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Faria cem anos no dia 3 de Março. Não têm faltado, nem faltarão, iniciativas para lembrar o grande historiador e o grande professor. Mas Jorge Borges de Macedo foi mais do que isso: foi um homem único e irrepetível, de uma cultura polifacetada que ia do conhecimento profundo, meditado, da História e da Literatura do século XIX, ao das manifestações mais populares e quotidianas da cultura na História e na vida. Lembro-me de uma sua análise do “Bolinha”, da BD brasileira, num almoço onde estava um académico que, não só desconhecia por completo o “Bolinha”, como parecia chocado por Borges de Macedo o conhecer e o achar digno de reflexão.

Tinha também um grande sentido de humor, um humor às vezes sarcástico, que não fazia concessões e se exprimia em classificações lapidares, como “um homem de conceitos médios”; em caridosas avaliações, como “a sua exposição pareceu-me modesta… não me faça dizer mais”; ou em descrições inequívocas, como (falando de um intelectual de Abril distinguido pelos poderes políticos) “se estiver num cesto de papéis, não se dá por ele. E é onde ele está bem”.

Era único, original, desconcertante. Um dia, perante o entusiasmo do António Marques Bessa por um historiador medieval, que o Bessa, também para o provocar, elogiava profusamente como autor de uma verdadeira “revolução na História Medieval”, Macedo irritou-se: “Dr. Marques Bessa, Dr. Nogueira Pinto: não podemos afirmar nada com certeza sobre a História medieval portuguesa enquanto não soubermos a data exacta da introdução da charrua na Península. Dr. Marques Bessa, sabe essa data? Dr. Nogueira Pinto, sabe essa data?” Perante a nossa confessada ignorância, baixou a cabeça, esticou o pescoço para a frente e perguntou com ar sibilino: “E esse historiador, dá-vos essa data?” Perante a nossa negativa, fez um gesto largo com a mão e disparou a resposta vitoriosa: “Então, para as urtigas com ele!” Outra vez, discutíamos um confrade com quem ele embirrava: “Mas temos que reconhecer que é inteligente…” dizia-lhe eu; só para que Jorge Borges de Macedo desse a conversa por encerrada com um: “Inteligente? Talvez. Mas nunca vi tanta inteligência ao serviço de tanta estupidez!”

Macedo era assim, directo, expressivo, às vezes brutal. Admirava-o também por isso, pela inteligência fulgurante, eclética e livre, numa classe cheia de pretensiosismos e salamaleques, que muitas vezes procura na linguagem esotérica abrigo para a mediocridade.

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Nos seus tempos de aluno da Faculdade de Letras estivera ligado a movimentos de oposição ao Regime, e mais tarde participou no MUD e apoiou a candidatura de Norton de Matos. Tinha também colaborado no antigo Diabo (1934-1940), onde então escreviam Abel Salazar, Álvaro Cunhal, António Sérgio, António José Saraiva e outros oposicionistas; e também na Seara Nova e no Vértice. Ficou a conhecer bem esse mundo. Depois, evoluiu; e tanto que, em 1974, a seguir ao 25 de Abril, foi saneado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A este propósito, lembro outra história sua: em 1976/77 Macedo tinha voltado ao ensino, a convite da Católica, mas continuava fora da Clássica. Num almoço em que estávamos eu, o António Marques Bessa e um terceiro professor, que tinha acabado de ser admitido de modo talvez mais fácil na Clássica, o dito professor perguntou-lhe quando é que pensava tratar da readmissão; e Borges de Macedo, naquele seu tom único, ao mesmo tempo solto e sarcástico: “Sr. Doutor, voltarei para lá quando todas as pessoas que lá estão irregularmente, inclusive o Senhor, tiverem saído. Não é que tenha nada contra si, mas…compreenderá.”

Tive a sorte de me dar muito com ele depois do meu regresso a Portugal, no princípio dos anos 80. Tínhamos ambos sido perseguidos ou vítimas da Democracia à portuguesa. Na altura tinha começado a publicar o Futuro Presente e convidei-o para colaborar. A sua primeira contribuição, em Setembro-Outubro de 1981, foi uma longa entrevista sobre “a crise nacional”. Foi em casa dele, em Campo de Ourique, num sábado à tarde. Eu levei um gravador e, com o meu jeito para máquinas, gravei mais de meia hora sem gravar nada, já não sei por que falha técnica. Pedi-lhe desculpa, envergonhadíssimo. E testámos. Mas Borges de Macedo, para testar, em vez do habitual 1, 2, 3 ou de qualquer outra banalidade rotineira, lançava em voz solene: “Os habitantes do Celeste Império estavam convencidos de estar no centro do mundo, de serem o Império do Meio…” E repetia-o com a mesma solenidade e convicção sempre que era preciso testar o som.

