A obesidade tem vindo a ser matéria de debate público nas últimas semanas, tendo ganho novo fôlego com a recente recomendação da OMS, que admite a possibilidade de utilização de fármacos no tratamento desta doença, enquadrada numa estratégia terapêutica integrada. A Ordem dos Nutricionistas tem sido chamada a pronunciar-se pelos diferentes meios de comunicação, o que se justifica amplamente pelo papel central do nutricionista, quer no tratamento, quer na prevenção e controlo da obesidade.
Contudo, o mediatismo e a procura constante por novidades mais apelativas podem levar, por vezes, ao risco de se “fazer notícia de uma notícia”, transformando a mensagem-chave numa mensagem pouco clara ou insuficientemente fundamentada. Interessa, por isso, consolidar e clarificar a informação, aliando ciência e serviço público, não com o intuito de fazer diferente, mas com a ambição de fazer a diferença na vida e na saúde da população.
É fundamental sublinhar o óbvio: nenhuma transformação acontece sem mudança de comportamentos. O tratamento da obesidade exige transformação do corpo e da mente e implica revisitar processos, muitas vezes instalados ao longo de décadas, associados a hábitos alimentares inadequados e estilos de vida desequilibrados. Importa ainda reforçar que a recomendação agora divulgada destaca precisamente estas medidas como essenciais para alcançar os objetivos de perda e manutenção do peso.
Sejamos claros e objetivos: segundo a OMS, o tratamento farmacológico isolado não produz efeito, princípio amplamente reconhecido no meio clínico e académico. A mesma recomendação sublinha que os resultados de longo prazo, incluindo o sucesso da perda de peso e a manutenção desses resultados, só são possíveis quando coexistem políticas públicas de saúde e medidas de promoção de estilos de vida saudáveis, nomeadamente ações de literacia e educação alimentar e de intervenção nutricional.
Quando discutimos investimento público numa área complexa como o tratamento da obesidade, não podemos limitar a análise à comparticipação de fármacos, porque a evidência é clara: o tratamento isolado não tem efeitos ou tem apenas efeitos a curto prazo. O verdadeiro investimento é na saúde da população e, nesse sentido, os recursos financeiros não podem dispensar a afetação de recursos humanos e materiais que permitam implementar, de forma integral, a estratégia necessária – assente, de forma indissociável, na intervenção nutricional e na educação para a saúde, complementadas por farmacoterapia apenas nas situações clínicas em que esta se justifique.
Esta é a base que sustenta a recomendação da OMS e na qual a Ordem dos Nutricionistas se revê: os resultados só serão efetivos se o país garantir um acesso equitativo a políticas de promoção da saúde e prevenção da doença e a intervenções alinhadas com os objetivos definidos para a população, incluindo a identificação de situações de elevado risco, às quais medidas terapêuticas adjuvantes devem ser igualmente disponibilizadas e distribuídas de forma justa.
De forma integrada, organizada e articulada, estaremos a contribuir para uma população mais saudável, assegurando que nenhuma das diferentes estratégias fica de fora porque, combinadas, terão sempre maior impacto do que quando aplicadas isoladamente.
Por ser uma matéria que diz respeito diretamente aos nutricionistas, desde a intervenção comunitária, com medidas de promoção e literacia alimentar, até à intervenção dirigida a grupos de risco, ao desenvolvimento de planos alimentares individualizados e à monitorização nutricional, é fundamental que qualquer estratégia de tratamento da obesidade garanta cuidados nutricionais acessíveis a toda a população, assim como o acesso efetivo a consultas e outras respostas de intervenção nutricional.