Sempre fui uma pessoa muito ativa, física e profissionalmente. Fazia desporto regularmente, corrida e treino de ginásio, cinco a seis vezes por semana. Tenho três filhos e trabalho numa farmacêutica, uma empresa familiar, na comissão executiva da farmacêutica Iberfar. Estava a lançar, desde 2022, como CEO, a FAI Therapeutics, que produz fármacos à base de canábis medicinal.
Sim, trabalhava muito, como administradora executiva do grupo de empresas, tinha muita responsabilidade e, confesso, sou um bocadinho workaholic. Sempre fui uma pessoa positiva, independente, trabalhadora, com muita força de vontade e disciplina. Muito perfeccionista também.
Na fase em que tive o AVC andava muito cansada e também preocupada, porque a minha mãe estava a precisar de mais cuidados. Lembro-me de lhe ter telefonado no domingo em que isto me aconteceu e de ter ficado preocupada por ela não atender. Como a tinha ido visitar na véspera e não a tinha achado fisicamente bem, disse a uma das minhas filhas que ia fazer ginástica, pela minha saúde.
Vivo num condomínio com a família, o meu pai e uma das minhas irmãs ― e improvisámos um ginásio num corredor de um dos andares. Temos uma passadeira, uns colchões, uns halteres ― e dá para fazer qualquer coisa sem ter de sair de casa. Fiz um aquecimento rápido de cinco minutos e depois comecei a fazer treino de braços com pesos.
Estava deitada em cima de um banco de step e, à terceira ou quarta repetição, não me lembro ao certo, senti uma espécie de um estalo na cabeça, uma coisa esquisita. Depois, perdi a força no braço esquerdo e pousei o haltere. Quando comecei a tentar processar o que tinha sido aquilo, porque percebi que algo de errado estava a acontecer, tentei levantar novamente o peso e reparei que o meu braço estava sem força.
Apoiei bem a perna esquerda no chão para me levantar do banco e, como a perna também já não tinha força, caí. Fiquei assustada por tudo isto ter sido inesperado e bati com muita força com a cabeça contra uma porta da casa. Aí, pensei: “Pronto, agora é que está tudo estragado”. Como não me conseguia levantar comecei a pedir socorro. Mas a minha voz saía muito fraca. “Estou tramada. Se ninguém me acode fico aqui caída até quando?”, questionei para mim própria.
Lembrei-me então de atirar o banco onde estava deitada para o chão, que é de tijoleira, usando a perna direita, que estava normal, o que fez o barulho que esperava: o meu cão começou a ladrar, o meu filho também me ouviu e foi socorrer-me.
Quando tive aquela sensação estranha na cabeça, não pensei logo que tinha tido um AVC. Mas comecei a pensar nisso quando percebi que tinha perdido a força num braço, depois na perna, do mesmo lado e comecei a sentir a boca a ficar de lado. Quando o meu filho chegou, já sentia a boca “muito repuxada”, e aí disse-lhe que estava a ter um AVC e que tinha de ir ao hospital. Ele dizia que não devia ser porque estava com um discurso muito “normal”, mas sentia que tinha, pelo menos, dois dos chamados “3 F”: falta de força no braço, na perna e na face. Só não tinha a fala arrastada.
Decidimos não chamar logo a ambulância e fomos para a CUF, com a minha irmã, filho e sobrinho a toda a velocidade com os quatro piscas do carro ligados. As primeiras memórias da chegada são a entrada nas urgências e uma enfermeira que nos recebeu a dizer que deveríamos ter chamado o 112. Depois, lá entrei e não me recordo de muito mais. Lembro-me de ir fazer uma TAC e uma ressonância magnética ― e de se confirmar a hemorragia intracraniana. Confirmava-se o AVC. Fiquei afilita e a pensar como iria sair daquela situação.
Depois de estabilizada e de realizar mais uma série de exames, nomeadamente uma angiografia, disseram me que o AVC tinha resultado do rompimento de uma MAV – uma malformação arteriovenosa que eu tinha, talvez desde a adolescência, mas que desconhecia. Disseram-me que os médicos eram da opinião de que devia ser operada para a remoção da MAV e a descompressão do hematoma – e de concordar, ou aceitar, mas de ficar com medo. Afinal, mexerem-nos na cabeça é tudo o que não queremos. Lembro-me de perguntar ao neurocirurgião, o médico Diogo Belo, com mãos de anjo, se poderia morrer ou ficar “parvinha”, e de ele me ter dito que sim, que havia essa possibilidade, mas que iria fazer tudo para que corresse bem.
