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Estima-se que uma em cada três pessoas possa desenvolver zona ao longo da vida. Mas, apesar destes números, das dores incapacitantes que provoca e da existência de uma vacina, esta prevenção não está ao alcance da maioria da população, devido aos custos elevados para os utentes. Por isso o diagnóstico precoce é fundamental, permitindo assim iniciar o tratamento atempadamente, reduzindo a duração e a gravidade dos episódios mais agudos.
O que é a zona?
A zona, também chamada herpes zoster, é uma doença causada pela reativação do vírus varicela-zoster, o mesmo responsável pela varicela.
Quando uma pessoa tem varicela, habitualmente durante a infância, o vírus não desaparece completamente do organismo. “Permanece num estado adormecido, em estruturas do sistema nervoso”, explica a médica internista Sofia Duque. Anos ou mesmo décadas mais tarde, pode reativar-se, provocando a zona.
E a que se deve essa reativação?
A reativação ocorre sobretudo quando diminui a capacidade do sistema imunitário para manter o vírus controlado. “O risco aumenta com a idade, particularmente a partir dos 50 anos, mas também em pessoas com doenças crónicas ou com o sistema imunitário comprometido, seja por doença ou por determinados tratamentos médicos”, diz a especialista com competência em Geriatria. O vírus afeta estruturas nervosas, o que explica a dor característica e o risco de complicações persistentes.
Quem não teve varicela em criança tem menos probabilidade de desenvolver zona?
Existe uma relação direta entre as duas doenças, porque ambas são provocadas pelo mesmo vírus. “Para desenvolver zona por reativação do vírus adquirido naturalmente, é necessário ter tido anteriormente uma infeção pelo vírus varicela-zoster.” Assim, uma pessoa que nunca tenha sido infetada não tem esse vírus adormecido no organismo e, consequentemente, não pode desenvolver zona por reativação desse vírus. “Muitas pessoas não se recordam de ter tido varicela ou podem ter apresentado formas muito ligeiras da doença, que passaram despercebidas ou que foram diagnosticadas como outra doença que não varicela.”
Em Portugal, praticamente todas as pessoas com 65 ou mais anos já tiveram contacto com o vírus que provoca a varicela.
Quais os principais sintomas?
O sintoma mais característico da zona é o aparecimento de manchas avermelhadas e pequenas bolhas na pele, geralmente acompanhadas de dor. “Surgem habitualmente apenas num dos lados do corpo, ao longo do trajeto de um nervo. Frequentemente, a dor surge antes das alterações na pele. A pessoa pode começar por sentir ardor, queimadura, picadas, formigueiro ou uma sensibilidade anormal numa determinada região.”
Alguns dias depois, aparecem as alterações na pele numa faixa ou área bem delimitada. “As localizações mais frequentes são o tórax, o abdómen e a face, embora possa surgir noutras regiões do corpo.” Podem também ocorrer sintomas gerais, como mal-estar, cansaço, febre ou dor de cabeça.
A intensidade dos sintomas é igual em todas as pessoas?
Não. É muito variável. “Algumas pessoas apresentam manifestações relativamente ligeiras, enquanto outras desenvolvem dor intensa, que interfere significativamente com o sono, o descanso, a mobilidade e as atividades quotidianas.” Sofia Duque acrescenta que “em determinados casos, até o contacto da roupa com a pele pode provocar uma dor difícil de tolerar”.
Quando a zona envolve a face, sobretudo a região do olho, é particularmente importante uma avaliação médica urgente, incluindo por um oftalmologista, quando indicado, porque “a doença pode afetar os olhos e, nos casos mais graves, provocar perda de visão ou mesmo cegueira”.
Como se diagnostica?
O diagnóstico é clínico, ou seja, estabelecido pelo médico através da observação das lesões da pele e da avaliação dos sintomas. “A combinação de dor numa região bem definida do corpo com uma erupção de pequenas bolhas, habitualmente unilateral, é bastante característica da doença.”
