Nos últimos dias, elucidaram-nos de que o fim da humanidade pode estar próximo, na forma de software malicioso e que é, acrescentam alguns, muito mais inteligente do que nós, individual ou colectivamente considerados. Tudo isto me atinge como uma nova religião e conta, como seria de esperar, com uma escatologia própria. Deixemos estas aspirações milenaristas aos crentes, pelo espaço de uma crónica. A humanidade está, verdadeiramente, sob ameaça, sem que isto signifique, necessariamente, o extermínio físico dos indivíduos humanos. É possível que a humanidade morra nos humanos, um humano de cada vez, ainda que os invólucros de carne continuem muito organicamente a cirandar mundo afora.
O ataque à humanidade provém da mesma humanidade: é o homem que continua a ser o proverbial lobo do homem. Não é a inteligência artificial, como uma espécie de criatura alienígena nascida dentro dos nossos servidores, que deseja ou trabalha para a subjugar, mas é a humanidade que a constrói e que a usa que manifesta uma inclinação profundamente anti-humana. O campo da inteligência artificial pode ser visto hoje como um campo profundamente anti-humano. Há alguns anos, o discurso em torno desta tecnologia girava em torno dos benefícios redentores para a humanidade, como a possibilidade de acelerar enormemente a descoberta de cura das mais terríveis doenças que afligem a nossa espécie. Mas, desde a ascensão veloz dos largos modelos de linguagem, o discurso adquiriu uma tonalidade manifestamente anti-humana: a ideia é, agora, a de substituir a actividade dos humanos através das várias áreas. O projecto é o de criar um mundo de humanos privados de agência, em que o capital substitui por completo o trabalho e em que podemos esperar, no máximo, ser receptores passivos das conquistas da máquina.
Não surpreendente, mas igualmente desolador, é a velocidade com que tantas pessoas, inclusivamente aquelas de que nos habituámos a esperar um pouco mais de empenho, honestidade e orgulho, adoptaram a inteligência artificial para se dispensarem, voluntariamente, de processos até há pouco exclusiva e intimamente humanos. O tempo estava maduro, muito antes do Chat GPT, para esta tecnologia, porque desde há muito que passámos a idolatrar a eficiência e os resultados, sem qualquer discriminação entre a natureza dos processos que a eles conduzem. Desde há muito aprendemos a apreciar as virtudes da quantidade sobre as da qualidade. Desde há muito nos inclinamos a estimar mais os proveitos de o nosso nome aparecer sempre e a qualquer custo do que o nosso autodesenvolvimento na luta para criar qualquer coisa. Aparentemente, a adopção generalizada desses artefactos que possibilitam a nossa preguiça e empestam com um verniz vanguardista às nossas miseráveis fraudes está já a infligir um prejuízo severo às capacidades humanas, especialmente àquelas dos mais jovens entre nós, que tiveram a infelicidade de chegar à escola ao mesmo tempo que o Chat GPT. É um desolador espectáculo, o do humano a decair enquanto a máquina progride.
É assim que a humanidade morre: não pela derrota ante forças fantasiosamente superiores, semidivinas ou divinas. Morre por rendição, um humano de cada vez.