A Humanidade adora uma boa ilusão, nos faça sentir seguros dentro das histórias – ou estórias? – que contamos a nós próprios. Durante séculos, a ilusão mais convincente foi acreditar que a economia existia à parte da natureza. Era uma ficção elegante: florestas como “recursos”, rios como “infraestruturas”, um mundo arrumado o suficiente para caber em folhas de cálculo. Na Europa, a ilusão está finalmente a desaparecer, mas, em Portugal, tardamos em acordar deste sonolento investimento na Natureza.
Há números que dizem muito pelo que custam e outros, pelo que revelam.
Portugal anunciou que vai contribuir com 1 milhão de euros para o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado pelo Brasil no contexto da COP30. França, Reino Unido e Alemanha anunciaram contribuições “de dezenas a centenas de milhões de euros” e Portugal situa-se, portanto, entre os últimos da tabela em volume e ambição. É um valor muito fruto da nossa dimensão e desafios – pequeno, diverso, atlântico – mas também um espelho do nosso atraso e da nossa visão da natureza como tema ambiental, e não como uma questão económica. E a expressão está logo errada aqui: Portugal não vai contribuir – vai investir.
Há poucas semanas, em Helsínquia, na European Business & Nature Summit 2025, ficou claro que a Economia acrescentou mais um idioma ao seu léxico. Sob o teto de vidro do Finlandia Hall, economistas, banqueiros e investidores não discutiam utopias verdes: discutiam métricas, risco e rentabilidade. Falava-se de biodiversidade como ativo, de capital natural como variável económica, de retorno ecológico como linha de balanço. Um dos participantes resumiu-a com precisão: “Estamos a meio caminho de 2030. As metas são claras. Falta traduzir a ambição em balanços.”. Traduzindo: A era da sensibilização terminou. Começou a era da contabilidade ecológica.
Em Helsínquia, ouviu-se algo revolucionário: “A natureza é o novo ativo da economia.” Seguradoras estão a criar apólices de regeneração, bancos estão a medir biodiversidade nas carteiras de investimento, e fundos estão a financiar a restauração ecológica como se financia inovação tecnológica. O que está em jogo já não é a moral do ambiente, é o modelo económico do século XXI. Exemplos?
A nível de escala financeira e capital natural, 23 mil milhões em ativos representam atualmente a Finance for Biodiversity Pledge, com 200 instituições financeiras signatárias. 54% dessas instituições já alocaram capital a investimentos com impacto positivo na natureza, num total de €53 mil milhões, e 33% desses investimentos estão em agricultura, 31% em floresta, com setores como água, oceanos e economia circular ainda marginais.
Nascem novos instrumentos financeiros: na sessão organizada pela European Business & Biodiversity Platform, Michele Lacroix, da SCOR, apresentou o novo NatReCo – Nature Restoration & Conservation Insurance, um produto que só assegura projetos com compromisso verificado de recuperação ecológica. As indemnizações não são simples pagamentos, têm de ser reinvestidas na restauração, criando, como ela disse, um “feedback loop” entre risco e regeneração. O Triodos Bank comprometeu-se a mobilizar €500 milhões até 2030 para soluções baseadas na natureza, com relatórios públicos de resultados em 2027.
Anssi Kiviniemi, do SEB Finlândia, explicou como os indicadores de biodiversidade estão a ser integrados nas avaliações de risco das carteiras, sobretudo na agricultura e na silvicultura, que representam mais de 60% do investimento nature-positive.
Da Holanda, Fadyan Pronk, gestor do Dutch Farmland Fund da a.s.r. real estate, descreveu a terra agrícola não como um ativo especulativo, mas como um sistema vivo. “Já não compramos terrenos”, disse, “compramos potencial ecológico.”
O capital privado e público já representa metade de todos os investimentos nature-positive, seguido de green bonds (15%) e financiamento de projetos com impacto. A conclusão era inconfundível: o sistema financeiro não está à espera de um novo paradigma — está a tornar-se num.
A frase que ecoou em Helsínquia devia estar inscrita nos gabinetes de governo e corporativos: “Crescimento sem natureza já não é crescimento: é liquidação.”
Sem dúvida, a Natureza entrou em balanço e temos de fazer contas com ela. Vejamos o que sai desta COP30: se poesia ambiental ou economia natural.