A paragem cardiorrespiratória (PCR) é a situação de emergência, mais crítica, com que vítimas e socorristas se defrontam. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, aproximadamente 20 mil pessoas por dia, em todo o mundo, sucumbem devido a morte súbita. O número de óbitos, relacionados a doenças cardíacas, tem registado um aumento significativo nos últimos anos, tornando-se a principal causa de PCR súbita.
Portugal possui um dos sistemas de emergência extra-hospitalar mais avançados, contudo, a intervenção imediata, antes da chegada dos profissionais especializados, é absolutamente decisiva para salvar vidas. Ligar para o 112, embora fundamental, não é suficiente para garantir a sobrevivência após PCR.
Durante a PCR, o coração e os pulmões deixam de funcionar, impedindo o fornecimento de oxigénio e nutrientes aos órgãos vitais. Em apenas três a quatro minutos sem reanimação, as lesões cerebrais e cardíacas tornam-se irreversíveis. Este é, frequentemente, o tempo gasto para realizar a chamada de emergência. Com quatro minutos de inatividade, a probabilidade de sucesso na reanimação cai drasticamente para cerca de 50%.
Então o que pode ser feito para mudar esta realidade? A resposta é clara e urgente: Iniciar imediatamente o Suporte Básico de Vida (SBV).
É natural que surjam dúvidas e receios — muitos hesitam, temendo piorar a situação.
Contudo, caro leitor, num quadro tão crítico, qualquer intervenção orientada, é sempre preferível à inação, pois a vítima encontra-se sem sinais vitais. A ausência de SBV imediato quase invariavelmente conduz a um desfecho fatal, mesmo após a chegada dos profissionais de emergência, pois o socorro avançado, nessa fase, pode ser já demasiado tardio.
Apesar da reconhecida qualidade do sistema de emergência português, ainda falta uma política estruturada para o ensino generalizado do SBV à população, um fator crucial para garantir a manutenção da oxigenação dos órgãos vitais até à chegada do socorro especializado. Estudos científicos, robustos, demonstram que intervenções precoces elevam substancialmente as possibilidades de sobrevivência.
O SBV associado à Desfibrilhação Automática Externa (DAE) assume um papel fundamental, mas o uso do DAE em Portugal permanece ainda muito limitado. De acordo com o registo nacional de paragem cardiorrespiratória pré-hospitalar do INEM, em 2024, foram confirmadas 19655 PCR extra-hospitalares, destas, foram iniciadas manobras de RCP, antes da chegada da equipa de emergência, em apenas 18,36% das situações. Percentagem muito aquém da média europeia em que este valor atinge os 59,5%, chegando a atingir os 78,3% noutros países.
A atuação imediata de quem presencia uma PCR é vital, o que exige a implementação urgente e contínua de programas de formação em SBV e SBV-DAE ao longo da vida académica e profissional.
Os benefícios destes programas são múltiplos e significativos. Em primeiro lugar, aumentam exponencialmente as probabilidades de sobrevivência, pois a rápida aplicação de SBV e desfibrilhação pode duplicar ou triplicar as taxas de sucesso em casos de paragem cardíaca súbita. Em segundo lugar, promovem o empoderamento da população, conferindo confiança e preparação para agir eficazmente em situações de emergência. Por fim, fomentam a criação de uma verdadeira rede de primeiros socorristas: quanto maior o número de pessoas capacitadas, maior a probabilidade de assistência imediata, seja em locais públicos, seja em ambiente doméstico, onde se regista a maioria das emergências cardíacas.
Em suma, aprender SBV não é apenas uma habilidade técnica, é um compromisso social que salva-vidas e transforma cidadãos comuns em verdadeiros heróis em momentos críticos.
Como garantir que a formação em SBV chega ao maior número possível de pessoas?
Garantir a ampla disseminação da formação em SBV exige uma estratégia contínua, estruturada e sustentável. Essa formação não deve ocorrer apenas uma vez ao longo da vida, mas ser periodicamente reforçada, com recertificações a cada dois ou três anos. Diversas medidas eficazes podem ser implementadas ao longo do tempo para promover uma verdadeira cultura de preparação e resposta em toda a sociedade.
As escolas configuram-se como o ambiente ideal para iniciar e fortalecer a educação em SBV. Capacitar crianças e jovens desde cedo gera um impacto duradouro, fomentando uma cultura sólida de segurança, solidariedade e responsabilidade social. Permitindo também que os jovens difundam a informação aos pais, irmãos e restantes familiares, tornando-os agentes de sensibilização da necessidade de iniciar SBV precocemente.
Por isso, é fundamental que os programas de SBV sejam incorporados de forma estruturada nos currículos escolares, transformando essa competência num conhecimento amplamente difundido e naturalizado em toda a comunidade.
