Esta semana foi tornado público o relatório do projeto-piloto da semana de quatro dias na Administração Pública Regional dos Açores. É o segundo piloto em Portugal, depois do teste no setor privado em 2023, e o sexto à escala mundial no setor público. O projeto decorreu no primeiro semestre deste ano e foi coordenado cientificamente pela professora Rita Fontinha, da Henley Business School. Em 14 entidades, com cerca de 400 trabalhadores, testou-se a redução do horário de 35 para 32 horas semanais, em dois formatos: quatro dias de oito horas, ou quatro dias e meio, em que as três horas a menos se traduziam numa tarde ou numa manhã livre. Não houve contratações adicionais, e era preciso garantir o mesmo horário de funcionamento através de sistemas de turnos.

Durante o piloto, e nos três meses que o antecederam, as reuniões regulares de preparação com as equipas de implementação centraram-se num objetivo: aumentar a produtividade por hora de forma a manter o serviço prestado. Cada entidade propôs métricas objetivas de produtividade, como o número de processos ou atendimentos, o cumprimento de prazos ou a capacidade de resposta, que comparámos com o período homólogo de 2025. Das 182 métricas observadas, 62% melhoraram ou melhoraram substancialmente, 17% mantiveram-se e apenas 21% pioraram. O exemplo mais extraordinário é o da RIAC, a Rede Integrada de Apoio ao Cidadão. Aí, a semana de quatro dias não obstaculizou um aumento do número de atendimentos em todas as ilhas, em alguns casos de mais de 50%. Ainda mais relevante foi a diminuição de 43% nas horas de encerramento forçado das lojas. No Centro de Contactos, a taxa de abandono das chamadas diminuiu em quatro dos seis meses do teste.

Este efeito na produtividade não aconteceu por acaso. Resultou de um esforço enorme das equipas e de uma grande preparação. Começou com uma escolha inteligente do formato, assente numa análise dos fluxos de utentes ou do trabalho ao longo da semana, para escolher o dia, a manhã ou a tarde livre. Os dias de ausência caíram 15%, uma evolução três vezes mais favorável do que no grupo de controlo, que compensou cerca de 20% da redução de horas. O aumento do uso de inteligência artificial foi três vezes superior ao do resto da administração pública, tanto em frequência como em intensidade. O ritmo de trabalho aumentou, e melhoraram tanto o desempenho individual como o trabalho de equipa.

Os resultados nos trabalhadores foram extraordinários, como em todos os outros pilotos da semana de quatro dias. O ponto de partida das 35 horas é enganador: em média, trabalhavam-se à volta de 37 horas por semana, e muitos trabalhadores faziam mais de 45 horas. Uma redução efetiva de mais de duas horas e meia teve um impacto enorme na saúde física e mental. Diminuíram os sintomas negativos de saúde mental, melhorou a conciliação entre trabalho e vida pessoal, aumentaram a satisfação e o bem-estar, e os trabalhadores passaram a dormir mais e a fazer mais exercício físico. Quase 90% gostariam de continuar neste formato e, em média, valorizaram a nova organização do trabalho em 36% do seu salário. Foram as mulheres, os trabalhadores com mais de 50 anos e os que têm salários mais baixos que mais valorizaram.

Chegamos, por fim, ao ponto mais sensível: esta experiência foi feita no setor público. Ouvimo-lo durante o piloto e vamos certamente lê-lo nas caixas de comentários, o argumento mais primário de todos: os funcionários públicos são preguiçosos, já não fazem nada e agora ainda vão trabalhar menos.

A assimetria entre os setores é inegável. No setor público trabalham-se menos horas do que no privado e, com exceção de algumas profissões de topo, os salários têm sido historicamente mais elevados para funções equivalentes. Mas usar este tipo de argumentos é injusto e tacanho. Por um lado, muito do trabalho no setor público é exigente, sensível e da mais elevada responsabilidade. Muitos funcionários trabalham bastante mais horas do que as previstas no seu contrato e sofrem dos mesmos problemas de stress e burnout que existem no resto da economia. São, muitas vezes, as primeiras vítimas de um sistema burocrático sobre o qual têm muito pouca capacidade de influência. Por outro lado, se achamos que há injustiças entre setores, porquê nivelar por baixo? Porque não usar esta assimetria para melhorar as condições no setor privado?

No fim de contas, o que importa não é trabalhar mais ou menos, mas sim trabalhar melhor. E a semana de quatro dias permitiu alcançar esse objetivo.

Não existe inovação sem experimentação. A Administração Regional dos Açores fez o que poucos, no setor público ou no privado, têm coragem de fazer. Testou durante seis meses, solicitou uma avaliação independente, voltou ao regime normal e vai agora refletir sobre os resultados. Fez tudo bem. Graças a essa atitude descomplexada, aprendemos muito. Além do relatório, fica um guia de implementação, preparado em conjunto pela equipa jurídica e pela equipa científica. Tanto quanto sabemos, é o primeiro documento feito especificamente para apoiar a implementação da semana de quatro dias na Administração Pública, e pode servir de referência a outros governos e organizações públicas, em Portugal e lá fora.

O debate sobre se os funcionários públicos devem trabalhar mais ou menos pode continuar; o Governo Regional dos Açores preferiu descobrir como se trabalha melhor. Que sirva de inspiração!