A entrevista traduz bem o espírito e o projecto do Futuro Presente. Jorge Borges de Macedo consagrou os últimos vinte anos da sua vida ao combate cultural, desconstruindo uma série de mitos sobre a História portuguesa do século XX e sobre as ideologias dominantes depois de Abril, à luz do seu conhecimento e pensamento sobre a História nacional. Não resisto a citar aqui algumas passagens da sua análise.

Sobre o Estado Novo e o seu fim:

O Estado Novo foi derrubado por uma força que havia mais de vinte e cinco anos tinha uma intervenção muito limitada em política: o Exército. Foi este que eliminou, ou deixou eliminar, o Estado Novo e entregou o poder à “oposição”, partilhando-o com ela. Quer dizer, as forças políticas oposicionistas civis nunca foram capazes de impor a sua “alternativa”.

E depois de referir o MUD, as candidaturas de Norton de Matos e de Humberto Delgado, como tentativas que sempre tinham falhado pela “unidade” entre o PC e a oposição democrática, qualificava assim o pensamento das oposições:

Foram limitados e quase sempre de baixa qualidade os textos de análise teórica da realidade portuguesa elaborados por oposicionistas antes do 25 de Abril. Predominou sempre, ditatorialmente, a vulgata marxista que reproduzia o baixo nível que também tinha na União Soviética.

Mas, no seu realismo crítico, também não poupava o anterior regime:

O Estado Novo também não foi rico em doutrinação política, exceptuando, entre outros, o caso do doutor Oliveira Salazar, teórico do antiparlamentarismo, aliás de grande tradição nacional, assim como o significativo e profundo pensamento político-jurídico […] A doutrinação corporativa escrita carece de convicções e de conclusões práticas.

Nem poupava, evidentemente, a Revolução pretoriana:

Por estranho que pareça, este bloqueamento da esquerda portuguesa pelo marxismo estalinista reflectiu-se, sobretudo, no Exército, onde se fixaram tanto o seu monolitismo, como algumas dessas alternativas ideológicas.

E concluía:

E assim, o regime da última fase do Estado Novo, que podemos chamar de direita ambígua, no domínio interno, passou, com o 25 de Abril, para um regime de esquerda ambígua, com algumas marteladas totalitárias.

Estas “marteladas”, para Macedo, vinham do PCP, que, em conversa corrente, designava pela expressão pouco académica de “os Comunas”. “Os Comunas” tinham manipulado parte dos militares; porque:

Um militar sem o culto da Pátria ou é um mercenário ou é um sistemático, quanto mais totalitário, melhor.

A quarenta anos de distância, é fascinante a clareza e o desassombro desta análise. E em meu entender e dos que foram seus alunos – que não foi o meu caso –, Borges de Macedo era ainda melhor a expor, com a sua voz forte e claríssima, que a escrever. Lembro-me de uma conferência sua na rua Camilo Castelo Branco, onde havia um quartel de bombeiros. Estava ele a falar e arrancou um carro dos bombeiros com grande estrépito; Macedo, em vez de parar, subiu a toada e ouvíamo-lo por cima da barulheira dos motores. No final disse-lhe que notara como ele se sobrepunha ao estrépito da maquineta, e vi que ficou contente.

Porque era assim. Era uma força. Uma força moral e uma força física. Um sábio destemido que, depois dos 60 anos, teve uma cena de pugilato provocada pelo insulto de um colega. Jantou em nossa casa nesse dia: “Foi com a minha direita transmontana…”, dizia, ainda perturbado mas triunfante.

Da sua colaboração no Futuro Presente cito mais dois textos que não desmereceram da expectativa com que lhos pedi.

