O Papa Leão XIV foi recebido em França com grande entusiasmo e comoção popular. As imagens dessa recepção, sobretudo em Paris, foram impressionantes, até porque contrastam com a ideia de que a “fille ainée de l’Église”, desde o baptismo de Clóvis, se tem vindo a descristianizar.

Os números, pelo menos os oficiais, vão nesse sentido: metade dos franceses dos 18 aos 60 anos declaram-se “sem religião”; da outra metade, 40% são cristãos (dos quais cerca de 30% católicos e 10% de diversas confissões protestantes) e 10% são muçulmanos. E há pequenas minorias, como os judeus devotos. Acresce que, dos 30% católicos, só cerca de um terço se diz “praticante”.

Desde Clóvis, o primeiro rei cristão dos franceses, que as dinastias reinantes se mostraram grandes defensoras da cristandade: Charles Martel, merovíngio, venceu e parou os invasores muçulmanos, hegemónicos depois da conquista da Península Ibérica. Foi em Poitiers, em 732. E Carlos Magno foi ser coroado imperador do Ocidente, em Roma, no dia de Natal de 800, pelo Papa Leão III. Os seus descendentes reinaram até Hugo Capeto que, em 897, fundou uma nova dinastia; uma dinastia que teve as suas guerras com Roma, com Filipe, o Belo, e a sua disputa com os Templários, e que acabou com Bonifácio VIII. Em 1328, vieram os Valois, e com eles a Guerra dos Cem Anos, contra os ingleses, e Joana d’Arc, Santa Joana, mártir de Orleães. A Guerra dos Cem Anos seria resolvida em meados do século XV, graças à artilharia, aos canhões dos irmãos Bureau, que levaram à expulsão dos últimos ingleses.

Depois, a França traz para a luta política a razão de Estado, com o eloquente “Paris vale bem uma missa”, de Henrique IV de Navarra, o primeiro Bourbon no trono de França.  Richelieu vai teorizar e praticar essa razão de Estado chegando, na Guerra dos Trinta Anos, a aliar-se ao “Turco” contra os Habsburgo. E Luís XIV inventa e institucionaliza a monarquia absoluta, que os outros reis da Europa imitarão no século XVIII, e tem a bênção da Igreja pelos escritos e discursos de Bossuet.

Catolicismo e “anticlericalismo”

Mas essa França da monarquia absoluta acarinhou, nos salões das grandes senhoras, os Filósofos, como Voltaire e os coordenadores da Enciclopédia, cujos escritos e ideias, transformados em política prática, trariam a Revolução de 1789, e com ela o Terror, o primeiro grande Terror da Esquerda, com custos humanos muito altos.

Depois, no século XIX, a França protagonizou o duelo entre o catolicismo e o anti-catolicismo (convenientemente rebaptizado de “anticlericalismo”) que se repetiria em toda a Europa do Sul. Um anti-catolicismo que se radicalizou com Marx e Engels e o seu materialismo dialético, com o “Manifesto Comunista”, com as ideias de guerra total entre Burguesia e Proletariado, com a definição da religião como “ópio do povo”. A Revolução Francesa, no Terror, já se tinha empenhado na perseguição religiosa, com muitos milhares de católicos assassinados, entre os quais os sacerdotes ditos “refractários” (os que se quiseram manter fiéis à fé e se recusaram a jurar a laicidade da “constituição civil do clero” e a pactuar com as paranóias robespierrianas do culto e dos templos da Razão).

Napoleão veio depois pacificar as relações com Roma e parar as perseguições. Mas o marxismo renovou-as na Comuna de Paris, com o fuzilamento do Arcebispo Darboi e de vários padres.

“Le cléricalisme, voilá l’énnemi!”, foi a famosa frase de Léon Gambetta em 1877, na Câmara dos deputados. E a Terceira República, começada sob o signo conservador da “República dos Duques”, já depois do “Affaire Dreyfus” tornou-se, com o ministério Combes, um regime radicalmente anti-católico que, aqui em Portugal, na Primeira República, os democráticos de Afonso Costa quiseram replicar.

O “Affaire” dividira profundamente e radicalmente os franceses: o católico pouco cristão Charles Maurras, com o nacionalismo reaccionário anti-semita, deixava uma marca identitária e radical no nacionalismo francês, mas fizera frente à esquerda intelectual e lançara as raízes de uma “nova direita”, que teria influência na Europa do Sul e na América latina.

Bem diferente foi o nacionalismo, esse bem cristão, de Charles Péguy, poeta e patriota, que escrevera no seu poema Ève:

“Heureux ceux qui sont morts dans les grandes batailles

Couchés dessus le sol à la face de Dieu”

Foi o que lhe aconteceu no Outono de 1914, no Chemin des Dames.