Depois da cirurgia seguiram-se mais dez dias de cuidados intensivos e tomei a decisão de onde ir fazer a reabilitação, quando tivesse alta da unidade de cuidados intensivos, mantendo-me no mesmo hospital. Seguiu-se o confronto com a situação e as muitas questões que surgiram: “Será que vou voltar a ser a pessoa que era, que impacto é que isto vai ter na minha vida?”. E de ter de reaprender a segurar o pescoço, depois o tronco, depois ficar de pé, depois dar um passinho…
Saí do hospital ao fim de oito semanas, de cadeira de rodas. Na altura, só dava um ou dois passos, mas sempre apoiada. Depois fui para casa e continuei a fisioterapia, que foi correndo bem. Na altura, ainda precisava de ajuda para tomar duche, vestir-me e arranjar-me, sempre muito dependente e com muito pouca autonomia. O mais difícil deste processo, principalmente para uma pessoa com o meu feitio ― que gosta das coisas para ontem ― é o tempo que demora a recuperação e a lentidão dos progressos. Foi a primeira vez na minha vida em que ponho, não 100 mas 200% do meu esforço, e não sai 99%, sai 30 a 40%… É difícil.
A equipa médica e de reabilitação foi de uma importância incrível. Toda a gente, médicos, terapeutas, enfermeiros, todos. Sempre queridos, meigos, cuidadosos. Os médicos sempre me explicaram tudo. Ou quase, porque agora, meses depois, sei que não me disseram realmente tudo. Mas ainda bem! Se me tivessem dito, teria desesperado por saber a maratona que iria ter de percorrer. Porque no passado já fiz uma verdadeira meia-maratona, a correr, mas isto é uma maratona a caminhar descalça.
O acompanhamento familiar foi fundamental. O meu marido foi o meu pilar, incansável, sempre muito positivo. “Bola para a frente, o que é que podemos fazer, quais são os próximos passos?” Os meus filhos também, sempre queridos ― e também as pessoas para quem me queria pôr boa e ir para casa, o melhor que pudesse. As minhas irmãs, que se revezavam para render o meu marido e fazer-me companhia no hospital. E o meu pai também, que me apoiou e acompanhou tudo desde o início.
Tive uma grande evolução. Colocando as coisas em extremos, para se ver a dimensão da evolução: passei de estar deitada sem sequer mexer o pescoço, totalmente dependente, para conseguir fazer uma viagem a Roma, há umas semanas, com o meu marido e aguentar andar, em média, seis km por dia, com a ajuda de um bastão de caminhada. Há um ano não acreditaria que fosse possível. Soube muito bem.
Ainda não conduzo, mas já fiz o exame de condução adaptada em Alcoitão [Centro de Medicina e Reabilitação] e fiquei apta. Por isso, estou no processo de tratar do carro adaptado e, depois, começar a sair, sozinha. Vai ser um passo importante na recuperação da minha independência.
Vestir-me é uma tarefa que ainda me cansa e às vezes enerva, ou porque comecei a vestir a camisa do lado errado, ou porque não consigo atar os sapatos. Mas já tenho mil truques! Cozinhar ou cortar fruta são tarefas muito difíceis. Ir passear o meu cão sozinha ainda não é possível. Subir e descer escadas, só com corrimão. Ainda tenho etapas para ultrapassar, mas vou fazendo o caminho.
Depois de toda esta experiência, mudei a maneira de olhar para a vida. Coisas que dantes eu complicava ou de que me queixava, agora não são nada. Valorizo muito mais coisas simples, como apanhar ar, ver o mar, andar, coisas realmente mais simples e mais importantes.
Estou muito mais seletiva naquilo que quero fazer e com quem quero estar. Hoje consigo impor limites mais facilmente e relativizo muito as coisas. Valorizo muito as pessoas incríveis que conheci. A enfermagem e a fisioterapia são profissões que exigem, ou normalmente estão associadas a pessoas com empatia e com muito cuidado com o outro. Conheci também pessoas realmente diferentes e especiais que passaram pelo mesmo processo ou estão a passar por problemas semelhantes.
A quem passa por um AVC, peço para não perderem a esperança. Demora e custa, mas melhores dias virão. Como me disseram a mim e ajudou: “Apesar de agora parecer tudo péssimo e assustador, não vai ser sempre assim. Uma situação como esta é um teste gigante à paciência. É um processo muito demorado e frequentemente frustrante, nem sempre com épicos pontos de viragem”. Mas a vida continua.
Joana Ferraz da Costa é economista, integra a comissão executiva da farmacêutixca Iberfar e é CEO da FAI Therapeutics. É uma das cronistas convidadas do Arterial, a secção do Observador totalmente dedicada às doenças cérebro-cardiovasculares.
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Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.
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