O primeiro, também de 1981, foi no centenário do Portugal Contemporâneo de Oliveira Martins. No seu artigo “Oliveira Martins e o Liberalismo Constitucional”, sustentou a crítica de Oliveira Martins ao liberalismo em Portugal no século XIX. Para Oliveira Martins, “o representante português do socialismo catedrático, bismarckiano”, os “males sociais” do país provinham das “teorias do materialismo individualista” herdadas da filosofia do século XVIII e popularizadas pela Revolução Francesa, teorias que, “sob o nome indefinível de liberalismo”, tinham conduzido “ao materialismo prático, fazendo dos melhoramentos o pensamento exclusivo do povo, e do governo uma agência de caminhos de ferro”. O Portugal Contemporâneo de Martins era “um livro de história aplicada”, uma crónica e uma análise realista e implacável do regime liberal que, depois das guerras civis, trouxera para Portugal uma espécie de “comunismo burocrático”, em que as questões em que se debatia o país se tornaram “meramente administrativas” e “tanto existiam com a Nação como sem ela”. Poderia tê-lo dito agora, perante as discussões de políticas dos partidos do sistema, de onde a Política está ausente.

Assim, para Oliveira Martins, o liberalismo oitocentista falhara na sua função de “dar a Portugal uma dimensão moderna em função do seu génio próprio”. E “se o absolutismo era um puro exercício de poder, o liberalismo era a sua distorção e disseminação para tempos sem espiritualidade nem grandeza”. Resumindo o pensamento de Oliveira Martins, Borges de Macedo concluía que, para Martins, o “liberalismo imposto de cima para baixo” e as “mitologias do socialismo e do iberismo” que gerara como alternativas, não estavam de modo algum consonantes com o espírito e os interesses da Nação.

Deste pessimismo, extraíra o autor da Vida de Nun’Álvares a ideia de uma solução alternativa, de “um pensamento servido por uma espada”, fórmula da reacção à direita que vamos encontrar na solução kaiseriana de João Franco, no reinado de D. Carlos, no sidonismo e, finalmente, na conjunção Ditadura Militar-Salazar.

As duas primeiras foram, como se sabe, inviabilizadas pelo atentado político, pelo assassinato do Rei, que sustentara Franco, e depois de Sidónio. Com Salazar houve tentativas de atentado, mas falharam. Havia uma esquerda radical empenhada, à falta de outras, em formas superiores de luta.

Outro texto de Macedo no Futuro Presente que não posso deixar de citar foi publicado no número de Julho-Setembro de 1984 e intitulava-se “O 1984 de Orwell e as resistências ao Sistema”.

Tem, também aí, observações notáveis. Não resisto, mais uma vez, a partilhar algumas, talvez ainda mais verdadeiras hoje do que então:

No 1984, Orwell quer provar que, pelo pensamento político condutista de esquerda, para conservar o poder, é essencial vigiar acintosamente o pensamento humano. […] Orwell entende, à maneira de Gramsci, que os movimentos antes de passarem à acção se geram e fortalecem no domínio da consciência. Impõe-se pois, em termos de lógica totalitária, que se dê o mínimo campo possível para a concepção de alternativas – a polícia política tem de vigiar, acima de tudo, o pensamento!

Mas para Jorge Borges de Macedo, Orwell, por uma visão humanista laica do sistema totalitário marxista – na forma do sovietismo –, não identificou as formas superiores de resistência que viriam do interior do próprio sistema, animadas por uma perspectiva de “dignidade sobrenatural do homem”, visível na obra e na vida de Alexandre Soljenitsin e já teorizadas por Berdiaev. Macedo fazia questão de reafirmar quer era “sobretudo na renovação da exigência do sobrenatural para assegurar a idoneidade do homem e do dirigente” que assentavam “as verdadeiras alternativas ao totalitarismo”.

Tinha razão em 1984, consciente de que essas forças já estavam a trabalhar. A par da dupla Reagan-Thatcher, o papa João Paulo II repetia as palavras de Cristo aos discípulos quando, vendo-o caminhar sobre as águas e tomando-o por um fantasma, se assustaram: “Não tenhais medo”.

Medo foi uma coisa que nunca vi em Jorge Borges de Macedo. Nem medo da confrontação, nem medo de ir contra a corrente, nem esse medo – tão comum na Academia – de parecer menos “institucional” e menos “erudito” pela clareza da expressão e das posições de princípio.

Jorge Borges de Macedo foi um grande professor, um grande mestre, um grande patriota, que soube unir o conhecimento e a reflexão filosófica e o pensamento da História aos valores da civilização e da nação. Tenho um grande orgulho de o ter conhecido e de ter sido seu amigo.