As duas principais fantasias que alimentamos acerca daquilo que com probabilidade nunca nos acontecerá são, por ordem, ser omnipotente e ser invisível. Uma fantasia não é necessariamente uma coisa irracional. Pode haver método na loucura, e pode haver boas razões para preferir certas espécies de loucura.

Do ponto de vista da racionalidade das escolhas, faz mais sentido querer ser omnipotente que querer ser invisível. A uma pessoa omnipotente não está vedado o acesso às doses mais elevadas de saúde, dinheiro e amor; e terá outros benefícios marginais apreciáveis como a locomoção no espaço, o acesso irrestrito ao chocolate, e o dom da ubiquidade; ainda mais importante, pode durar para sempre, e durar para sempre como pessoa omnipotente. E, claro está, pode ser invisível.

Parece então que a escolha entre estas duas formas de loucura é ela própria uma escolha louca. A ninguém no seu perfeito juízo ocorreria escolher ser invisível quando se pode ser invisível e muito mais coisas escolhendo simplesmente ser-se omnipotente. Qual pode então ser a justificação para querer ser-se apenas invisível?

Ocorrem-me várias razões, que talvez estejam ligadas. Uma pessoa omnipotente tem constantemente de querer fazer coisas e tomar decisões. Terá acesso irrestrito a chocolate, mas tem de querer ter acesso irrestrito a chocolate, e por isso de decidir querer ter acesso irrestrito a chocolate (mesmo que tudo se passe à velocidade da luz). Há o risco de essa constante agonia de decisões confundir o próprio e provocar consequências no mundo: fará chuva ou sol por nenhuma razão particular, e montanhas de chocolate mudarão de sítio ao arrepio das mais elementares leis da física.

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Como se observou há muito tempo, onde há efeitos contraditórios não pode haver exactamente omnipotência (e por essa razão Deus não pode causar efeitos contraditórios). Finalmente, uma pessoa omnipotente, por causa dos efeitos da sua omnipotência, tenderá a passar a sua vida, que no entanto pode ser eterna, como a maior parte das outras pessoas: a mostrar constantemente aos outros que existe. Mesmo que possa querer ser invisível, e por isso ser invisível, será sempre invisível de uma maneira muito visível. Não é então realmente omnipotente.

Pelo contrário, uma pessoa apenas invisível não tem que querer ser nada; as suas decisões são as normais; nenhuma montanha muda de lugar; e ninguém repara nela. Pode ter uma vida com quase todas as limitações do costume. É verdade que algumas pessoas invisíveis se introduzem em quartos de terceiros e, liberalmente à noite, em lojas de doces. Mas essas são características operacionais da imaginação humana, que não eximem quem as tem ao sentimento da culpa ou à indigestão comum. Uma pessoa invisível é simplesmente uma dessas raras pessoas que não passa a sua vida a lembrar aos outros que é uma pessoa.