Num dia, a cultura é proclamada como espaço de diálogo, diversidade e inclusão. No dia seguinte, vários países anunciam que se recusam a partilhar palco com qualquer artista israelita, qualquer que seja a sua história pessoal. A fronteira entre princípios e ressentimento está cada vez mais difusa.

É neste contexto que a decisão da RTP de não boicotar a presença de Israel na Eurovisão vale muito mais do que um detalhe de programação. Enquanto a União Europeia de Radiodifusão confirmou que Israel continua na competição, quatro países anunciaram que vão boicotar a edição de 2026 em Viena: Irlanda, Espanha, Países Baixos e Eslovénia. A RTP, pelo contrário, não só confirmou a participação portuguesa como apoiou as novas regras que mantêm Israel no alinhamento.

Em Portugal, a reação foi imediata. Trabalhadores da RTP vieram a público dizer que manter a KAN, televisão pública israelita, “contribui para a legitimação e normalização de um Estado acusado de crimes de guerra” e consideram incompreensível que a estação tenha apoiado as regras que preservam a presença de Israel. Mais de treze mil pessoas assinaram uma petição a pedir que Portugal saia da Eurovisão, acusando a RTP de colocar o país “do lado errado da História”.

É precisamente por este clima de pressão que vale a pena olhar com atenção para o exemplo irlandês, até porque ilustra de forma quase perfeita a incoerência moral em que a Europa está a escorregar.

A emissora irlandesa RTE anunciou que não só não participará na Eurovisão 2026, como também não transmitirá o evento, explicitamente em protesto contra a participação de Israel e invocando a situação humanitária em Gaza. A mensagem é clara: é “incompatível” com os valores da estação partilhar um festival com um país cuja atuação considera intolerável.

Mas vale a pena recordar o que a mesma RTE fez ainda no ano passado.

Em 2024, a Irlanda enviou para a Eurovisão Bambie Thug, uma artista não binária, gótica, radicada em East London, assumidamente envolvida com imagética satanista e um universo estético em torno de sexo, pornografia e “blood magic” menstrual. Nada disto, note‑se, foi um problema para a consciência moral da televisão pública irlandesa. Pelo contrário, Bambie Thug foi promovida como símbolo de diversidade e deu à Irlanda o seu melhor resultado desde o ano 2000, terminando em sexto lugar. Em 2025, porém, a mesma emissora declara que se tornou “impensável” o seu representante partilhar um palco com qualquer artista israelita, mesmo quando falamos de uma jovem que sobreviveu a um massacre terrorista.

Isto não é coerência ética. É selecção moral conveniente, feita à medida da indignação das redes sociais.

A escolha irlandesa não acontece no vazio. Desde o ataque de 7 de outubro de 2023 e da guerra em Gaza, relatórios europeus e internacionais sinalizam um aumento acentuado de incidentes antissemitas em vários países. Em alguns Estados europeus, os crimes de ódio contra judeus duplicaram num ano. Noutros, as comunidades judaicas reportam o número mais alto de incidentes de ódio de que há registo, desde agressões físicas a vandalismo de sinagogas, passando por ondas de insultos e ameaças online.

A Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia descreve o antissemitismo como um racismo profundamente enraizado na sociedade europeia e assinala que a esmagadora maioria dos judeus inquiridos sente que este fenómeno aumentou nos últimos anos. Ao mesmo tempo, vemos memoriais do Holocausto vandalizados com graffitis “Free Gaza”, numa ligação simbólica tão reveladora quanto perturbadora.

Neste contexto, quando televisões públicas se apressam a declarar que “não podem” partilhar um palco com israelitas, mas continuam tranquilamente a comprar energia a ditaduras, a negociar com regimes teocráticos ou a ignorar guerras menos mediáticas, a suspeita impõe‑se. A indignação moral parece ter um alvo preferencial. E esse alvo, mais uma vez, são os judeus, os israelitas ou qualquer pessoa que se associe a Israel, mesmo que seja apenas uma cantora pop.

Portugal não está imune a este clima. A pressão sobre a RTP é real e ruidosa. Há trabalhadores da estação pública a pedir que o país saia da Eurovisão, há figuras públicas a juntar‑se à corrente, há petições a ganhar milhares de assinaturas em poucas horas, tudo em nome da defesa da Palestina e da condenação de Israel.

O que quase não se discute é o preço simbólico de ceder a essa pressão. Porque boicotar a Eurovisão não muda um centímetro da realidade em Gaza, não impede a morte de um único civil, não aproxima um milímetro uma solução política. Serve apenas para enviar um sinal confortável à nossa própria consciência e às nossas bolhas digitais: nós fizemos a nossa parte, expulsando os israelitas da nossa festa.

E, tal como no caso irlandês, a escolha nunca é contra o Governo de Israel em abstrato. É contra artistas concretos, técnicos concretos, públicos concretos, muitas vezes judeus da diáspora, que se vêem outra vez ostracizados no espaço cultural europeu. É repetir um padrão antigo com uma linguagem nova.

Quando se discute a presença de Israel na Eurovisão, fala‑se como se estivéssemos a dar palco a um gabinete de guerra. Não é disso que se trata. Em 2025, o país é representado por uma jovem que sobreviveu ao massacre do festival de música Nova a 7 de outubro, escondendo‑se debaixo de corpos para escapar ao rapto ou à execução.

Em vez de levar à Eurovisão um grito de vingança, escolheu uma canção que fala de um novo dia, da dor partilhada, de não chorar sozinho. No ano passado, uma artista israelita com uma mensagem semelhante foi alvo de tentativas de ataque com tinta e de interrupção de palco em Basileia.

É difícil não ver nisto um ritual de humilhação dirigido aos judeus em espaço europeu. A mensagem implícita é brutal na sua simplicidade. Podem ter sido massacrados num festival de música, podem cantar sobre esperança e luto, podem ir à Eurovisão falar de futuro. Mesmo assim, há sempre alguém pronto a dizer que a vossa mera presença é “inconcebível”.

A RTP está longe de ser perfeita. Tem problemas de gestão, decisões editoriais discutíveis, tensões internas. Mas, neste dossiê, fez o que se espera de um serviço público num Estado de direito. Recusou transformar um concurso de canções num tribunal político improvisado, resistiu à tentação de seguir a onda para ganhar aplausos rápidos e manteve a linha básica: a Eurovisão é um evento cultural e não um instrumento de política externa.

Esta posição não absolve Israel de críticas nem ignora a tragédia palestiniana. Manter a KAN na competição não é um aval à condução da guerra. É, sim, uma recusa de confundir governos com povos, exércitos com artistas, decisões militares com canções pop. É a afirmação de que, por muito legítima que seja a indignação com Gaza (e que eu não compartilho mas lamento), não se volta a abrir a porta à exclusão de judeus do espaço cultural europeu.

Quando, daqui a alguns anos, olharmos para esta fase confusa da história do continente, talvez o critério de avaliação seja desconfortavelmente simples. Houve países que, em nome da justiça, aceitaram outra vez afastar judeus e israelitas de palcos, festivais e competições, convencidos de que estavam “do lado certo da História”. E houve países que disseram não a essa pressão.

Desta vez, com todas as suas hesitações e contradições, Portugal escolheu não seguir o moralismo incoerente da Irlanda (e nem falemos da vergonha mas esperada posição espanhola). Recusar esse boicote não é uma demonstração de apoio incondicional a Israel. É um mínimo ético civilizacional: não voltar a fechar portas a judeus em nome de causas que, precisamente, dizem defender a dignidade humana.