Um dia, há muitos anos, um troglodita encontrou um cantinho escuro numa caverna e desenhou lá um rabo. Desde esse dia que a pornografia está connosco, ou melhor, está com os homens. As mulheres não tiveram grande papel nessa história. Hoje, os publicitários venderam-nos a ideia de que uma vida sexual altamente satisfatória é um direito humano básico, e, por isso, é pouco provável que a pornografia desapareça em breve. Faz parte da máquina da sociedade sexual.

Costumava ser bastante difícil tropeçar em pornografia, a não ser que se fosse mãe de um adolescente, caso em que havia sempre o risco de descobrir acidentalmente a sua coleção da Gina escondida debaixo da cama. Lembro-me do horror que senti aos 13 anos, na década de 80, quando uma amiga me mostrou uma revista pornográfica, propriedade de um seu irmão. Nunca tinha visto nada assim. Era uma coisa visceral, cor-de-rosa, brilhante, ainda peluda na altura, e repelente. Mas a pornografia era então encarada pela sociedade em geral como um banquete sujo para ser gozado só pelos mais depravados (e pelos rapazes), e por isso era fácil evitá-la. Tentei evitá-la. Obviamente, não era uma coisa feita para mulheres.

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Hoje em dia, é muito fácil encontrar pornografia. Basta meter dois dedos dentro de Google e, zás!, eis-nos perante pornografia de nível básico, confrontados com a sua carne, a sua calvície corporal, as suas caretas de luxúria e os seus gemidos ambiciosos, todos horrivelmente suados. Teria imensa piada se não fosse tão inexorável e violenta, sem qualquer alma, e devastadoramente misógina… e se não fosse também por causa do resto da bagagem que vem com ela: a exploração, a prostituição, a droga, etc., etc., etc. Este tipo de pornografia procede directamente daquelas revistas reles dos anos 70, com toda a misoginia em anexo. Além das mulheres-de-rabo-pelado e das fantasias óbvias de orgia, dominação e lésbicas que precisam de um homem – aparentemente, as fantasias masculinas favoritas –, há coisas mais específicas e diferentes. No geral, porém, é tudo muito óbvio, muito sexista, e sem apelo para muita gente, especialmente para as mulheres.

Esta espécie de pornografia é reserva dos homens, feita por homens e para homens. É um facto que exsuda de cada uma das cenas pegajosas, suadas, dentro e fora dentro e fora, dentro e fora… As mulheres não fazem parte da máquina, a não ser para fornecer os gemidos, os esgares de orgasmo e, essencialmente, os orifícios.

As mulheres, na sua maior parte, não procuram, pelo menos abertamente, material erótico, porque o que nesse sector prevalece é ainda a versão pegajosa, e a versão pegajosa é repelente.

Pergunto-me, então, donde é que veio o êxito das 50 Sombras de Grey. Porque é que, de repente, um livro destes, percebido como pornográfico (mesmo que “soft”), vendeu 100 milhões de exemplares? 100 milhões de livros vendidos, principalmente a mulheres, significam o quê? Que todas essas mulheres decidiram de repente interessar-se abertamente por material erótico e pornográfico? Ou que estavam apenas à espera de verem essa literatura legitimada pelo facto de todas as suas amigas agora andarem a ler um livro considerado erótico e pornográfico? Vão a pornografia e a erótica tornar-se finalmente “mainstream”?

O sexo explícito tem aparecido em livros e em filmes “mainstream” há décadas, mas nenhum livro nem filme teve o êxito extremo das 50 Sombras. Porquê agora? Porquê as 50 Sombras?

Se o fenómeno das 50 Sombras consistisse no facto de milhões de mulheres terem saído do armário-porno, mesmo que as 50 Sombras fossem uma porcaria (que são), seria positivo. Se realmente há tantas mulheres com interesse em material erótico e pornográfico, talvez as mulheres tenham agora coragem para escrever, desenhar e filmar coisas eróticas, e criar qualquer coisa de diferente para fazer concorrência ao mundo da pornografia pegajosa. Talvez mais mulheres enquanto autoras na indústria ajudassem o mundo pornográfico a tornar-se um lugar mais seguro e decente … para as mulheres.

Receio, porém, que as 50 Sombras, sejam, no fundo, pouco mais do que um fenómeno viral, um romance mau com sexo, que apanhou a onda só por causa do “slogan” acidental que fez dele a “pornografia da mamã”, e porque muitas, mas muitas pessoas não sabem distinguir entre um livro bem escrito e uma porcaria, e porque se tornou aceitável ler lixo em público (lembrem-se que, inicialmente, o livro saiu em edição de autor, já que nenhuma editora quis fazer de intermediária entre o livro e o mundo). Vivemos hoje num mundo dado a fenómenos virais. Todas as semanas, todos os dias, alguma coisa se torna viral e passa a ser conhecida por milhões e milhões de pessoas, por vezes por uma boa razão, mas muitas vezes sem razão nenhuma, e eis-nos todos de repente a discutir uma coisa de que há dois dias nunca tínhamos ouvido falar.