O diagnóstico pode ser mais difícil numa fase inicial, quando existe dor, mas ainda não surgiram lesões na pele. “Também existem apresentações menos típicas, nomeadamente em pessoas com o sistema imunitário enfraquecido, seja por doença ou tratamentos.” Quando há dúvidas, pode recorrer-se a exames laboratoriais, particularmente à pesquisa do material genético do vírus a partir de amostras das lesões da pele.
É contagioso?
“Uma pessoa com zona pode transmitir o vírus varicela-zoster a alguém que nunca tenha tido contacto com esse vírus e que não esteja vacinado contra a varicela. Nesse caso, a pessoa contagiada poderá desenvolver varicela, e não diretamente a zona”, esclarece a médica internista. Portanto, uma pessoa com zona não contagia diretamente outra pessoa com zona.
Como se transmite?
O vírus transmite-se sobretudo através do contacto direto com o líquido das bolhas que aparecem na pele. “Embora menos frequentemente, também pode transmitir-se pelo ar, através de partículas muito pequenas que contêm o vírus e que são libertadas a partir dessas lesões.” O risco de contágio mantém-se enquanto existirem lesões ativas e desaparece quando todas as bolhas secam e ficam cobertas por crostas.
Durante esse período, recomenda-se:
- Manter as lesões cobertas;
- Assegurar uma higiene adequada das mãos;
- Evitar o contacto próximo com pessoas particularmente vulneráveis que não tenham proteção contra a varicela, como grávidas, recém-nascidos e pessoas com o sistema imunitário enfraquecido.
Como se trata?
O tratamento tem dois objetivos principais: limitar a multiplicação do vírus e controlar os sintomas, sobretudo a dor. “Para reduzir a atividade do vírus utilizam-se medicamentos antivirais que têm de ser prescritos pelo médico.” A eficácia é maior quando são iniciados pouco tempo após aparecerem as primeiras lesões da pele, idealmente nas primeiras 72 horas. “Contudo, em determinadas situações, nomeadamente quando continuam a aparecer novas lesões ou existe maior risco de complicações, o tratamento pode continuar indicado após esse período.”
É igualmente fundamental tratar a dor, recorrendo a medicamentos adaptados à sua intensidade e características, sem esquecer a vulnerabilidade e outras doenças que a pessoa apresente:
- Em alguns casos, os analgésicos habituais são suficientes; noutros, podem ser necessários medicamentos específicos para a dor de origem nervosa, designada por dor neuropática;
- A eficácia destes medicamentos é muito limitada e a dor na fase aguda pode ser muito intensa e, mais preocupante ainda, tornar-se crónica por tempo incerto;
- Na maioria das pessoas, as lesões cutâneas cicatrizam num período de duas a quatro semanas. No entanto, a cicatrização da pele não significa necessariamente o desaparecimento completo da doença;
- Em alguns doentes, a dor pode persistir muito para além da resolução das lesões e esta é uma das principais complicações da zona.
Quanto tempo podem durar os sintomas?
“A complicação mais frequente é a nevralgia pós-herpética (uma dor neuropática que afeta aproximadamente 10% a 18% das pessoas com zona), mas varia com a idade, a vulnerabilidade das pessoas, as doenças que têm e os medicmamentos que tomam.”
Nos adultos mais velhos, nas pessoas com doenças crónicas e com o sistema imunitário enfraquecido, o risco é superior, caracterizado pela persistência de dor na região afetada pela zona, que se mantém, pelo menos, 90 dias após o aparecimento da erupção cutânea. Trata-se de uma dor resultante da lesão ou alteração do funcionamento dos nervos e pode manifestar-se como ardor, queimadura, pontadas, choques elétricos ou uma sensibilidade exagerada ao toque.
Por vezes, estímulos tão simples, como o contacto dos lençóis, da roupa ou uma mudança de temperatura tornam-se dolorosos. Esta situação pode prolongar-se durante meses e, em alguns doentes, durante anos. Sofia Duque sublinha que “a dor persistente pode afetar o sono, o apetite, a mobilidade, o humor e a capacidade para realizar atividades habituais”. Pode também agravar situações de fragilidade, contribuir para a perda de autonomia e aumentar a necessidade de apoio de familiares ou cuidadores.
Que acompanhamento deve ter uma pessoa com nevralgia pós-herpética?
