Sempre me fez confusão a necessidade dos meus amigos de esquerda se identificarem com artistas de esquerda. Celebram os escritores de esquerda, cultivam o cinema dos realizadores de esquerda e ouvem com emoção os cantores de esquerda – e muitas vezes cantam as suas músicas com a mesma emoção. Há uma confusão quase genética entre as suas ideias políticas e as artes que apreciam e consomem. As suas referências artísticas são muitas vezes os heróis políticos. Aliás, a mistura entre a arte e a política foi uma tradição do século XX. Em Portugal, desde Álvaro Cunhal até Manuel Alegre, há vários exemplos nas esquerdas onde o político e o artista conviviam intimamente.

É igualmente verdade que durante a segunda metade do século XX, pelo menos na Europa continental, a grande maioria dos escritores, cantores e realizadores, situaram-se à esquerda. Não é assim de admirar que as pessoas de esquerda se identifiquem facilmente, e quase naturalmente, com artistas também de esquerda. Deve igualmente reconhecer-se que as correntes totalitárias de direita tiveram, sobretudo na primeira metade do século passado, os seus artistas de culto e de referência.

Esta realidade coloca uma dificuldade a quem é de direita, anti-fascista e amante das artes, da literatura, por exemplo – mas também do cinema e da música. Onde estão os nossos escritores de direita? O refúgio na cultura anglo-saxónica é uma resposta óbvia. Quando comecei a ler o Spectator, muito mais do que as ideias políticas (aliás, sempre as achei demasiado ‘britânicas” e desajustadas para Portugal) o que me fascinou foi a descoberta de intelectuais de direita. Também havia uma direita, amante da liberdade, critica do socialismo, que gostava de discutir ideias e apreciava as artes. Melhor, escrevia com mais graça e ironia que a esquerda em geral – a qual normalmente se leva demasiado a sério (veja-se os debates no arquipélago Bloco de Esquerda e ilhotas à sua volta).

Mas o refúgio numa cultura estrangeira, apesar da dimensão universal das artes, não é suficiente. A cultura e a arte fazem parte da nossa nacionalidade. E a verdade é que há literatura e música portuguesa com qualidade. As pessoas de direita em Portugal desenvolveram assim uma sabedoria indispensável ao nosso equilíbrio mental. Sabemos distinguir a qualidade dos livros que lemos e das canções que ouvimos das opiniões políticas dos seus autores. Podemos apreciar os livros do Saramago e achar que as suas ideias políticas eram o produto de uma mente totalitária comunista. E passamos uma vida inteira a gostar dos seus livros e a combater as suas ideias. Podemos gostar da música do Jorge Palma, ou dos GNR ou dos Xutos, e considerar que as suas opiniões políticas são a maioria das vezes completamente absurdas e disparatadas.

E o que começa como uma forma de proteger a nossa sanidade mental acaba numa óptima distinção. A direita do século XXI em Portugal não tem figuras de culto nem heróis intelectuais. Apreciamos bons escritores, bons realizadores e bons cantores. Mas na maioria dos casos, não damos importância às suas ideias políticas. Este pluralismo intelectual torna-nos mais independentes e mais livres. Obrigado ao domínio da cultura pela esquerda pela liberdade que nos deu.