O projeto “4 Patas no Combate à Solidão”, apresentado esta quinta-feira, quer reduzir o abandono animal e o isolamento de idosos nos Açores, com a ajuda de jovens voluntários que vão visitar os idosos com cães abandonados.
“É uma ação com múltiplas vantagens: sociais e também no âmbito do bem-estar emocional das pessoas, no combate à solidão e no combate ao abandono de animais”, afirmou, em declarações aos jornalistas, o secretário regional da Agricultura e Alimentação dos Açores, António Ventura.
O executivo açoriano (PSD/CDS/PPM) assinou, em abril, um protocolo com a associação Pata d’Açúcar, para a implementação deste projeto, orçado em 21 mil euros.
A apresentação pública da iniciativa ocorreu esta quinta-feira, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, onde vai arrancar como projeto-piloto, com a duração de um ano.
Numa primeira fase, a associação pretende selecionar seis beneficiários e entre 12 e 18 voluntários, que terão 25 horas de formação para aprender a lidar com o animal e a ensinar também os idosos como fazê-lo.
Os treinadores da associação vão fazer uma seleção de animais com as características necessárias para este tipo de projeto, no canil intermunicipal da ilha Terceira, e treiná-los para que o contacto com voluntários e idosos decorra em segurança.
A associação estima poder iniciar as visitas aos idosos em janeiro.
“Está provado – e isto já existe em muitos sítios – que o facto de um animal ir visitar o idoso faz com que o idoso deixe de estar em solidão e se apegue àquele animal”, salientou a vice-presidente da Pata d’Açúcar, Antónia Saraiva.
Os jovens selecionados para este projeto comprometem-se a ir buscar os cães ao canil e levá-los a visitar os idosos, mas o objetivo passa também por dar um novo lar aos animais abandonados.
“No futuro, se o idoso tiver condições, até poderá adotar o animal”, explicou Antónia Saraiva.
A vice-presidente da associação garantiu que os cães serão selecionados por treinadores com vários testes e que o processo será “sempre vigiado”.
A Pata d’Açúcar tem já no terreno outro projeto com animais do canil da ilha Terceira, que são treinados para detetar hipoglicemias em pessoas com diabetes.
“Temos uma vasta experiência de 10 anos com a escolha dos animais e até hoje não houve problema nenhum”, salientou Antónia Saraiva.
Segundo dados da Provedora Regional do Animal, em 2025, os Açores apresentavam um rácio de abandono de 9,7 animais por cada 1.000 habitantes, mais do dobro da média nacional (4 por 1.000 habitantes).
Para o secretário regional da Agricultura, este número é “incompreensível” e exige uma mudança de mentalidades.
“Por mais que existam políticas públicas de combate ao abandono, por mais que existam protocolos como este, há aqui uma responsabilidade individual que a administração regional e a administração autárquica não podem substituir”, frisou.
Ainda que sem dados de anos anteriores, o governante disse acreditar que o número de casos de abandono “tem vindo a diminuir”.
António Ventura admitiu, no entanto, que é preciso “reeducar” a população “para que efetivamente exista essa sensibilidade”.
“Ou está efetivamente na formação de cada um essa sensibilidade, ou então é muito difícil, obviamente, combater”, reforçou.
O projeto-piloto, que envolverá também IPSS e autarquias locais, fará no final uma avaliação dos níveis de solidão e bem-estar dos beneficiários, do número de adoções e das competências adquiridas.
Mediante os resultados, o executivo açoriano pretende alargar o projeto a outras ilhas.
“Estou em crer que vamos ter bons resultados e, obviamente, o projeto vai contribuir quer para o combate ao abandono animal, quer para o combate à solidão, quer para o bem-estar social e emocional das pessoas”, vincou o secretário regional.