Vai aqui um lenitivo para muitas mentes preocupadas com o assunto em epígrafe: Portugal não é racista.

Não o é, no meu entender, porque os comportamentos racistas de algumas pessoas não caracterizam este país, em especial não o caracterizam na relação das pessoas de pele mais clara com as de pele mais escura.

Racismo é uma palavra que só uso pela utilidade de significar o comportamento que expressa menor respeito a outra pessoa só por causa da menor familiaridade com esta, baseada em motivo que, por tradição, determina distinção social.

Não há raças entre pessoas. É seguro afirmar que, no séc. XXI, o conceito de raça não é determinante para quem quer que seja, para o que quer que seja, a não ser na linguagem comum, por causa do referido contexto de tradição que a faz estar presente. Mais uma vez, e ainda mais por este pressuposto da palavra: Portugal não é racista. Há contudo comportamentos marginais que manifestam essa tradição que se baseia na distinção por supostas raças.

Esta semana que passou, vi no Facebook um vídeo de um homem de pele mais escura que lutava com dois polícias. Só uma fatia muito marginal da população em Portugal se revê naquele comportamento dessa pessoa agressora. É um comportamento claramente censurável e que deve ser punido. Não se via que houvesse abuso ou excesso por parte da polícia, viam-se profissionais a procurar deter uma pessoa que, pelo vídeo, era claramente um marginal. Mais efetivos da polícia houvesse e talvez mais segurança teriam tido aqueles, que com a sua profissão, promovem a ordem pública. Entendo, sei por experiência pessoal, que há alguns polícias com comportamentos marginais e que exercem a profissão por vezes com abusos baseados na tradição da distinção por raças. Sei que há, como disse por experiência pessoal, mas também sei, por experiência pessoal, que a grande maioria dos profissionais de polícia não é assim. Tem todo o meu respeito uma pessoa, só por ser pessoa e, ainda mais, se essa pessoa está no exercício da sua profissão, seja de engraxador de sapatos, jardineiro, médico, enfermeiro, professor, advogado… que são funções de promoção do bem-estar dos outros. Ainda mais respeito tenho, quando a pessoa exerce a função que é a de polícia, que para o bem-estar dos outros – o meu bem-estar incluído –tem de enfrentar, em bruto, marginais. A polícia e todas as forças de segurança têm todas por igual o meu respeito, merecem-no e pugno, enquanto cidadão, por que mais respeito e dignidade lhes sejam prestados para desempenharem bem o seu serviço.

Nos comentários motivados por esse vídeo que mencionei, pude ver documentadas muitas afirmações que demonstravam pouco respeito pelo marginal, o qual, como referi, tinha a cor de pele mais escura. Também notei que eram poucos os que demonstravam preocupação pelos polícias. Era mais o “ódio” àquele agressor, o que se lia. Repito, o agressor merecia censura. O agressor comportava-se como um marginal. Todavia, aquele ódio ou censura estava carregado daquela tradição racista. Cheguei a ler algo semelhante a: “Se fosse na América era uma bala no buxo”.

Vi, nas notícias sobre uns motards, comportamentos bem piores face aos mesmos polícias. Tenho ainda a ideia, que resulta também da minha experiência, que mais vezes os mesmos polícias têm de lidar com problemas destes, marginais, com este tipo de comportamento agressivo, em que o agressor é de pele mais clara. Quando o agressor era de pele mais clara, testemunhei a contenção de manifestar tamanho “ódio”, tamanha censura, com termos que manifestavam pouco valor pela vida humana do agressor. Esses comentários do Facebook não eram representativos da maioria dos cidadãos em Portugal. Por vezes, nem seriam representativos das próprias pessoas que os fizeram. São, sim, reveladores daquela tradição que, marginalmente na sociedade portuguesa, se manifesta e causa, pelo menos, desconforto e indignação, quando não, ofensa.

Muitas pessoas de pele escura, que no geral, tal qual as de pele clara, defendem a ordem e a atuação das forças de segurança, também se juntam à censura ao marginal. Mas estas pessoas não têm representação nesse fórum, se nessa censura ao marginal tiverem de associar-se à falta de respeito à pessoa humana. Para as pessoas de pele clara, que não sentem na “pele” o ódio exagerado prestado à pessoa que protagonizou aquele comportamento marginal, bastaria que pensassem na comoção e na indignação de quando o carrasco exagera na punição.

Esses comportamentos de racismo podem causar sérias consequências, como nos Estados Unidos da América se tem vindo a documentar cientificamente tão bem.

É tão errado afirmar que esses comportamentos marginais racistas representam o país Portugal, como afirmar que aquele marginal, agressor, que por um qualquer motivo agredia polícias, representa as pessoas de pele mais escura. São marginais… e os marginais só se representam a si próprios, para o bem e para o mal.

A maioria das pessoas de pele mais escura não se reveem nas manifestações contra os polícias, ou contra os Descobrimentos, etc. Os Descobrimentos serão sempre os Descobrimentos. Na perspectiva europeia, é inegável que foi a descoberta daquelas terras. Certo é, que deve haver respeito pelas pessoas de então e, principalmente, pelas de hoje ao contar, nos nossos dias, essa história que teve amizade e inimizade, paz e guerra, comércio e generosidade, respeito e desrespeito.