O poema de Péguy era bem próximo, em espírito e forma, do pensamento do seu amigo, Ernest Psichari, neto de Renan, também ele católico, fiel, escritor e patriota morto nos primeiros dias da Grande Guerra, em 22 de Agosto de 1914: “Mourir jeune dans une grande bataille, voilá le suprème bonheur”, escrevera.

Péguy e Psichari eram também de uma geração de intelectuais católicos, crentes e críticos, que continuaria com Jacques Maritain, Georges Bernanos e Paul Claudel, que, cada um a seu modo, dariam continuidade à ideia da França como filha primogénita da Igreja.

Tal como outras sociedades europeias, a França do século XX foi-se descristianizando. A radicalização política entre guerras, a derrota de 1940, a ocupação, a colaboração, a resistência, o pós-guerra, o fim do império francês, a guerra da Argélia, foram o pano de fundo político dessa descristianização. Mas também Sartre, o existencialismo, o Maio de 68, contribuíram para a nova imagem da França, filha dilecta do neo-marxismo e do hedonismo.

A resposta de Leão à música celestial de Macron

A presidência de Macron, o financeiro da banque d’affaires, o ministro tecnocrata e socialista da Economia e Indústria, retomou essa laicidade agressiva, activista, anti-católica, em duas medidas legais cheias de simbolismo: a inclusão do direito ao aborto na constituição francesa, e a recente campanha e aprovação parlamentar da chamada “morte assistida”, da eutanásia.

No seu modo firme que já mostrou com outros poderosos deste mundo, Leão XIV não se deixou encantar pelo charme e pelo discurso celestial do presidente francês que, ao recebê-lo no Eliseu, o brindou com as maravilhas da “laicidade francesa”, tolerante e respeitadora da herança cristã da História da França. Na resposta, o Papa lembrou que uma laicidade bem entendida “não excluia a dimensão religiosa, mas sabia, pelo contrário, tirar daí partido como fonte educativa”. E depois, para que não restassem dúvidas sobre o que o Papa, a Igreja e as comunidades católicas pensavam e sentiam sobre as campanhas pró-aborto e pró-eutanásia do governo de Macron, voltou a sublinhar que “a protecção do direito à vida” constituía “o fundamento incontornável de todos os outros direitos humanos”.

As manifestações populares, em Paris e nos outros pontos de paragem de Leão XIV– em Metz e Lourdes –, foram impressionantes, e um inequívoco sinal de esperança. E o Papa equilibrou bem, simbolicamente, os seus passos: em Paris, esteve na comunidade de imigrantes pobres, Maison Bakhita, esteve com as vítimas de abuso sexual cometido por membros da  Igreja francesa e rezou no mosteiro dos Carmelitas onde, em 2 de Setembro de 1792, tinham sido massacrados os 115 bispos e sacerdotes que se recusaram a aderir à constituição civil do clero. Uma pequena parcela das muitas dezenas de milhares de fiéis assassinados durante a Revolução, em nome da “Liberdade, da Fraternidade e da Igualdade” –  dos decapitados aos massacrados na Vendeia, dos afogados de Nantes, por Carrier,  aos prisioneiros esquecidos dos barcos-prisão.

Em Paris, em Lourdes, em Metz, Leão XIV não evitou o confronto com um poder político individualista e laico-hedonista que, contra os princípios cristãos de defesa de vida, no princípio e no fim, representava, não a França “filha primogénita da Igreja”, mas a França da laicidade militante, cujas acções e omissões o Pontífice não ignorou nem tolerou.

É interessante e educativo ver as personalidades políticas presentes na missa dominical em Paris: Macron não foi, mas esteve a sua mulher, Brigitte, bem como o primeiro-ministro Sébastien Lecornu, o macronista Gabriel Attal, o conservador Bruno Retailleau e o antigo presidente Sarkozy. A chamada “direita radical”, laica ou não, esteve em peso – Marine Le Pen, Jordan Bardella, Marion Le Pen, Éric Zemmour, Sara Knafo. A Esquerda moderada e radical não compareceu, por uma questão de princípio.

No fim, perante tão massiva e inesperada adesão do povo ao Chefe da Igreja Católica, Emanuel Macron, “por mera cortesia de Chefe de Estado laico” mudou de planos, reorganizou a agenda e decidiu, à última hora, assistir à missa em Metz.  Afinal, um bom banho de multidão, de que estava tão carente, valia bem uma missa.