Apesar de muitos dos fatores de risco das doenças cérebro-cardiovasculares serem silenciosos, há um elemento que todos podemos controlar: a alimentação. A evidência científica é clara: a forma como comemos pode reduzir significativamente o risco de enfarte e de AVC. Uma alimentação equilibrada contribui para controlar a pressão arterial, melhorar os níveis de colesterol, estabilizar a glicemia e manter um peso corporal saudável — quatro pilares fundamentais na prevenção destas doenças. Por outro lado, padrões alimentares ricos em sal, gorduras saturadas e açúcares adicionados estão associados a uma maior inflamação e rigidez dos vasos sanguíneos, favorecendo a formação de placas e o aumento da tensão arterial.

Entre os padrões alimentares mais estudados, a dieta mediterrânica destaca-se como uma das maiores aliadas do coração e do cérebro. Baseada em frutas e legumes frescos, leguminosas, cereais integrais e azeite como principal fonte de gordura, e complementada por peixe, frutos oleaginosos e lacticínios em moderação, este modelo tem mostrado reduzir o risco de eventos cardiovasculares maiores, segundo diversos estudos internacionais. É uma dieta que privilegia a qualidade dos alimentos e a simplicidade das refeições, mas também o convívio à mesa e o prazer de comer.

Na prática, cuidar do coração através da alimentação significa fazer escolhas diárias mais conscientes. Reduzir o consumo de sal — preferindo ervas aromáticas e especiarias — ajuda a controlar a pressão arterial. Substituir gorduras saturadas (como manteiga e carnes gordas) por gorduras insaturadas (como azeite e peixe) melhora o perfil de lípidos (gorduras) no sangue. Aumentar o consumo de frutas e hortícolas fornece antioxidantes e fibras que protegem as células e regulam o colesterol. E optar por cereais integrais e leguminosas promove uma digestão mais lenta e uma melhor gestão da glicemia. Pequenas mudanças, mantidas com consistência, fazem uma diferença enorme no longo prazo – não só para a saúde individual, mas também para a sustentabilidade do próprio sistema de saúde.

Adotar hábitos saudáveis exige, no entanto, informação, motivação e apoio. E é aqui que o papel do nutricionista se torna essencial. Estes profissionais de saúde traduzem a ciência em conselhos práticos, personalizados e exequíveis. São eles que ajudam a planear refeições equilibradas, a interpretar rótulos alimentares e a adaptar as recomendações às preferências, ao orçamento e ao contexto familiar de cada pessoa. Esta orientação é decisiva para que as mudanças se tornem sustentáveis — porque comer bem não é apenas saber o que é saudável, é conseguir aplicar esse conhecimento na vida real.

A prevenção das doenças cérebro-cardiovasculares não depende apenas de conhecimento, mas da capacidade de transformar esse conhecimento em ação. É, por isso, fundamental que o acesso a cuidados nutricionais seja valorizado e integrado em todos os níveis do Serviço Nacional de Saúde. Promover a literacia alimentar e o acompanhamento nutricional não é apenas uma questão de saúde pública. É também uma estratégia económica inteligente. Investir na prevenção significa reduzir internamentos, custos com medicação e recursos hospitalares, libertando o Serviço Nacional de Saúde para responder melhor a outras necessidades.

Acredito profundamente que a alimentação é uma das formas mais poderosas de cuidar de nós mesmos — e do país. Cada refeição é uma oportunidade para proteger o coração, nutrir o cérebro e garantir um futuro mais saudável. Mas esta responsabilidade é partilhada: cabe a cada um de nós fazer escolhas mais equilibradas, e cabe à sociedade criar condições que as tornem possíveis.

Comer bem é mais do que uma escolha individual — é uma decisão com impacto coletivo. Cada refeição equilibrada é um passo na prevenção da doença, na melhoria da qualidade de vida e na sustentabilidade do sistema de saúde.

Liliana Sousa é bastonária da Ordem dos Nutricionistas desde 2023. Nutricionista no Serviço de Nutrição da Unidade Local de Saúde de Matosinhos, no Hospital Pedro Hispano, desde 1999, exerce também funções como assistente principal da Carreira de Técnicos Superiores de Saúde, no ramo de Nutrição. É uma das cronistas convidadas do Arterial, a secção do Observador exclusivamente dedicada às doenças cérebro-cardiovasculares.

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Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.

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