Não sei se é de dia ou se é de noite…
Onde estou?
Oiço apitos a toda a hora. Gemidos. Pessoas azafamadas de um lado para o outro.
Alguém vem ter comigo, finalmente.
— Onde estou?
— No hospital, na CUF. Como se chama?
— Chamo-me Joana. Mas porque estou aqui?
— Teve um acidente, mas sossegue. Vai ficar tudo bem. Se precisar de alguma coisa carregue nesta campainha.
Como assim “se precisar de alguma coisa”!? Estou aqui numa cama. Não me consigo mexer. Alguém me explique o que se está a passar.
Os apitos continuam, lamúrias mesmo ao meu lado. Tenho aqui uma cortina, não consigo ver o que está ao meu lado. Vejo que estou rodeada por máquinas que apitam, só isso. Ao longe percebo que não vejo para lá dos meus pés, porque não consigo levantar o pescoço. Finalmente aparece alguém meu. O meu marido. Agarrado a mim, diz:
— Joana não pode ser. Tens de parar. Não podes abusar da sorte. Qualquer dia não tens mais vidas.
Como assim? Mas o que é que eu fiz? Lembro-me de me trazerem para o hospital. Lembro-me de achar que estava a ter um AVC. Lembro-me de sentir o lado esquerdo imóvel.
Mas o que é que eu fiz? E como vou sair daqui? Quando é que alguém me explica o que se esta a passar? Começo a ouvir as vozes ao longe e adormeço.
Acordo.
Onde é que eu estou? Ah já sei. No hospital.
Mas que quartos são estes que não vejo portas nem janelas? Tantos enfermeiros atarefados. Porque andam de um lado para o outro? Preciso que me digam qualquer coisa. O que estou aqui a fazer? Até quando? Estou à espera de que?
A campainha. Falaram na campainha. Vou tocar. Onde está? Procuro. Não a encontro. Há um fio ali. Mas não chego lá. Começo a bater com as unhas na grade da cama. Abençoadas unhas que já estão compridas…
— Diga. O que precisa?
— Não sei. O que estou aqui a fazer? Porque estou sozinha? Onde está a minha família?
— Já aqui estiveram. O seu marido e a sua irmã. Agora não é hora da visita. Eles voltam mais tarde.
— Mas que horas são? É de dia ou é de noite? Há quanto tempo estou aqui?
— Tente descansar um bocadinho, está bem?
Descansar? Estou aqui deitada nem sei há quanto tempo. Sempre fui sensível ao barulho e isto é um concerto de apitos. Como posso adormecer?
Às tantas adormeço.
Acordo.
Onde estou? Onde está a campainha? Ah espera, as unhas. Bato outra vez.
— Diga. O que precisa?
— Quero o meu marido. Alguém da minha família. Estou aqui sozinha.
— Tenha calma. A hora da visita está quase.
O David ou a minha irmã aparecem, à vez. Encostam-se a minha cama e tentam confortar-me.
As visitas passam a correr.
— Volto amanhã, amor.
— Volto mais tarde, maninha.
Que bom que foi. Mas queria mais. Não quero estar sozinha.
O meu sogro dizia uma frase que sempre me intrigou e com a qual eu até discordava: “Cada um está só na vida”. Ali naquela cama, sem saber se era dia ou noite, se estava a sonhar ou aquilo era mesmo a realidade, muitas horas sem uma cara familiar, percebi exatamente o que ele queria dizer. Ali estava eu. Sozinha. Sem saber bem porquê. Nem o que seria o meu destino nas horas seguintes.
Campainha. Agora já a prenderam à grade da cama. Que alívio! Carrego. Aparece um enfermeiro.
— Como se chama?
— Júlio.
– Júlio, estou cheia de dores no pescoço. Consegue ajudar-me?
O Júlio, o meu novo melhor amigo, trouxe-me uma coisa para pôr no pescoço e fez-me uma pequena massagem. Que alívio.
— E esta senhora que não para de gemer?
— Está mal, coitadinha. Tem dores.
— Não lhe podem dar nada para aliviar?
— Já demos. Daqui a nada faz efeito. Durma agora, Joana.
— Não consigo. E a minha perna está sempre a tremer.
— Vou buscar um medicamento que ajuda.
— Obrigada. E já agora… uma droguinha para dormir. Estou tão cansada.
— Está bem. Já cá volto.
Durmo. Sonho que estou na guerra da Ucrânia. Ou serão alucinações?
Acordo.
— Bom dia. Olhe desculpe, isto é um hospital de campanha?
