Li com atenção o recente artigo de opinião publicado no Observador sobre arquitetura,  habitação e o desgaste quotidiano da prática profissional. O diagnóstico é duro e, em  grande medida, verdadeiro. Discute-se o futuro das cidades sem ouvir quem as projeta;  anunciam-se medidas estruturais que ignoram os ciclos longos do projeto e da construção;  produz-se ruído politicamente eficaz, mas profissionalmente destrutivo. Mas num debate desta importância, o contraditório não é ruído: é método. E se  concordamos no retrato do que está mal, divergimos no essencial sobre as causas  profundas e, sobretudo, sobre o que depende de nós para mudar o rumo.

É preciso ir mais fundo nas causas e, sobretudo, assumir responsabilidade sobre as  soluções.

Há demasiado tempo, a fragilidade da arquitetura é explicada quase exclusivamente pela  burocracia, pela ineficiência administrativa e pela ausência de políticas públicas  consequentes. Tudo isso é real e relevante. A burocracia transfere custos, cria incerteza,  destrói valor e penaliza quem trabalha no terreno. No entanto, mesmo que amanhã esses  entraves desaparecessem, a profissão continuaria estruturalmente vulnerável. O problema  não é apenas administrativo. É económico.

A arquitetura perdeu relevância política porque perdeu relevância económica.

Quando uma profissão deixa de ocupar uma posição estratégica na cadeia de valor, deixa  também de ser chamada às mesas de decisão. Não por falta de competência técnica, mas  por perda de peso económico. Num sistema onde quem cria valor não controla processos nem participa nas decisões finais, a influência desaparece. E quem não decide deixa de ser  escutado.

Este afastamento não foi imposto de fora. A profissão não foi empurrada para fora do centro  económico; escolheu permanecer numa posição cuja relevância foi sendo  progressivamente erodida, enquanto o tabuleiro económico se alterava à sua volta. O  modelo de prestação de serviços, adequado a um contexto passado, tornou-se insuficiente  num mercado onde o valor se cria, se captura e se decide noutras fases do processo.

O artigo do Observador sublinha repetidamente o risco assumido por quem abre um atelier  ou desenvolve um projeto. Esse risco existe, mas importa clarificá-lo. Trata-se, sobretudo,  de risco de rendimento, de tempo e de sobrevivência profissional. Na cadeia de valor da  construção, o risco maior — o risco de capital, de execução e de mercado — pertence a  quem investe e a quem constrói. E é aí que se concentram também a decisão e o retorno.

Enquanto a arquitetura se mantiver exclusivamente na lógica da prestação de serviços,  continuará presa ao pior dos dois mundos: assume responsabilidades e exposição, mas não controla o processo nem participa plenamente no valor criado. É legítimo exigir melhores  condições; mas é ilusório esperar que elas surjam sem uma mudança de posição.

A alternativa passa por recuperar agência económica. Não se trata de pedir honorários mais  altos, mas de criar condições para recusar honorários indignos. Isso implica reposicionar o  arquiteto ao longo da cadeia de valor: deixar de intervir apenas como prestador de serviços  e passar a participar nas fases onde o valor é efetivamente criado e decidido. Em termos  práticos, significa poder promover projetos próprios, integrar decisão, risco e retorno, e  assumir um papel ativo na condução do processo imobiliário, individualmente ou em  parceria. Esse reposicionamento não exige novas competências técnicas, essas já existem,  mas uma reorganização consciente do papel profissional ao longo da cadeia de valor e da  sua relação com o mercado.

Importa sublinhar um ponto decisivo: este reposicionamento não pressupõe a acumulação  prévia de grandes quantidades de capital, nem a adoção do modelo tradicional de  promoção imobiliária. Existem hoje estruturas económicas e modelos de negócio que  permitem participar na criação de valor, partilhar risco e aceder ao processo sem barreiras  financeiras significativas. A limitação não é técnica, nem financeira, é conceptual.

Quando o arquiteto conquista autonomia económica, o impacto vai muito além do  rendimento. Recupera tempo para pensar, capacidade de escolha, margem ética e  responsabilidade pública. A arquitetura deixa de ser reação à urgência da sobrevivência e  volta a ser projeto de longo prazo. E quando isso acontece, o território ganha inteligência.

Este movimento não depende de unanimidade. A história económica mostra que uma  minoria consistente é suficiente para alterar referências de mercado. Basta que uma fração  significativa da profissão opere com autonomia, risco partilhado e maior qualidade para  que o sistema se reequilibre. Surgem novas referências de valor, ajustam-se expectativas e  todos beneficiam, mesmo os que não aderem de imediato. A liberdade de alguns cria  dignidade para todos.

É aqui que importa distinguir duas vias que não se excluem, mas que não podem ser  confundidas. A via institucional é necessária. O Estado pode corrigir sintomas. E a via da  autonomia que é inadiável. A profissão tem de corrigir a sua posição.

Continuar a esperar que a valorização venha apenas de fora é prolongar a dependência.  Assumir a responsabilidade pela própria posição económica é o primeiro passo para  recuperar relevância económica, política, social e cultural. Não se trata de abandonar o  debate público, mas de voltar a ele com peso, com proposta e com capacidade de decisão.

A arquitetura não precisa de ser resgatada. Precisa de se reposicionar. Só assim deixará de  pedir para ser ouvida e passará a ser inevitável.