Na passada segunda-feira, no jogo do Campeonato do Mundo entre Espanha e Cabo Verde, o guarda-redes da seleção de Cabo Verde passou de cerca de 50 mil seguidores para milhões nas redes sociais.

Um jogo.

E isto fez-me pensar.

Durante muitos anos, o desempenho de um atleta tinha um caminho relativamente simples de perceber. Jogar bem significava ganhar espaço, valorizar-se desportivamente, conseguir um melhor contrato ou, em muitos casos, dar o salto para outro patamar competitivo.

Hoje continua a ser assim.

Mas parece-me evidente que já não é só assim.

O desempenho dentro de campo passou também a ter uma consequência quase imediata: atenção.

Um grande jogo pode transformar um atleta pouco conhecido numa figura global em poucas horas. Seguidores, alcance, notoriedade. Tudo acontece à velocidade das redes sociais.

E talvez a parte mais interessante nem seja esta acontecer com atletas já consolidados ou figuras globais do desporto. Esses, de certa forma, já vivem da notoriedade.

Aqui estamos a falar de atletas com pouca exposição mediática, pouca notoriedade e que, através de um desempenho ou de um momento, conseguem mudar completamente a dimensão da sua imagem pública em poucas horas.

Até há pouco tempo, isto parecia reservado às grandes estrelas. Hoje já não.

E isso talvez mostre que o jogo já não se joga apenas dentro das quatro linhas.

A verdade é que um atleta que antes valorizava sobretudo pelao seu desempenho desportivo passou também a ter outro tipo de valor. Um valor mediático. Um valor comercial. Um valor que pode fazer com que marcas olhem para ele não apenas pelo que joga, mas também pela capacidade de chegar a pessoas.

E a pergunta que me faço é simples: será que isto também muda a motivação dos próprios atletas?

Porque hoje um grande desempenho não vale apenas reconhecimento dentro do campo. Pode significar uma audiência nova, possíveis negócios publicitários, novas oportunidades e até uma forma de construir algo paralelo à carreira desportiva.

E atenção, não vejo isto necessariamente como algo negativo.

Aliás, faz sentido que um atleta consiga capitalizar um momento alto da sua carreira. O desporto sempre viveu de desempenho.

Mas talvez seja impossível ignorar que as regras do jogo mudaram.

Hoje, um grande momento já não fica apenas na memória de quem viu o jogo. Fica nas redes sociais, gera conversa, cria seguidores e pode até mudar a dimensão comercial de uma carreira.

Mas existe algo que, felizmente, continua igual.

Sem performance dificilmente existe atenção.

O talento, a consistência e o rendimento continuam a ser o ponto de partida.

A diferença é que hoje os atletas não competem apenas pelo resultado.

Competem, muitas vezes, também pela atenção.