Cada vez mais se vê nas redes sociais ou se ouve em conversas entre amigos a expressão “se não está no Strava, não conta”. À primeira vista é uma piada, mas no fundo já não é assim tão piada.
O Strava é uma aplicação onde utilizadores e atletas registam as suas atividades físicas, como corrida, bicicleta, natação ou ginásio, e partilham-nas com a comunidade. Outros utilizadores podem interagir, deixar comentários ou dar o seu feedback através dos famosos “kudos”. No fundo, acabou por se tornar um palco público, que muitas vezes me faz questionar se hoje treinamos para evoluir ou para mostrar.
Podemos olhar para isto em dois eixos. O primeiro é o lado positivo: o Strava pode ser inspirador e responsabilizante, gera comunidade, apoio, consistência e até empatia. O reconhecimento dos outros, através dos “kudos”, pode ser motivador e reforçar a sensação de progresso.
Mas há o outro lado, que me levanta a verdadeira pergunta: se não partilharmos a nossa atividade, ela deixa de contar? Ou pior, deixa de nos motivar?
Quando aprofundamos este segundo eixo, entramos no lado performativo do desporto amador. O treino passou a ser conteúdo. Muitos ajustam o que partilham, escondendo os treinos menos conseguidos, as corridas lentas ou os dias em que o corpo não respondeu. A performance passou a ser medida também pelo número de “kudos”, e isso transforma o que devia ser libertador numa pressão invisível para estar sempre presente.
A meu ver, o verdadeiro treino acontece no silêncio, nas manhãs frias e nos dias em que ninguém vê. Vivemos num tempo em que o que se vê parece importar mais do que o que se faz. O Strava, ou qualquer aplicação semelhante, leva-nos a sentir que não basta treinar, é preciso mostrar que se treinou.
Mas a disciplina é feita de repetições discretas, não de aplausos.
E talvez, só talvez, o que não está no Strava seja precisamente o que mais conta.