Para alcançar este objetivo, é imprescindível adotar uma abordagem séria e multifacetada, condizente com a importância do tema. A formação em SBV não pode ser desvalorizada nem depender de vontades individuais, favores eventuais, disponibilidade limitada ou exclusivamente do voluntariado.
Destaca-se, portanto, a importância de ensinar desde cedo aos jovens o valor da segurança e da saúde, pois isso contribui decisivamente para a consolidação de comportamentos adequados em situações de emergência, comportamentos que perdurarão ao longo da vida profissional e social. Essa formação deve seguir metodologias criteriosas e normativas, já estabelecidas em Portugal pelo INEM, garantindo assim qualidade e consistência no processo educativo.
Inclusão no currículo escolar: A inclusão do SBV no currículo escolar, desde o ensino básico, é um passo essencial para o desenvolvimento do senso de responsabilidade e da consciência social entre os jovens, promovendo uma cultura de solidariedade e preparação para situações de emergência.
Apesar de já existirem iniciativas pontuais em algumas escolas, muitas outras ainda não abordam o tema, deixando essa decisão ao critério de perceções individuais e à sensibilidade de cada instituição. Em certos casos, são oferecidas formações extremamente breves, com duração de apenas uma hora, o que é claramente insuficiente. Para se atingir um mínimo de eficácia, um curso de SBV exige, no mínimo, quatro horas; e, no caso do SBV com Desfibrilhação Automática Externa (SBV-DAE), a carga horária recomendada sobe para sete horas, além da necessidade de simuladores e rácios apropriados entre formador e formando.
Contudo, os obstáculos são recorrentes e bem conhecidos: falta de tempo letivo, escassez de equipamentos e carência de formadores devidamente qualificados.
Diante desse cenário, defendemos com firmeza a inclusão obrigatória dos cursos de SBV e SBV-DAE no currículo escolar, acompanhada de avaliação formal, de modo a garantir a seriedade da implementação e evitar que a formação seja encarada como algo opcional ou meramente simbólico.
É imprescindível, no entanto, que a planificação pedagógica seja criteriosa e respeite as etapas do desenvolvimento infantil. Há casos em que se tenta ensinar compressões torácicas a crianças muito pequenas, que ainda não possuem a força física nem a maturidade necessária para compreender ou executar o procedimento, o que, além de ineficaz, pode ser contraproducente.
Conforme as recomendações do Conselho Europeu de Ressuscitação, a formação em primeiros socorros pode e deve começar a partir dos quatro anos de idade, com conteúdos simples e apropriados, como ligar para o número de emergência (112), assegurar as condições de segurança ou pedir ajuda a um adulto, sempre respeitando o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança.
Esses conteúdos devem ser retomados, aprofundados e sistematizados ao longo da trajetória escolar. No 4º ano do primeiro ciclo (9 anos de idade), deve ser implementado o primeiro curso de SBV adequado à idade, replicado de forma mais completa ao 6/7ºano do segundo ciclo (cerca dos 12 anos) idade em que já existe capacidade física e cognitiva adequada, os alunos poderão frequentar, de forma completa, o curso de SBV-DAE, que deve ser recertificado a cada três anos até ao fim do percurso escolar (9º ano do 3º ciclo do ensino básico e no 11/12º ano do secundário) e posteriormente no ensino universitário.
Para garantir sustentabilidade e continuidade, os professores de disciplinas como Biologia, Educação Física e outras áreas que estudam o corpo humano devem ser capacitados como formadores através de uma metodologia padronizada pelo INEM. Além disso, os simuladores utilizados nas aulas devem permanecer nas escolas, assegurando a formação regular de centenas, ou mesmo milhares, de alunos ao longo dos anos.
Em alternativa, esta formação também pode ser ministrada por profissionais já habilitados na área da emergência médica, desde que se assegure o rigor técnico, a padronização dos conteúdos e o respeito pelas exigências pedagógicas e legais.
Oferta de cursos gratuitos na comunidade
A promoção de cursos gratuitos de SBV em comunidades, empresas e espaços públicos representa uma estratégia eficaz para ampliar significativamente o número de cidadãos treinados e/ou recertificados. Esta responsabilidade não deve recair apenas sobre o sistema educativo, mas também ser assumida, com compromisso cívico, por empresas, juntas de freguesia, autarquias e outras entidades locais, mas também noutras associações e sociedades civis como a SPEDC que desde já se disponibiliza a colaborar. Ao contribuírem ativamente para a disseminação desta formação, essas instituições reforçam o seu papel social e promovem comunidades mais preparadas, resilientes e solidárias. Com o tempo, é expectável que a própria sociedade passe a reconhecer, de forma natural, a importância da atualização periódica dessas competências, valorizando a capacidade de agir com eficácia em situações de emergência.
