Permitam-me que apresente a minha visão sobre a crescente falta de mão de obra em Portugal e os obstáculos que persistem na contratação. Trabalho num grupo do setor farmacêutico, com três empresas presentes na cadeia de valor do medicamento, desde o fabrico à comercialização e distribuição – e temos sofrido bastante com a escassa oferta de mão de obra. É inegável a dificuldade sentida com a rotatividade de pessoal e na procura de novos recursos.

De acordo com o Talent Shortage Survey 2023 – um inquérito realizado a nível mundial pelo ManpowerGroup – Portugal é o quarto país do mundo com maior dificuldade na contratação, com 84% dos empregadores a revelar problemas graves no preenchimento de vagas abertas, versus uma média global de 77%, justificada pela concorrência a nível global, que paga melhores salários do que Portugal – e que, por isso, atrai cada vez mais jovens qualificados.

Se formos analisar os dados demográficos de Portugal, consultando o Observatório da Emigração e o Instituto Nacional de Estatística, verificamos que o país perdeu cerca de 742 mil portugueses entre 2012 e 2021. Destes, 653 mil estão em idade ativa e 194 mil têm estudos superiores, ou seja, aproximadamente 10% da população portuguesa licenciada em idade ativa.

Para agravar a situação, verifica-se que, dos 50 mil licenciados que o país forma todos os anos, cerca de 20 mil saem do país em busca de melhores oportunidades. Somos o quarto país da Europa e o oitavo do Mundo com a taxa de emigração mais elevada, sendo apenas ultrapassados por nações que se encontram em zonas de conflito.

Estes indicadores levam-nos a concluir que é muito baixa a capacidade da nossa economia de reter ou atrair talento. Quando nos debruçamos sobre as causas desta situação e perguntamos aos jovens por que razão vão para fora, a resposta passa pelo salário, os impostos sobre o trabalho e as perspetivas de evolução de carreira.

Se consultarmos as estatísticas da OCDE sobre o salário médio anual de um solteiro sem filhos, verificamos que Portugal está muito abaixo na tabela e muito próximo dos países menos desenvolvidos da União Europeia, com um salário médio de 15 mil euros por ano, em comparação com salários acima de 21 mil em Espanha, Itália, França e Alemanha. Já para não falar da Suíça, que paga cerca de 75 mil euros por ano.

Outro fator altamente penalizador é a diferença entre o custo total do trabalho para o empregador e aquilo que o trabalhador leva para casa – o chamado labor tax wedge – em que o nosso país está no décimo lugar a nível europeu. Portugal começa a taxar de forma muito pesada logo a partir de níveis baixos de vencimento, o que penaliza fortemente o progresso profissional.

Outro ponto importante para trazer à discussão é a necessidade de uma clara aposta no ensino profissional. A falta de profissionais tecnicamente qualificados representa uma forte restrição à competitividade das empresas. Criou-se um estigma tal que temos um desalinhamento enorme entre o que são as necessidades e a oferta deste tipo de perfis.

Tendo em conta o que acabei de referir e os fatores responsáveis pela atração e retenção de talento, há algumas medidas que podem e devem ser adotadas com urgência.

Em primeiro lugar, reduzir a carga fiscal sobre o trabalho – impostos e contribuições sociais – porque as empresas têm muita dificuldade em ser competitivas e sentem-se muito condicionadas no que toca a promover e premiar.

Segunda proposta, mais fácil e mais rápida de implementar, é a de ampliar o pacote de complementos salariais que beneficiam de isenção de IRS ou Segurança Social, como os tickets ensino, educação e care, ou os seguros de capitalização, que só estão isentos da Taxa Social Única e que poderiam estar também isentos de IRS.

Terceira frente, flexibilizar o mercado de trabalho: continuamos a ser o terceiro país da OCDE com a legislação laboral mais rígida. É preciso não esquecer que a preocupação durante muitos anos foi a de criar postos de trabalho para reduzir o desemprego, mas a conjuntura mudou radicalmente.

Para melhorar o poder de compra dos portugueses – e dos mais jovens em especial – o tema da Habitação também não pode ser esquecido. O Estado deve contribuir para melhorar a oferta através da agilização dos licenciamentos de construção e de mudanças regulamentares no arrendamento. E, por último, há que apostar fortemente na valorização do ensino profissional e nas parcerias com as empresas.

Sei que não estou sozinha no apelo que quero lançar ao próximo Governo: que tenha em conta esta grande preocupação, minha e de muitos outros empresários, mas também de muitos jovens à procura de emprego, que gostariam de poder trabalhar em Portugal.

Porque este País tem de ser, também, para os mais jovens.