Há um ano, falava‑se de cerca de 11 milhões de euros doados a projetos culturais em Portugal no âmbito do golden visa. Em 2025, esse número disparou para perto de 46 milhões. Quase quatro vezes mais. O “passaporte dourado” de residência, que nasceu como um atalho para investidores estrangeiros, está a tornar‑se, paradoxalmente, um dos maiores financiadores da cultura portuguesa.

A via cultural do golden visa exige que o investidor não comunitário doe, de forma irreversível, pelo menos 250 mil euros (ou 200 mil nos territórios de baixa densidade) a projetos culturais pré‑aprovados pelo Estado. Museus, restauros de património, produções artísticas, fundações, circuitos de teatro e até ofícios tradicionais transformaram‑se, assim, em portas de entrada para a residência em Portugal. Não há retorno financeiro, mas há um benefício residencial e, ao fim de alguns anos, uma via para a cidadania.

Entre 2023 e 2024, as doações culturais via golden visa já tinham começado a ganhar volume: subiram de cerca de 4,5 milhões para quase 12 milhões de euros. Em 2025, o salto foi quase vertiginoso: quase 47 milhões em doações. O que antes parecia uma alternativa secundária ao investimento imobiliário ou ao financiamento de fundos transformou‑se num motor real de financiamento da cultura, algo que, até há poucos anos, nem o Estado nem o mecenato privado nacional conseguiam proporcionar com esta escala.

O dinheiro não fica pendurado em balanços públicos: traduz‑se em obras, restauros, exposições, circuitos artísticos e projetos de preservação do património que, doutro modo, ficariam adiados por falta de verba. Um palácio restaurado, um museu ampliado, um arquivo digitalizado, um teatro modernizado – cada um destes projetos é emprego para técnicos, artesãos, gestores culturais e equipas de apoio. A cultura deixa, assim, de ser apenas um “setor” de serviços e passa a ser um vetor de investimento, capaz de gerar efeitos multiplicadores na economia regional e na imagem de Portugal no exterior.

Claro que há críticas legítimas. Há quem diga que este dinheiro deveria ser mais distribuído, que se perde uma oportunidade de financiar causas sociais ou de reforçar a proteção social. Há também quem teme que o foco fique nos grandes museus e monumentos, enquanto as iniciativas locais e pequenos coletivos ficam à margem. São preocupações sérias, mas não invalidam o facto de que, em termos concretos, o golden visa cultural está a injetar dezenas de milhões de euros num campo que, historicamente, sobreviveu a pequenas migalhas orçamentais.

O que está realmente a mudar é a narrativa. O “passaporte dourado” deixou de ser apenas sinónimo de imobiliário e de especulação. Agora, também é associado a restauros no património nacional, a circuitos de arte contemporânea, a coleções que ganham novas salas e a ofícios que voltam a ter espaço para existir.

Num país que vive de imagens – de tradições, de paisagens, de histórias – este fluxo de capital pode ser decisivo para garantir que elas não se limite a serem apenas cenário de turismo, mas base de uma cultura viva e financiada. O golden visa cultural, imperfeito e polémico como muitos instrumentos de política pública, é um lembrete incómodo, mas também útil: às vezes, até o “ouro” que chega por conveniência estrangeira pode servir para preservar aquilo que é mais nosso.