A enfermeira olha para mim, quase indignada.
— Hospital de campanha? Não. Está na CUF.
— Mas então porque estão as paredes todas partidas e oiço bombas?
Ela dá-me uma festinha e vai-se embora. Estou sozinha, outra vez.
Campainha, é isso.
— Onde está o Júlio?
— O Júlio estava no turno da noite. Não está cá agora. Do que precisa?
— A minha família? Ninguém me vem ver?
— São quatro da manhã. A visita é só ao meio-dia.
Quatro da manhã. Tento dormir.
Acho que os enfermeiros estão a fazer uma festa. Só oiço apitos e pessoas a cantar. Francamente. Quero dormir.
Guerra da Ucrânia. Festa. Gatos pretos.
Sonho? Alucinação?
Acordo.
— E agora, já é dia?
— Ainda não.
— A senhora do lado calou-se. Está tudo bem com ela?
— A senhora já está lá em cima. A descansar em paz.
Ai meu Deus. Se calhar a seguir vou eu.
Horas passam. Sempre o mesmo cenário. Apitos. Gemidos. Lamúrias. Enfermeiros atarefados. De repente penso: “não estou a comer”. Alguém terá pensado nisso?
— Está com soro. Não se preocupe.
— E xixi? Como estou a fazer?
— Também não se preocupe com isso.
Se eles dizem, vou confiar.
Juro que vi um gato preto a passar atrás da cortina. Campainha.
— Estou a ver um gato preto. Passa de vez em quando aqui atrás e abana as cortinas.
— Acho que não há aqui gatos… mas já vamos ver.
Visita. Finalmente.
— Porque me deixam aqui tanto tempo sozinha?
Só temos uma hora, entre as 12h e as 19h. “Ah está bem, mas custa-me tanto estar aqui tantas horas sozinha. Como estão os miúdos?
Durmo. Acordo. Um homem vestido de preto entra no quarto, com uma cruz ao peito. Pronto. É agora. Vou morrer. As máquinas a apitar por todo o lado. O padre quase morre ele de susto, ao ver o impacto que a sua entrada teve.
— Vou morrer, é isso? Vem dar-me a extrema-unção?
— Não, não. Venho dar a unção dos doentes.
— Ah. Quero. Quero sim, Obrigada!
Rezamos juntos.
Durmo. Acordo.
— Vai ser operada. Até já.
Volto. Estou viva. Olha o sítio dos apitos, correrias e gemidos. Estou aqui outra vez. Tenho um turbante na cabeça.
— O que é isto?
— Foste operada. É uma proteção.
— Posso tocar? Ai, as minhas mãos. Porque estou presa? Podem me tirar daqui os braços, ou pelo menos o direito, que o esquerdo parece-me que continua inanimado.
— Ainda não.
Campainha.
— Júlio, não consigo dormir.
Banho à gato. Ou algo parecido.
— Ai, coitada, com tanto betadine não sei como vamos tirar isto do cabelo… Desabafos de quem tem uma operação complicada pela frente e quer a minha compreensão.
— Ai, que isto dói. Corte o que for preciso. Senão vou ficar careca à mesma.
Frio. Muito frio.
— Já chega. Por favor, estou a morrer de frio.
Visita. Durmo. Acordo.
— Olá. Sou a Carolina, fisioterapeuta.
Que maravilha. Uma atividade. Qualquer coisa para fazer.
Os dias repetem-se. Todos iguais.
Agora tenho um tubo pelo nariz. Sonda nasogástrica. Sinto o cheiro da comida a passar. Dói. E faz-me comichão. Que agradável.
— Quando me tiram esta coisa?
— Não pode ser. Se a comida for para os pulmões, pode morrer.
— Isso não. Já me aguentei até aqui…
Boas notícias chegam.
— Arranjámos um quarto lá em cima.
Lá em cima? Eu nem sei onde estou… Mas se vou sair daqui, ótimo.
Horas passam.
— O quarto está quase.
— Porque me trouxeram para um centro comercial?
— Centro comercial? Não. Estamos só à espera de subir para o piso 3. Está quase.
Durmo. Acordo. E chego ao “céu”. Céu depois aquele inferno. Embora o verdadeiro céu fosse a minha casinha.
Ohhh, não me despedi do Júlio. Que pena. Gostei mesmo dele. Digam-lhe que lhe mando um beijinho e que quando estiver melhor lhe faço uma visita.
Joana Ferraz da Costa é economista, integra a comissão executiva da farmacêutixca Iberfar e é CEO da FAI Therapeutics.