As cantigas de amor medievais dão muitas vezes a impressão de ilustrar conceitos que se fossem tomados a sério tornariam a nossa vida sentimental num verdadeiro inferno.  Esses conceitos seriam típicos de costumes remotos que entretanto terão desaparecido, como ficar irritado por não conseguir fazer uma coisa e ficar irritado por conseguir fazê-la. Este fenómeno era conhecido em latim medieval como captum vicesimum secundum. Um poeta da altura resumiu os costumes elegantemente: “Moiro por alguen / que no vej’ e moiro por veer alguen.”

Se os costumes medievais fossem os que são descritos nas cantigas de amor, haveria fundadas razões de preocupação.  Não há porém motivo para imaginar que a vida sentimental nos fins da Idade Média não fosse parecida com a nossa, ou mesmo igual.  Havia então como hoje fantasias, complicações e queixas, algumas por escrito, e sobretudo a ideia de que o amor é um caso sério; e por isso se acreditava, como hoje tantas vezes se continua a acreditar, que as descrições sentimentais feitas por outros, e a poesia alheia de outras pessoas mais experientes, exprimem bem aquilo que em nós é mais pessoal e intransmissível.

A fama das cantigas de amor e a reputação dos seus cantores é porém muitas vezes exagerada pelos adeptos da literatura.   As três únicas cantigas que por costume são atribuídas a um obscuro Anónimo de Santarém (que terá vivido talvez no século XIII), por exemplo, limitam-se a falar de desastres sentimentais no perímetro urbano que lhe era mais imediato, e referem-se exclusivamente a factos santarenos (numa delas o Anónimo queixa-se, como na canção conhecida, de que deixou o coração em Santarém).

Na melhor dessas três cantigas, que começa por “Pero eu vejo aqui trobadores,” o Anónimo Escalabitano levanta dúvidas sobre as cantigas dos seus concorrentes, ou seja, sobre as cantigas de amor feitas por outros.  Os “que trobam d’amor por sas senhores,” observa, não percebem nada daquilo que preocupa uma pessoa em Santarém.  O resumo da teoria aparece no refrão da cantiga: “al é Alfanx’ e al Seserigo!”   “Al” queria na altura dizer ‘outra coisa’; e o Alfange e o Seserigo eram arredores de Santarém.   A frase do refrão quer dizer que Santarém é outra coisa; e que o poeta acha que o amor é diferente em Santarém.

Este argumento defende que a poesia de amor é por definição imprestável para terceiros.   Foi sempre muito minoritário em matérias de poesia.  No século XIII, como ainda hoje, os trovadores juram aos seus leitores que a poesia é geral e filosófica, visto que permite que se possam recortar as cabeças das pessoas de quem se fala nos poemas de amor dos outros, e substituí-las pelas cabeças das pessoas que mais nos convêm.  Para o invulgar Anónimo de Santarém, contudo, nenhum poeta não-escalabitano pode perceber os dramas de Santarém, e toda a poesia é local.