A transição para uma economia de baixo carbono é imperativa para mitigar os impactos adversos das alterações climáticas e alcançar as metas ambientais globais estabelecidas. O sistema bancário assume um papel crucial no roadmap de descarbonização da economia, dada a sua influência na alocação dos recursos financeiros. É neste aspecto que radica a sua forte capacidade de promover práticas sustentáveis em diversas indústrias, através do apoio (ou não) à sua progressão para uma neutralidade carbónica.

Dois dos pilares de maior relevo no quadro de desenvolvimento que se perspectiva para o sistema bancário nesta temática serão: a estratégia (incluindo a respectiva avaliação, transparência e comparabilidade de resultados) e os seus contributos directos.

Este primeiro pilar reside na necessidade de criar referenciais mais objectivos e rigorosos, tanto para investidores como para reguladores e demais stakeholders, na avaliação da performance individual de cada instituição bancária. Este requisito conduziu à criação do “Green Asset Ratio (GAR)”, indicador financeiro que facilita – e aporta um maior rigor – a comparabilidade do comportamento das diversas instituições de crédito, tanto nas suas responsabilidades enquanto agentes indutores de práticas sustentáveis e geradoras de menor pegada carbónica, quanto nas políticas de mitigação dos riscos reputacionais associados ao greenwashing.

De forma simplificada pode-se dizer que este rácio avalia a proporção dos activos de uma instituição de crédito que financia actividades económicas alinhadas com a Taxonomia da UE vs. o total dos seus activos. Esta métrica, introduzida pelo EU Taxonomy Disclosures Delegated Act, representa uma mudança significativa na indústria bancária pois permite, de modo claro, às instituições financeiras o alinhar das suas práticas de concessão de crédito com objectivos de sustentabilidade. Na avaliação dos Compromissos Sustentáveis dos bancos pelos respectivos stakeholders passa a existir um padrão global harmonizado para todo o sistema bancário que visa tornar-se como uma métrica comparável.

Recordemos que o próprio Banco de Portugal publicou o seu primeiro Relatório Anual sobre a exposição do sector bancário aos riscos climáticos, no passado mês de Julho, de forma a cumprir com a “Climate Framework Law”. Este relatório analisa o impacto potencial das alterações climáticas no sistema bancário português, transmitindo quais as iniciativas promovidas para a sua resiliência acrescida. Com este desígnio, foi analisada a exposição das entidades supervisionadas ao denominado processo de transição climática, extraindo a informação relevante para as avaliações realizadas, com base em distintos cenários de evolução climática de longo prazo (até 2050) e para os diferentes sectores de actividade e diferentes dimensões dos agentes económicos.

A introdução do GAR e as alterações a nível da supervisão bancária constituem assim um importante desafio para a banca, pois encerra um potencial de promover mudanças comportamentais integrando uma melhor gestão de riscos (nomeadamente na avaliação da sua exposição a riscos ambientais) incorporando considerações de sustentabilidade e de fomento do financiamento sustentável no processo de decisão.

Exploro agora um dos pilares determinantes no contexto do tema em desenvolvimento: os contributos directos do sistema bancário no estímulo à transição para uma economia de baixo carbono.

Recordemos que o sistema bancário desempenha um papel crucial no roadmap de descarbonização da economia, dada a sua determinante influência na alocação dos imprescindíveis recursos financeiros. E é nesse aspecto fundamental que radica a sua forte capacidade de promover práticas sustentáveis em diversas indústrias através do apoio (ou não) à sua progressão para uma neutralidade carbónica.

De modo necessariamente sintético podemos considerar que têm três naturezas distintas:

  • gestão da carteira e oferta de produtos: intimamente relacionada com a alocação de capital direccionada ao apoio de iniciativas relativas à transição para práticas mais sustentáveis – como o privilegiar o financiamento de projectos com melhores notações de rating de sustentabilidade, as quais são atribuídas através da incorporação de critérios ESG nos modelos de avaliação;
  • maior exigência na aferição de perfis de risco (metodologias de análise de informação e requisitos de fiabilidade na recolha e tratamento de dados), incluindo testes de stress e outras abordagens que melhor os permitam identificar, avaliar e mitigar (e.g. riscos climáticos extremos, alteração do quadro regulamentar, mudança de preferências dos consumidores por produtos com menor pegada carbónica), conduzindo à implementação de sistemas de rating que incentivarão os potenciais mutuários a uma maior abrangência, rigor e transparência na disponibilização de informação à banca;
  • através das suas práticas internas de sustentabilidade e da qualidade do respectivo reporte e divulgação, o sistema bancário constituir-se como referência e força incentivadora e promotora da transparência e da qualidade de informação a produzir e partilhar (integrando, inter alia, elementos sobre a identificação das suas estratégias, políticas, incluindo a gestão da “intensidade de carbono” do portfólio e tendências das suas carteiras de activos em termos ESG) junto dos demais agentes económicos.

Em conclusão, os bancos desempenham um papel de agente catalisador no sensibilizar e impulsionar melhorias ao nível de políticas de ESG no seio da sua carteira de clientes (operações passivas e activas) e de particular expressão no processo de descarbonização da economia. As suas políticas e decisões quanto ao apoio a uma transição para uma “low carbon economy”, assim como o seu compromisso com o rigor e a transparência da informação a essa matéria associada, induzem, inquestionavelmente, uma evolução mais célere, contribuindo para um futuro universalmente mais sustentável.