordeiro, que participaram nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris 2024, são paradigmáticos de como a carreira dual pode ser uma realidade quando a universidade cria condições para que as duas dimensões se reforcem mutuamente.
A capacidade de acolher grandes competições continua também a ser uma dimensão deste percurso. Em 2025, Coimbra recebeu os Campeonatos Europeus Universitários de Ténis e Padel, assinalando a estreia do Padel numa competição europeia universitária. Este mês, esse percurso prossegue com o Campeonato Mundial Universitário de Desportos de Praia, na Figueira da Foz, numa parceria entre a FADU, a AAC, a UC e o Município anfitrião.
Falta ainda um vértice neste polígono: a produção e transmissão de conhecimento. Uma universidade dispõe de competências que nenhum outro agente desportivo reúne da mesma forma: das ciências do desporto à medicina, da nutrição à psicologia, das ciências farmacêuticas à enfermagem, da engenharia às ciências e tecnologias. É essa capacidade que a UC procura mobilizar através da Unidade de Apoio ao Desporto de Alto Rendimento, aproximando investigação, ciência e preparação desportiva. Prevê-se que cada estudante-atleta integrado beneficie de um investimento anual na ordem dos 5 mil euros, através dos recursos que lhe são disponibilizados (assim como são postos à disposição das respetivas federações desportivas nacionais).
Estes dez anos de experiência não permitem afirmar que exista uma receita única para o desporto universitário. Permitem, sim, perceber que assumir o desporto como parte da missão universitária significa criar oportunidades de prática, apoiar a carreira dual, acolher eventos que deixam legado e colocar o conhecimento ao serviço do desempenho e da saúde. E que isso dá frutos, formando melhores pessoas e melhores atletas, em benefício da sociedade.