Há qualquer coisa de profundamente paradoxal — quase tragicómica — no Natal que hoje celebramos. Uma quadra que se anuncia como festa do nascimento do Menino Jesus, mas que parece cada vez mais empenhada em disfarçar, quando não ocultar, a sua própria razão de ser. Celebramos, sim, mas de fininho; sorrimos, mas sem símbolos; partilhamos, mas sem referências. É o Natal possível numa sociedade que teme mais o desconforto alheio do que a perda da sua própria identidade.
A hipocrisia instala-se logo à entrada. Dizemos que o Natal já não é religioso, que é apenas um momento de união, família e paz. Contudo, curiosamente, continuamos a marcar o calendário, a trocar presentes, a reunir-nos à mesa e a desejar “Feliz Natal” — até aqueles que durante o resto do ano não nos dirigem palavra. O milagre acontece: o chefe torna-se cordial, o vizinho sorri, o desconhecido deseja boas festas. Se isto não é herança cristã, é pelo menos o seu eco mais teimoso. Negá-lo é um exercício de amnésia cultural convenientemente seletiva.
Mas a hipocrisia não se esgota aí. O mesmo Natal que se quer despido de símbolos religiosos continua a ser excessivamente ornamentado no consumo, no marketing e na pressão social do “ter de”. Árvores estilizadas, luzes sem alma, músicas recicladas até à exaustão — tudo é permitido, desde que o presépio não incomode. Como se o problema não fosse o excesso, mas a origem. Como se a figura do Menino, deitado na palha, fosse mais ofensiva do que a gula, o desperdício ou a ostentação.
Chegamos então à chamada inclusão religiosa, esse conceito tão bem-intencionado quanto mal digerido. Para não ferir susceptibilidades de quem professa outras crenças — muitas delas chegadas recentemente ao nosso território — opta-se por eliminar referências ao Natal cristão, sobretudo nos espaços públicos e, de forma particularmente zelosa, nas escolas. Não se celebra, não se canta, não se decora. A solução encontrada para incluir é omitir. E, nesse silêncio, quem se vê forçado a adaptar-se não são os recém-chegados, mas os portugueses de sempre.
Há aqui uma inversão curiosa do princípio da convivência. Em vez de se ensinar a diversidade através do reconhecimento mútuo, opta-se por apagar aquilo que somos. Não se acrescenta; subtrai-se. Não se explica; cala-se. E assim, em nome da tolerância, cria-se um vazio cultural que ninguém verdadeiramente habita. A inclusão torna-se exclusão disfarçada, e a neutralidade transforma-se numa forma elegante de negação identitária.
Talvez fosse mais honesto assumir que o Natal é, sim, uma festa de raiz cristã — e que isso não impede ninguém de nela participar, observar ou simplesmente respeitar. Tal como quem vem de fora não abdica das suas tradições, também quem cá está não deveria ser convidado a escondê-las. A verdadeira inclusão não exige apagamentos, mas convivência. Não pede silêncio, mas diálogo.
No fundo, o Natal continua a acontecer, apesar de tudo. Acontece nos gestos simples, nos sorrisos inesperados, na generosidade espontânea. Mas acontece cada vez mais órfão da sua narrativa, reduzido a um ritual esvaziado. E talvez o maior incómodo não seja ofender quem é diferente, mas confrontar-nos com o facto de já não sabermos muito bem quem somos.