Parcerias com empresas e instituições; atualizações ao logo da vida profissional e social
Estabelecer parcerias com empresas, instituições públicas e privadas é essencial para expandir a oferta e a divulgação de cursos de SBV e SBV-DAE, assegurando que esta formação chegue a um número cada vez maior de pessoas. As empresas, enquanto agentes com responsabilidade social e civil, devem incorporar esta capacitação nos seus planos de segurança ocupacional, com o apoio de incentivos fiscais por parte do Estado que reconheçam e valorizem a formação dos seus colaboradores nesta área crítica.
Mais do que uma boa prática, a formação certificada e atualizada em SBV deve ser exigida como requisito para a admissão e permanência em determinadas funções profissionais. A recertificação periódica deve ser obrigatória para profissionais da área da saúde, em todos os níveis de intervenção, do suporte básico ao avançado, trabalhadores em ambientes com prática regular de atividade física, membros das forças de segurança, bombeiros e agentes de proteção civil. Esta exigência deve ainda ser alargada a todos os cidadãos que pretendam obter ou renovar a carta de condução, como medida de segurança coletiva.
É imperativo que toda esta formação obedeça a metodologias padronizadas, sob a coordenação e supervisão técnica do INEM, garantindo assim a qualidade, a uniformidade e a eficácia dos conteúdos ministrados. A articulação entre o setor público, o setor privado e a sociedade civil é, pois, decisiva para consolidar uma cultura nacional de preparação para emergências, com impacto direto na proteção de vidas.
Campanhas de consciencialização
A realização de campanhas de consciencialização acerca da importância do SBV é absolutamente vital para mobilizar a população e fomentar o interesse pela formação adequada nesta área. Para alcançar esse objetivo, estas campanhas devem recorrer a múltiplos meios de comunicação social, adotando sempre uma abordagem rigorosa, responsável e pedagógica, que assegure a correta compreensão das mensagens transmitidas.
Um ponto crucial é combater e corrigir representações incorretas frequentemente veiculadas em filmes, séries e novelas, onde se observam pedidos inadequados ao número de emergência 112 — tais como “enviem-me uma ambulância rapidamente” — que não especificam a natureza da emergência nem a sua localização, comprometendo a eficácia da resposta.
O ideal é que estas campanhas exemplifiquem a forma correta de comunicação com os serviços de emergência, evidenciando a importância das perguntas feitas pelos operadores e a necessidade de respostas claras, objetivas e precisas. Assim, promove-se não só o conhecimento técnico, mas também a confiança e a colaboração eficaz entre a população e os serviços de socorro, reforçando a capacidade de salvar vidas.
Disponibilização de desfibriladores automáticos externos
A ampliação da disponibilização de desfibriladores automáticos externos (DAE) em espaços públicos é uma medida imprescindível para aumentar as possibilidades de sobrevivência em casos de PCR. Estes equipamentos devem estar presentes em locais de grande afluência, como centros comerciais, estações de metro e aeroportos, assim como em áreas onde se pratica exercício físico, unidades de saúde, veículos de emergência, transporte de doentes, veículos das forças de segurança e quaisquer outros locais com circulação significativa de pessoas.
É igualmente fundamental descomplicar o acesso e a utilização destes dispositivos, seguindo o exemplo de países que já implementaram processos eficazes e simplificados, garantindo que cidadãos treinados possam acioná-los rapidamente em situações de emergência. O uso correto e imediato do DAE faz uma diferença determinante na reversão da PCR em adultos, transformando-o numa ferramenta vital para salvar vidas.
A formação em SBV é, acima de tudo, um investimento precioso em vidas humanas. Capacitar a população para agir com confiança e eficácia em situações de emergência é construir, dia após dia, uma sociedade mais solidária, responsável e resiliente diante dos desafios que a vida pode apresentar.
Para que esta visão se concretize, é imprescindível que Governos, Câmaras Municipais, INEM, Proteção Civil, empresas, instituições de ensino e a sociedade civil atuem de forma coordenada e comprometida, garantindo que o SBV e o SBV-DAE sejam competências verdadeiramente acessíveis a todos.
No entanto, a transformação começa em cada um de nós. É nossa responsabilidade reconhecer a urgência e a importância de aprender a salvar vidas — conquistar o direito a ser reanimado é, simultaneamente, o dever de saber reanimar.
Que essa consciência se espalhe, fortalecendo uma cultura de vida e esperança, onde todos estejam prontos para agir e fazer a diferença quando mais for necessário.