Quero começar por dizer que a palavra “Idiota” tem origem na palavra grega “idiōtēs” (ἰδιώτης), que significa “indivíduo que não participa na vida pública”. Neste sentido, não há dúvida nenhuma que segundo o significado que os gregos davam à palavra, Passos Coelho é um idiōtēs.
A razão pela qual o antigo primeiro-ministro deixou de participar na vida pública, prende-se com a ideia que Fiódor Dostoiévski enunciou no seu livro “O Idiota”. Neste romance, Dostoiévski retrata o Príncipe Míchkin como um homem bom, que por não ter maldade nem segundas intenções nas ações que tomava, acabou por ser tomado por idiota, no sentido moderno do termo. Numa sociedade dominada por gente execrável que vive de enganar o próximo, é perfeitamente natural que um individuo que age de forma séria e que por isso não enriquece de forma ilícita, seja considerado um idiota. Dostoiévski usa o Príncipe Míchkin para contrapor as ideias niilistas, sendo a personagem principal vítima da sua bondade, através do esvaziamento e do esquecimento. Mas no fim, o livro conclui que os verdadeiros idiotas eram os que depreciavam o Príncipe Míchkin e não o próprio.
Depois dos ataques infames de que foi alvo, é natural que Passos Coelho se sinta como o Príncipe Míchkin e que por esse motivo tenha abdicado da atividade política e se tenha tornado um idiōtēs. Durante o tempo em que foi o gestor da insolvência socialista, Passos Coelho foi acusado de ser ladrão, corrupto, racista, incompetente, de odiar os pobres, de ser fraco com os fortes e forte com os fracos, etc. Todos os dias era vilipendiado na praça pública por adeptos de ditaduras assassinas, membros dos governos que levaram o país à insolvência e até por elementos do seu próprio partido, que de forma raivosa o atacavam do ponto de vista político e pessoal. Até José Sócrates, antes de ser preso, se tornou comentador político na RTP, que, pasme-se, acusava o primeiro-ministro de incompetência. Mais uma vez Passos Coelho comportou-se como o Príncipe Míchkin — se fosse como José Sócrates, nunca teria permitido que alguém que o atacava de forma néscia, fosse comentador num canal público de televisão.
Nicolau Santos atual administrador da RTP, é outro exemplo de alguém que usou o espaço mediático para se promover junto do Partido Socialista. Ao dizer um número de alarvidades suficientemente elevado sobre política económica, conseguiu ser mais tarde promovido pela máquina socialista nos órgãos de comunicação social do estado.
Manuela Ferreira Leite e Pacheco Pereira são outros dois exemplos do ponto de indigência a que alguns comentadores chegaram. Estas duas personagens disseram de Passos Coelho aquilo que nenhum socialista disse de José Sócrates. Durante esse tempo a ignomínia andou à solta pelo país e pasme-se, foi recompensada pelos eleitores. Sim, os portugueses elegeram para primeiro-ministro o número dois de José Pinto de Sousa Sócrates. António Costa uma criatura daquilo que o PS tem de pior, trouxe atrás de si toda a tralha socrática que tinha implodido o país. Mais tarde quando o país já mostrava sinais de uma profunda degradação, António Costa e a sua trupe de farsantes, ganhariam as eleições com maioria absoluta.
Apesar do PSD/CDS terem ganhado as eleições legislativas de 2015, a verdade é que a esquerda antidemocrática e corrupta que tinha levado o país para o abismo em 2011, teve quase uma maioria constitucional. Qualquer pessoa minimamente inteligente sabia que a geringonça tinha todos os ingredientes para falhar. Depois de ter sido apeado do poder pelo gelatinoso António Costa, Passos Coelho, prognosticou a vinda do diabo. Embora se tenha enganado no tempo, não se enganou na previsão. A geringonça levou o país para o caos. Mesmo quando o descalabro era óbvio, o país político continuava a aclamar António Costa como “o melhor político da sua geração”. Viveu-se um surto de histeria coletiva de exaltação de um líder que todos sabiam ser um total incompetente.
Podemos também estabelecer uma comparação entre Sócrates (o filósofo) e Passos Coelho. Mesmo para os parâmetros da Grécia Antiga, Sócrates é descrito como alguém que se vestia de forma bastante simples. Quem não se lembra das críticas de que Passos Coelho era alvo por não se vestir com fatos de alta-costura? Tal como Aristófanes que ridicularizou Sócrates nas suas obras, uma determinada comentadora teve o despudor de se referir a Passos Coelho como “O Homem Sem Qualidades”. Essa criatura continua até hoje a proferir as mais completas alarvidades sobre a realidade. Quando estava à espera de ser executado, por supostamente ter corrompido a sociedade ateniense, Sócrates teve oportunidade de fugir da cadeia. Da mesma maneira, aquando da demissão irrevogável de Paulo Portas, Passos Coelho podia ter fugido da pressão que sobre ele recaía e ter abandonado o país. Em vez disso, aceitou tomar até ao fim a cicuta que foi governar um país falido. Tal como Sócrates que foi condenado à morte pela elite da sociedade ateniense, também Passos Coelho foi condenado ao ostracismo, por um sistema adepto do imobilismo e do atraso social. Em ambos os casos, os réus foram condenados não por causa de algum tipo de crime, mas pelo ressentimento que tinham causado ao provarem que os seus inimigos estavam errados.
O conhecido grupo de humoristas Gato Fedorento, conseguiu uma entrevista com o ator (hoje um fervoroso putinista) Steven Seagal, onde supostamente o contratavam para bater em Passos Coelho, por este ter roubado a reforma da avó de um dos elementos do grupo. O ator em causa, sugeriu que em vez de uma “coça”, fosse dado um tiro nos testículos, no ânus ou nas nádegas do então primeiro-ministro. Um dos humoristas sugeriu então, que se desse primeiro um tiro num dos dedos do pé e se depois Passos Coelho continuasse a violar a constituição, talvez se pudesse dar um tiro nos testículos.
Pena que nunca mais fizeram nenhum sketch humorístico deste tipo. Depois de se saber o que a geringonça fez ao país. Podiam ter replicado a ideia e terem pagado um cachê a um nazi para sugerir uma morte de Jerónimo de Sousa numa câmara de gás, a um elemento do Hamas a sugerir a violação e tortura da Catarina Martins num dos túneis de Gaza e a um nacionalista paquistanês para sugerir a morte do português de ascendência indiana António Costa. Quando perguntassem o que é que essas pessoas tinham feito para merecer esse castigo, diriam que a avó a quem tinha sido roubada a reforma, tinha morrido por causa do colapso do SNS. Teriam sido certamente momentos hilariantes de humor de qualidade. Se tiveram coragem de fazer isso a Passos Coelho, porque não fazer o mesmo a outros responsáveis políticos?
Claro está que Passos Coelho e o seu governo cometeram muitos erros, sendo que alguns teriam sido evitáveis. Como é óbvio, nada de mal pode resultar quando num sistema democrático existe um debate duro e sério. Mas na maior parte das situações não foi nada disso que aconteceu.
O sábio Padre António Vieira disse; “Se servistes à pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma”. Passos Coelho não tem razões para estar amargurado, a história saberá fazer o seu julgamento e dos que o vilipendiaram.