O que é viral é capaz de mudar o mundo um dia quando não estivermos a prestar atenção, porque nunca se sabe o que vai levantar voo e pôr-nos todos a falar. Neste caso, porém, acho que este caso viral vai mudar muito pouca coisa.

Os homens, no entanto, vão continuar desenhar rabos nos cantinhos escuros das suas cavernas.

(texto original inglês traduzido pela autora)

Viral porn

One day, many years ago, a cave man found a dark corner in a cave and drew an arse on it. Porn has been with us ever since that momentous day, or rather, it has been with the men, women didn’t get a look in. These days, a fulfilling sex life is peddled to us by advertisers, our great mentors, as one of our basic human rights, so it’s unlikely that pornography is going to go away anytime soon, it’s part of the sexual society’s machine.

It used to be pretty difficult to stumble across pornography, unless you were the mother of a teenager and you stumbled across his collection of Razzle under the bed. I remember the absolute horror of thirteen year old me, in the early 1980s, after being shown a porn mag from under the bed of a friend’s brother. I had never seen anything like it. It was visceral, pink, shiny, still hairy in those days and repellent. Porn was seen by society as a grimy feast that only the truly depraved (and teenaged boys) indulged in, so it was easy to stay away from. I wanted to stay away from it. It was obviously not for someone like me, someone female.

These days, porn is all too easy to find.  A quick couple of fingers stuck into google and you find yourself bang in the middle of some entry level pornography, up to your armpits in all its horrible, sweaty, fleshy, preternatural hairlessness, lusty face-pulling and ambitious moaning. It would be funny if it weren’t so grim, violent, soulless and devastatingly misogynistic… and all the rest of the baggage all that brings with it: the exploitation, the prostitution, the drugs, etc., etc., etc. This kind of porn is straight out of the cheap and shiny pages of magazines from the 1970s with all the misogyny attached. Beyond the shiny-bottomed ladies and the obvious orgy, domination and lesbian fantasies upon which men apparently thrive, there is more niche stuff, it’s all still very obvious, very sexist, and unappealing to many people. Women.

This kind of porn is a preserve of men, made by men for men. That fact oozes from every sticky, sweaty, thrusty scene. Women still do not make up part of that machine in any meaningful, sensitising way other than providing the groans, orgasm-faces and, essentially, the orifices.

Women, on the whole, don’t, at least openly, go looking for erotica because the sticky kind prevails over all else, and the sticky kind is still repellent.

So, I am left wondering what’s going on with the success of the execrable 50 Shades of Grey. Why, all of a sudden, has a book that is known as pornographic sold 100 million copies? Do the 100 million sales, mostly to women, mean that all those women have suddenly decided that they are interested in discovering erotica and pornography? Were they waiting for it to be legitimised by all their friends reading it? Does it mean that pornography and erotica will begin to become mainstream after all this time? Explicit sex has appeared in mainstream and acclaimed books and films for decades now but no erotic book or film has never taken off like 50 Shades has. So why now? Why 50 Shades?

If the phenomenon of 50 Shades is that women have suddenly come out of the porno-closet, even if 50 Shades is utter drivel, it would be a good thing. If there really is a desire for erotica and pornography in many more women maybe it will give women of all ages the courage to look for more erotica, and to write, draw and film more erotica in the end, competing with the man’s world of sticky porn. We could even dare to dream that more women in the industry would help to make the porn world a safer place to be… for women.

I’m afraid, however, that the phenomenon, after all, is that 50 shades is just a viral hit, a bad romantic novel with sex in it, that caught on just because of an accidentally acquired slogan of “mummy porn” and many, many, too many people can’t discern pure mediocrity from a properly written book — remember that initially it was self-published, no publisher or editor as a gatekeeper — and that it became acceptable to read utter drivel in public. All of a sudden, we are living in a viral world. Every week, every day, something becomes viral, becomes common knowledge to millions and millions of people, sometimes for a good reason, much of the time for no discernible reason at all, and we find we are all talking about something we had never heard of two days ago.

Virality might change the world one day when we’re not looking, because you never know what is going to take off and get us all talking. In this case, though, I don’t think this virality will change much of anything.

Men, well, they’ll just keep drawing arses on cave walls.