É preciso um acompanhamento médico individualizado e, frequentemente, prolongado. O primeiro passo consiste em avaliar as características e a intensidade da dor, bem como o seu impacto no sono, no bem-estar psicológico, na mobilidade e na capacidade para realizar as atividades do dia a dia.
“O tratamento é diferente do utilizado para uma dor inflamatória ou muscular habitual. Podem ser necessários medicamentos especificamente utilizados nesta situação, que atuam sobre os nervos.” Infelizmente, acrescenta Sofia Duque, a eficácia é limitada e as pessoas ficam frequentemente insatisfeitas com o controlo limitado da dor. Nalguns casos, podem também ser utilizados tratamentos locais, como autocolantes impregnados de medicamentos.
A escolha do tratamento adequado deve ter em conta a idade, as doenças, o grau de funcionamento renal, os outros medicamentos que as pessoas tomam e o risco de efeitos secundários, em especial nas pessoas mais velhas. “O acompanhamento deve ser regular, permitindo avaliar a resposta ao tratamento, ajustar as doses e identificar efeitos secundários.”
O que fazer em casos de dor persistente?
Nos casos de dor persistente, intensa ou difícil de controlar, pode justificar-se referenciação para uma consulta especializada de dor ou uma abordagem multidisciplinar. “Em determinadas pessoas, pode ser necessária fisioterapia e reabilitação, apoio psicológico ou outras medidas que contribuam para a recuperação da qualidade de vida.” O objetivo não é apenas diminuir a intensidade da dor, mas “permitir que a pessoa recupere o sono, a capacidade de realizar as suas atividades básicas e de se manter ativo seja no trabalho, seja em atividades lúdicas ou de lazer, sempre que possível, a autonomia”.
É possível ter zona mais do que uma vez?
Sim. Embora muitas pessoas tenham apenas um episódio ao longo da vida, é possível desenvolver zona mais do que uma vez e o risco de recorrência é particularmente significativo em pessoas com o sistema imunitário enfraquecido, ainda que possa ocorrer também noutras pessoas. “Ter tido a doença não garante a proteção definitiva contra novos episódios, uma vez que o vírus permanece no organismo”, explica Sofia Duque.
É possível prevenir?
Sim. “Atualmente, a vacinação constitui a principal estratégia de prevenção da zona e das suas complicações, particularmente da dor crónica.” A vacina contra a zona é realizada em duas doses, com um intervalo entre dois a seis meses, podendo este ser ajustado a determinadas situações clínicas.
“Os estudos mostram que, em pessoas com 50 ou mais anos e com o sistema imunitário a funcionar normalmente, a vacina reduz o risco de desenvolver zona em mais de 90%, mesmo nas idades mais avançadas”. Além disso, reduz significativamente o risco de desenvolver dor persistente, a tal nevralgia pós-herpética, que pode durar meses ou até anos depois do desaparecimento das lesões na pele.
A quem se recomenda a vacina?
Em Portugal, a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna e a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar publicaram, em 2023, recomendações específicas para a vacinação contra a zona, que recomendam a vacinação de todos os adultos com 50 ou mais anos, e dos adultos entre os 18 e os 49 anos que apresentem risco elevado de desenvolver a doença. Seja devido ao enfraquecimento do sistema imunitário ou pela presença de algumas doenças crónicas, como diabetes, doença pulmonar obstrutiva crónica, asma, doença cardiovascular, doença renal crónica e determinadas doenças inflamatórias e autoimunes, além das situações de imunossupressão.
“A vacinação também está recomendada para pessoas que já tiveram zona, respeitando o intervalo adequado após a resolução da doença, habitualmente de pelo menos 12 meses, podendo ser encurtado em situações específicas de maior risco.” Apesar de ser uma vacina segura e eficaz, ainda existem dificuldades em Portugal no acesso à vacinação contra a zona, sobretudo devido ao valor, uma vez que, não sendo comparticipada pelo SNS, custa quase quatrocentos euros.
Dor é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor e respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade. Resulta de uma parceria com a Ferraz Lynce (através da sua unidade, FAI Therapeutics) e tem a colaboração da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor e da SIP-Portugal. É um conteúdo editorial completamente independente.
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